No meio do caminho, uma escada

Às vezes, o trajeto para chegar a uma atração é mais memorável do que ela. Mesmo sendo o Coliseu

Fui a Roma. Com amor, pois meus ancestrais vieram daqueles lados. Estar em um dos berços da humanidade mexeu comigo. Panteão, vespas barulhentas, sítios arqueológicos. Mas parece que as múmias romanas não só ainda estão vivas como gerenciam o metrô da Cidade Eterna. A Termini, a mais importante estação de trem da capital, não tem acesso por elevador em todas as suas plataformas, e eu precisava fazer uma baldeação para chegar à estação Colosseo para ver o próprio. Seria preciso encarar duas compridas escadas rolantes, tarefa árdua para um sujeito que usa cadeira de rodas e viaja sozinho.

Quando me vi diante daquele movimento frenético, percebi que, se dependesse da solicitude dos romanos, mofaria. Fiz então uso de minha envergadura e me agarrei aos corrimãos de borracha para iniciar a operação subida. Comecei bem. Na metade do trecho, porém, minha calça jeans foi perdendo atrito com a almofada da cadeira e eu tombei para a frente. A cadeira ficou.

Com meu italiano macarrônico, pedi aos dois homens que estavam atrás de mim que retirassem a cadeira de rodas do caminho quando ela chegasse ao topo da escada. De minha parte, do jeito que desse eu tentaria me arrastar. Mas eu não contava com que duas freiras que subiam na minha frente, ao me ver caído, esquecessem de olhar para o degrau justo no momento em que a escada rolante acabava. Elas caíram com as pernas para o ar, numa cena tragicômica que não seria inverossímil num filme de Fellini. Uma balbúrdia.

Temi ser pisoteado, mas fui erguido de volta à cadeira pelos dois homens, enquanto as freiras eram resgatadas do chão por outros indivíduos caridosos. Depois segui até o embasbacante Coliseu e, na volta, preferi pegar quatro ônibus em vez de metrô.

Aquele não foi o meu primeiro tombo em viagens e provavelmente não será o último. Não me arrependo de ter, digamos, beijado a lona. Penso que esses percalços dão tempero à vida e trazem memórias que não se apagam. Eu faria tudo de novo. Mas torço para que, numa próxima, Roma me receba com mais elevadores.

Bruno Favoretto* deu grazie a Dio quando finalmente chegou ao Coliseu

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