Meninas ricas

Champanhe, Hermès, Calatrava. Nossas finérrimas repórteres mostram o lado realmente glamouroso de Buenos Aires, aquele que você não viu na TV

Ao partir rumo à Argentina para preparar a segunda edição do GUIA QUATRO RODAS BUENOS AIRES, que chega às bancas no fim de abril, nós esperávamos muito trabalho e algum glamour. Sim, jantamos nos melhores restaurantes da cidade, mas mais sozinhas do que morador do Edifício Master. Enquanto Ciça ia ao La Bourgogne, Mirela tinha de experimentar o Gioia. Está certo, fizemos umas comprinhas juntas e nos encontramos algumas vezes para falar mal da maquiagem alheia. Definitivamente não somos Val nem Narcisa, algumas das socialites de Mulheres Ricas, o reality show de verão da Band. Elas passaram um fim de semana esbanjando na capital argentina; nós suamos o echarpe, mas aproveitamos. Elas, coitadas, foram pelo Caminito errado. Orientadas sabe-se lá por quem, escolheram atrações em Buenos Aires pouco glamourosas para conhecer. Caminito? Heloooooooooou! Jantar no italiano Piegari? Ficamos em São Paulo. Não sei se elas pretendem voltar logo à capital argentina, mas decidimos contar, para os leitores da VT e para elas também, onde moram o glamour e a elegância bonarenses. Mesmo que Tônia Pérola Mendez, nossa professora do grand monde, não aprove as escolhas.

Não adianta inventar. A Recoleta, do famoso Cemitério, é ainda o bairro onde estar. Os palacetes da Avenida Alvear, os ótimos museus e as lojas de grifes internacionais concedem aos mortais o doce sabor do luxo. A Alvear é a Avenue Foch da Pequena Paris, como Buenos Aires seria chamada após o plano de reurbanização de 1883. Nela está o ícone Alvear Palace, hotel que completa 80 anos em 2012.

Mordomo, cortinas de veludo, móveis Luís 16, lustres de cristal: todos os elementos que remetem a um verdadeiro hotel de luxo estão ali, ululantes. A um quinhão disso você também passa a ter direito se ficar para o brunch de domingo no solário, a AR$ 420 (R$ 174). Isso, claro, se não quiser pagar os cerca de R$ 800 da diária. No spa, com mosaicos italianos e piso de mármore, os cosméticos são da suíça La Prairie, e os amenities, da Hermès, exclusivamente para o hotel. Com sorte, você pode cruzar com o top argentino Ivan Piñeda, que já desfilou para a Versace e é habitué da academia – e confundi-lo com um dos instrutores, como nós fizemos. Vai ao brunch? Banque a portenha fina: maquiagem despretensiosa, vestido vaporoso e salto baixo.

Lá dentro, o restaurante ’Orangerie, onde ele é servido, tem um elegante solário, um átrio envidraçado repleto de plantas e muita luz natural. No salão interno, também com algumas mesas, toda sorte de futos do mar – vieiras, camarões graúdos, mariscos e ostras –, queijos, caviar, jamón e carnes argentinas. Acompanham o festim espumante e Malbec, este de marca e safa particularmente não felizes. Os garçons, de paletó vermelho e luvas brancas, não se deixaram perturbar com o flash que espoucava sobre nós na sessão de fotos. Nós sabíamos o que pensavam: serão BBBs?

Outro brunch dominical chiquérrimo acontece dentro da Mansión Alzaga Unzué, incorporada ao Hotel Four Seasons, e custa AR$ 395 (R$ 163). O palacete de 1920 foi um regalito de casamento do aristocrata Félix de Alzaga Unzué para sua noiva, Elena Unzué, que usava na cerimônia um vestido ajustado na cintura, o que criou um bafafá. Mas o que rolou mesmo, a gente conhece essas coisas, foi invejinha do diamante gigante que Elena ganhou na ocasião. A residência teve os cômodos superiores transformados em sete luxuosas suítes. Passar um feriado prolongado em uma delas não sai por menos de US$ 3 000 – dinheiro que Madonna não deve desembolsar quando fica lá. O brunch era mais lunch do que breakfast: ostra, caviar, paella, carnes argentinas, um balcão (vulgar) de comida japonesa. Finas como somos, escolhemos um salão mais privativo, ao fundo, de decoração mais-siso-do-que-riso. Garçons não deixavam nossas taças de espumante Catena Zapata se esvaziarem. Tricotávamos e confaternizávamos ao som do piano mais pop e elegante do continente – que ia de Lady Gaga a Coldplay.

Comer no classudo Le Mistral, do Four Seasons, ou no La Bourgogne, de ótima cozinha francesa, no Alvear Palace, é fino. Mas certamente os restaurantes mais sofisticados de Buenos Aires estão dentro do Palacio Duhau Park Hyatt. A construção é um palácio mesmo, de 1934, hoje um anexo do Hyatt, com 23 quartos. O restaurante Duhau tem uma parrilla verdadeiramente AAA (uma das três raças de cortes servidas é o wagyu, o top-top da maciez).

A Pequena Paris pode ainda se gabar da quantidade de lojas de marcas internacionais. Os quarteirões entre as avenidas Alvear e del Libertador, também na Recoleta, dão asas aos sonhos de qualquer dondoca. No Shopping Pátio Bullrich há Salvatore Ferragamo, Carolina Herrera e Hugo Boss. A duas quadras está a Fendi (que couro argentino, que nada…). Na Avenida Alvear estão ainda Louis Vuitton, Hermès, Ralph Lauren e Ermenegildo Zegna. Mas, se você é jovem o suficiente para acreditar que é preciso valorizar os locais, na Jackie Smith as bolsas de couro italiano desenhadas pela argentina Valeria Smith (que tem loja em Nova York) são inspiradas em Jackie O. Já as jaquetas e bolsas da chiquérrima Rossi & Caruso vestem da alta sociedade portenha à família real espanhola.

Ainda na Recoleta, um imponente palacete em estilo eclético fancês de 1918 guarda o Museu Nacional de Arte Decorativo, com 4 mil obras acumuladas pelo casal Josefina de Alvear e Matías Errázuriz Ortúzar durante os dez anos em que viveram na Europa. Como alguns vasos chineses e óleos de El Greco e Manet. Ou uma das 150 reproduções numeradas de O Pensador, de Rodin.

Mais conhecido dos brasileiros, o Malba, em Palermo, também guarda preciosidades de uma coleção particular, a do mecenas Eduardo Costantini: ali repousam, junto com outras importantes obras de arte moderna e contemporânea latinoamericana, Abaporu, de Tarsila do Amaral, e um autorretrato de Frida Kahlo (Eduardo Jr., filho do mecenas, prefere investir no cinema – ele colocou US$ 2 milhões em Tropa de Elite, por exemplo).

Assim como alguns cariocas torcem o nariz para a Barra da Tijuca, há portenhos que não engolem Puerto Madero. Nós, brasileiros, não estamos nem aí e paramos para a enésima foto na Puente de la Mujer, do arquiteto Santiago Calatrava. Madero revitalizou muito bem a antiga área portuária decadente. E, se tudo tivesse dado errado, só a presença do Faena + Universe já justificaria o plano urbanístico. O hotel fica num galpão centenário totalmente repaginado pelo aclamado designer Philippe Starck (Delano, Fasano etc.). A fonte da bela piscina de mármore tem o desenho de uma grande coroa dourada. No entorno, as confortáveis espreguiçadeiras são ideais para o banho de sol durante o dia e, à noite, para bebericar e trocar olhares com os melhores partidos da cidade. Foi ali, aliás, numa noite após um jantar no El Bistro (os unicórnios nas paredes chamam mais atenção do que a comida), também dentro do Faena, que conhecemos o Library Lounge, o bar ao lado da piscina. Pena que não eram os guapíssimos argentinos que nos fitavam, mas sim as medonhas cabeças de antílope da decoração! Recentemente, o grupo hoteleiro estreou o cult Faena Arts Center. O espaço, um antigo moinho, tem uma sala com 9 metros de altura (um edifício de três andares) concebida para receber instalações gigantescas que não fariam feio em Inhotim, como o O Bicho Suspenso na Paisagem, do brasileiro Ernesto Neto, que inaugurou o centro de exposições em setembro do ano passado.

Mas a melhor atração de Puerto Madero fica na outra ponta, às margens do dique 4. É o Museo Fortabat, que recebe o nome (e o acervo) de Amalia Lacroze de Fortabat, fina que faleceu aos 90 anos, agora em fevereiro. A empresária podre de rica colecionou mais de 200 obras, de relevos egípcios e mosaicos bizantinos a pinturas de Chagall e Dalí. Morremos de inveja: Andy Warhol pintou-lhe um retrato.

Teatro Colón, Buenos Aires, Argentina Teatro Colón, Buenos Aires, Argentina

Teatro Colón, Buenos Aires, Argentina  (/)

Confissões de uma esnobe

Buenos Aires enjoa. Um, dois dias, vá lá. Mais de 48 horas já é um porre de espumante vagabundo. Desistam de encontrar semelhanças com Paris, o.k.? Para começar, nunca vi tanto mau gosto para perfumes. As portenhas de classe – e eu até conheço algumas – que me desculpem, mas é matemática: nove em cada dez cidadãos (homens, mulheres e, se bobear, até bebês) têm um frasco de água de cheiro hor-ro-ro-so dentro do armário. Eu seria capaz de perder horas só gastando com boas essências made in Argentina. Os sabonetes artesanais da La Pasionaria são um bom exemplo: algumas versões levam, veja você, doce de leite e até uvas Malbec. Dá vontade de morrer quando o local tem potencial para ser referência em belas fragrâncias e desperdiça tudo em almíscar selvagem. Mas o que esperar de um lugar onde as manicures não usam algodão nem acetona para limpar as unhas das clientes (e sim suas próprias unhas)? Pior que isso, só o mau gosto portenho na hora de se calçar. Mas confesso que certos lugares da capital ainda me seduzem. O Faena é um bom hotel, apesar dos unicórnios ridículos do restaurante. O Alvear também, a despeito de seu amor ao rococó. Gosto de seu restaurante La Bourgogne. Dentro do menu degustação, há uma etapa de queijos inesquecível. Mas queijo engorda. Ai, cansei. Marquei um chá da tarde com umas amigas, e meu motorista está esperando. (TÔNIA PÉROLA MENDES, socialite)

* No final de abril nas bancas, o GUIA QUATRO RODAS BUENOS AIRES traz mais de 500 hotéis, restaurantes e atrações com glamour para nobres e plebeus

Veja, na próxima página, onde ficar, comer, passear, agitar e comprar

Buenos Aires (54/11)

Ficar

Os quartos do Alvear Palace (Avenida Alvear, 1891, 4808-2100, www.alvearpalace.com; diárias desde US$ 450; Cc: A, D, M, V) são sinônimo de luxo, com camas extragrandes e amenities Hermès. Quem não tem problemas em esbanjar se acha no Four Seasons, onde estão La Mansión Álzaga Unzué (Posadas, 1086, Recoleta, 4321-1200, www.fourseasons.com; diárias desde US$ 700; Cc: A, D, M, V) e seus salões cheios de belos afrescos. O Palacio Duhau Park Hyatt (Avenida Alvear, 1661, 5171-1234, www.buenosaires.park.hyatt.com; diárias desde US$ 689; Cc: A, D, M, V) preserva paredes de carvalho e luminárias de cristal Baccarat originais. Da antiga construção, o Faena + Universe (Avenida Juana Manso, 1499, 4010-9000, www.faenagroup.com; diárias desde US$ 650) não lembra mais nada, cortesia de Philippe Starck.

Comer

O brunch dominical mais famoso é o do L’Orangerie, no Alvear Palace. Prepare-se para caviar, queijos e muito espumante. No brunch da Mansión Álzaga Unzué, do Four Seasons, a mesa de sobremesas é farta. Para jantar com estilo, escolha o La Bourgogne, também no Alvear, de ótima cozinha francesa. O Gioia é o restaurante mais informal do Palacio Duhau Park Hyatt, mas nem por isso deixa de ser glamouroso. O lindo Casa Cruz (Uriarte, 1658, 4833-1112; Cc: A, M, V) parece balada, mas tem boa comida. O Tomo I (Carlos Pellegrini, 521, 4326-6695; Cc: A, D, M, V), no Hotel Panamericano, é tido como o melhor restaurante da cidade.

Passear

A linda escultura A Eterna Primavera, de Rodin, é uma das 4 mil peças do acervo do Museu Nacional de Arte Decorativo (Avenida del Libertador, 1902, 4801-8248, www.mnad.org; AR$ 5). O Malba (Avenida Figueroa Alcorta, 3415, 4808-6500; AR$ 25) exibe admirável acervo de artistas latino-americanos. Em Puerto Madero, a coleção de Amalia Fortabat está no Museo Fortabat (Olga Cosserrini, 141, 4310-6600; AR$ 20). De 1908, o exuberante Teatro Colón (Cerrito, 628, Centro, 4378-7127; 9h/17h30; visitas guiadas a cada 15 minutos na Calle Tucumán, 1171; Cc: M, V; AR$ 110; agendar) já recebeu nomes como Enrico Caruso e Maria Callas. No Parque Três de Febrero (Avenida Adolfo Berro, Palermo), não deixe de conhecer o belíssimo Rosedal.

Agitar

Mozos muy lindos fazem o atendimento no Isabel (Uriarte, 1664, Palermo Soho, 4834-6969; 2ª/sáb 20h/4h; Cc: A, M, V), bar com cara de balada.

Comprar

Na Recoleta está o shopping mais refinado da cidade, o Pátio Bullrich (Avenida del Libertador, 750, 4814-7400), com lojas de grifes como Jackie Smith (4814-7438, www.jackiesmith.com). O estilista Martín Churba, da grife Tramando (Rodriguez Peña, 1973, 4811-0465), que tem unidades em Paris, Madri e Tóquio, desenha e cria texturas únicas na loja da Recoleta. As jaquetas e bolsas da Rossi & Caruso (Avenida Santa Fe, 1377, 4814-4774) vestem finos e finas.

Quem leva

Têm pacotes glamourosos para Buenos Aires a Teresa Perez (11/ 3799-4000, www.teresaperez.com.br), com quatro noites no Faena, desde US$ 1 426, sem aéreo; a Agaxtur (11/3067-0900, www.agaxtur.com.br), em duas noites no Park Hyatt, desde US$ 1 203; e a Raidho (11/3383-1200, www.raidho.com.br), com três noites no Four Seasons, desde US$ 1 279.

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