Lost em Noronha

Chegar a Fernando de Noronha de navio: comprar passeios a bordo ou bancar o viajante independente?

Embarquei no Bleu de France, navio que pela primeira vez faz temporada na costa brasileira, no fim de novembro no Porto de Recife. O roteiro de quatro noites seguiria até Natal, Fernando de Noronha e terminaria em Fortaleza. Enquanto grande parte dos transatlânticos que veraneiam por aqui tem capacidade para 2 mil, 3 mil passageiros, o Bleu recebe no máximo 989. Nesse caso, tamanho é documento. Apenas navios pequenos são autorizados a atracar em Noronha – e somente o Bleu, até o momento, tem permissão para fazê-lo. A cada viagem o número de passageiros na ilha não pode ultrapassar 700; ou seja, com 289 passageiros aquém da capacidade do barco, a experiência a bordo é outra: não verás fila no bufê, não matarás por uma espreguiçadeira na piscina, não serás pisoteado nas escadarias e ainda ganharás um lugar no paraíso – de Noronha.

Depois de uma noite inteira de navegação, o Bleu aportou cedinho em Natal. Não estava em meus planos fazer o city tour pela cidade nem o passeio de bugue em Genipabu, ambos vendidos no balcão de excursões do navio. Aproveitei, então, aquela primeira manhã que o Bleu estava quase vazio para explorar os deques com calma. Apesar de pequeno – levei menos de dois minutos para ir da proa até a popa -, o navio é um tanto labiríntico. Até o último dia eu ainda me perdia pelos seus 11 andares. Ao longo da viagem notei que, das duas piscinas, a mais vazia era justamente a maior, que fica no deque 11. Não é difícil entender o motivo: a menor, na popa, dois deques abaixo, junto ao Zanzi Bar, era onde rolavam aulas de dança, concursos de drinques, shows e ainda ficava grudada à boate Nox e ao cassino. O Buffet Panorama, no deque 10, servia refeições o dia inteiro, inclusive durante a madrugada. O restaurante Flamboyant, no deque 7, abria para o jantar à la carte. Tudo all-inclusive.

Um dos trunfos do Bleu é o espaço interno das cabines, que acomodam bem e sem nenhum aperto. A médica gaúcha Isaura Borato, com quatro cruzeiros no currículo, era só elogios ao espaço da cabine interna que ela e outras três amigas dividiam. “Nesta cabine, não preciso ficar pulando por cima de ninguém. Só o ar-condicionado que é congelante. Na próxima vez tenho de lembrar de trazer roupas de inverno”, disse ela. Bacana também é o spa, de 800 metros quadrados, com mais de 30 tratamentos diferentes.

Naquela manhã de tour pelo navio, encontrei na proa o casal Jorge e Karen Saraiva, de Fortaleza. “Já conhecemos Natal; então nem vamos descer. Queremos, isso sim, é chegar logo a Noronha”, disse Jorge. Éramos três.

Carona com emoção

Como o navio só partiria às 17 horas, reconsiderei: era tempo demais para ficar mofando ali dentro e resolvi conhecer Natal por minha conta. Peguei um táxi em frente ao porto e R$ 20 depois eu estava no Forte dos Reis Magos. Erguido em 1598 com paredes de até 14 metros de espessura, ele é um hit da cidade. Gostei das fotos que tirei dali, principalmente as que consegui enquadrar, ao mesmo tempo, o antigo forte e a moderna Ponte Estaiada Newton Moreno, inaugurada em 2007. À saída do forte, conheci a paulistana Ana Paula, que estava na cidade a trabalho. Propus racharmos um táxi até a Praia dos Artistas e comermos alguma coisa. Mas nada de descolarmos um carro. O guia-mirim que ficava no estacionamento ligou para vários, sem sucesso. O garoto então deu a dica de que um amigo poderia nos dar carona em troca de R$ 10. Topamos. Ele só não disse que a carona seria em uma detonada Marajó ano 1968 com uma caixa de som amarrada no teto. Ribamar, o motorista, aparece diariamente no forte para vender CDs da banda que ele lidera, o Trio de Flauta do Nordeste, e fazer uns bicos como aquele. Ana Paula foi sentada no banco de trás segurando o varal de metal com CDs pendurados. Sentei-me ao lado de Riba e passei por cima do ombro o cinto de segurança que não encaixava na outra extremidade. Nem só os bugues de Genipabu prometem emoção, pensei. Pedi proteção a nossa senhora dos pífaros e partimos. Com uma mão no volante e a outra no controle remoto, ele ia passando as faixas (a qualidade do som era de primeira). Valor da corrida até a Praia dos Artistas: R$ 15, incluindo o CD.

A partida de Natal foi a mais fotogênica do roteiro. O sol se pondo e o Bleu deixando a foz do Rio Potengi, passando por baixo da ponte estaiada, ladeando o forte… Naquele momento, na popa do navio, acontecia uma festa de despedida da cidade com direito a trenzinho em volta da piscina e Balão Mágico nas caixas. Tínhamos uma noite inteira de navegação pela frente até Noronha e foi o trecho em que o Bleu balançou mais. Gente ziguezagueando pelos corredores depois do jantar foi o que mais vi. Nada garante que não tenha sido o vinho.

A previsão de chegarmos a Noronha era às 8 horas, mas acabamos atracando por volta das 11, por um defeito no motor. Na noite anterior, contratei no balcão de excursões do navio o passeio de prancha submarina – aquele que você é rebocado por um barco enquanto curte o mundão de peixinhos embaixo d’água. Ficamos esperando em um corredor até a chamada de nosso grupo, todos devidamente etiquetados com o número do passeio que tínhamos comprado por US$ 66. Liberados, eu e mais dois casais pulamos do navio direto para um barco menor que, para minha surpresa, já era o que nos conduziria ao passeio da pranchinha. O barqueiro nos deu uma brevíssima explicação sobre as manobras e nenhuma sobre o lugar para onde estava nos levando. Reconheci ao longe o Morro Dois Irmãos e era para lá que nosso barco apontava. Pulamos no mar da Cacimba do Padre e começamos a ser rebocados. Mas… cadê peixinhos, naufrágio, vida marinha abundante? Mar e fundo de areia foi tudo o que vi durante o tempo em que fomos rebocados. O barqueiro disse depois que é mais comum que o passeio ocorra na Praia do Porto, cuja profundidade média é de 4 metros. É lá onde fica o naufrágio e a rica vida marinha que não vimos. Porém, segundo o barqueiro, por ser um dia de mar mexido, acabamos indo para a Cacimba. Azar de quem tem menos de dois dias na ilha.

Onda, onda, olha a onda

Dali o barqueiro nos deixou no porto. Desisti de contratar o passeio de bugue no navio quando descobri o preço (US$ 119 por três horas) e que não era garantido que haveria parada na Baía do Sancho, a praia que mais me importava. E, mesmo se o bugue que eu estivesse fosse até lá, é certo que não haveria tempo para um mergulho. Resolvi fazer por conta própria. Embarquei em um táxi no porto e R$ 25 depois cheguei ao início da trilha que leva ao Mirante do Sancho. Gastei uns minutos de contemplação e adoração pura antes de encarar a escada improvisada na fenda da rocha. Lá embaixo a praia era só minha. E isso não foi exatamente bom. Larguei minha mochila e me joguei sem considerar que naquele mês o lugar ganhava ondas consideráveis. A primeira me revirou. A segunda quebrou bem na minha cabeça. Naqueles poucos segundos eu só conseguia pensar que a praia era só minha e eu não tinha para quem apelar. Passados o susto e a arrebentação e eu estava nadando no mar mais lindo que eu já tinha entrado.

Subi a escadaria e caminhei mais uns metrinhos até chegar ao Mirante da Baía dos Porcos. Nem me lembro de quanto tempo fiquei ali, só sei que foi o suficiente para trocar uma ideia com o fiscal do Instituto Chico Mendes (ICMBio), que me sugeriu andar até o Boldró, a quinta praia em linha reta a partir de onde estávamos e que é point durante o pôr do sol. Era uma pernada longa, mas o visual compensava. Em meia hora cheguei à Cacimba do Padre e peguei a trilha à esquerda que leva até a Baía dos Porcos, que àquela altura não estava nada convidativa devido às ondas fortes. Voltei à Cacimba e segui reto toda vida pela areia até avistar uma subida de terra no cantão da Praia do Bode. Lá pelas tantas, a trilha findou e deu lugar a um amontoado de pedras. Em meio a elas notei algumas estacas de madeira fincadas em sequência que, concluí, estavam ali para demarcar alguma coisa. No meio daquele nada só podia ser uma trilha. E era mesmo. Naquele ponto eu conseguia ouvir o burburinho de gente que já estava a postos no Mirante do Boldró para ver o pôr do sol. Antes de chegar, ainda no alto da trilha, avistei a pequena Praia do Americano. O Bleu estava reunido em peso no Boldró. Antes de o sol cair eu já estava na BR-363 para pegar o ônibus de volta ao porto. Saldo daquele primeiro dia: bolhas nos pés causadas pela papete e a certeza de que tinha feito um passeio mais bacana do que se eu tivesse percorrido três praias a bordo de um bugue – e bem mais barato.

Aliás, quando o Bleu ancora na ilha, ocorre um fenômeno difícil de engolir: os preços dos passeios contratados em terra, normalmente mais baratos que os do navio, passam a flutuar livremente. O caso mais “grave” foi o do passeio terrestre pelas praias com duração de três horas, que foi vendido a bordo por US$ 119 por pessoa, enquanto que, em dia “normal”, o roteiro que dura o dia inteiro, chamado Ilhatur, sai a R$ 300 para quatro pessoas (R$ 75 por cabeça). Quando o Bleu aporta, e não se contratou a bordo, a regra é pechinchar. Conversei com gente que negociou bugue no porto por R$ 400. Agendar passeios no balcão do navio é questão de conveniência. Foi o que buscou o casal Maria Alice e Nelson Nader, de São Paulo. “Sei que paguei mais caro, mas não me importo. Não quero me preocupar”, disse Nelson. Economia fez o casal Wilca Luz e Adriano Santos, de Recife, que conseguiu alugar um bugue por R$ 270 e ainda dividiu a despesa com outras duas pessoas.

O dia seguinte amanheceu nublado. Peguei um ônibus no porto e fui até o Sueste. Quando faltava pouco para chegar, Ivanildo, o motorista, sugeriu que eu me aproximasse para curtir a boniteza da paisagem. O mar estava mexido e por isso resisti ao convite de um guia que me ofereceu alugar snorkel e nadadeira por R$ 30 e, caso eu não avistasse tartarugas nem tubarões, não pagaria nada. Resolvi camelar mais um pouco e andei cerca de meia hora até a Praia do Leão, lindíssima. Dessa vez fiz como todo mundo que vi chegar de bugue: tirei fotos e peguei o caminho de volta.

Voltei ao Bleu porque eu tinha combinado um passeio de barco para o início da tarde, outro clássico que navega o chamado Mar de Dentro, que são as praias voltadas para o continente (como a Cacimba, o Sancho). Mal saímos do navio começaram a surgir golfinhos. Eram dezenas a circundar o barco. Houve um breve e inevitável momento de histeria coletiva. Dali partimos para o segundo melhor momento do passeio: a parada no Sancho para um mergulho. A cena mais insólita foi a de uma menina que nadava com um espaguete e pedia à mãe para alcançar uns biscoitos porque ela queria dar de comer aos peixinhos como tinha feito em Maceió nas últimas férias. De cima do barco, o guia foi enfático: “Querida, tá vendo aquele moço lá em cima?”, e apontou para um sujeito parado no alto da falésia. “Se você der biscoitos para os peixinhos, ele manda prender você, a mamãe, eu e o barco inteiro” – o que fez todos caírem na risada.

Fui embora de Noronha sem curtir o forró do Cachorro, sem passar nenhuma tarde na Praia da Conceição, sem ver a palestra do Tamar, sem as piscinas da Atalaia. Em suma: tive só o gostinho. Eu jurava que, se zarpássemos dali, no outro dia de manhã já estaríamos em Fortaleza. Ledo engano. Tínhamos mais um dia de navegação pela frente. E foi aí que a recreação funcionou a milhão: ginástica na piscina, gincana, concurso de miss drag queen, concurso de embaixadinha, bingo…

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Lost em Noronha – O essencial

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