Livre, leve e sem planos

Sair de casa só tinha graça se ela visse todos os museus, igrejas e pontos históricos. Até o dia em que descobriu um jeito diferente de viajar

Eu tinha 21 anos, em abril de 1991, quando coloquei uma mochila nas costas e, ao lado do meu irmão, desembarquei em Madri para uma temporada de cinco semanas pela Europa. Foi minha primeira grande viagem: sete países, trens noturnos para economizar tempo e uma avidez tremenda de ver tudo, museus, igrejas, lugares velhos, pontos históricos. Sabem quando a gente pega um romance policial irresistível e vai correndo pelos capítulos, querendo chegar logo ao fim para descobrir o culpado? Foi mais ou menos assim.

Hoje eu tenho 42 anos e, nessa segunda metade da minha vida, perdi a conta de quantas outras vezes viajei a passeio. Rio de Janeiro, Nova York, Belém, Salvador, Havana, Toronto, Washington, Natal – ainda não fui pra lá de Marrakesh, mas até Marrakesh, pelo menos, já cheguei. Fiz outras romarias intensas, a exemplo daquela primeira, com loucuras como museu, palácio e catedral no mesmo dia, em Viena, ou uma overdose de barroco, rococó e história colonial em um único fim de semana em Ouro Preto.

E então chegou o dia em que me cansei. Simples assim: eu me cansei da obrigação imperiosa de ver tudo, museus, igrejas, lugares velhos, pontos históricos. Acho que a ficha caiu em minha primeira e única vez em Londres. O British Museum ali pertinho, ao lado do Bed & Breakfast, para eu ir quantas vezes quisesse até esgotar todas as coleções – a entrada, ainda por cima, era grátis. Fui no dia em que cheguei à cidade, vi as antiguidades da assíria, segui para a Pedra de Rosetta, pulei para as frisas do Parthenon e não voltei nunca mais. Passei o resto da semana sem ter hora para fazer nada, vendo apenas uma atração por dia e caminhando sem rumo para curtir o sol daquele inverno gelado: percebi que, assim, eu estava aproveitando as férias do mesmo jeito.

Diferentemente de histórias policiais, minhas viagens passaram a se parecer mais com um bom e longo romance, daqueles que a gente lê sem pressa, prestando atenção na construção das frases, na escolha das palavras, daqueles em que a narrativa é até mais prazerosa do que a história em si. Ficou muito melhor.

O COLUNISTA

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