Histórias que os concierges não contam

Os casos cabeludos que envolvem os mais famosos hotéis e personagens do mundo

Por Walterson Sardenberg Sobrinho Atualizado em 14 dez 2016, 12h06 - Publicado em 8 set 2011, 12h07

Paris? Veneza? Esses destinos estão sempre na lista quando se discute sobre os lugares ideais para a lua de mel. Serão mesmo? A rigor, a glória cabe ao Beverly Hills Hotel (beverlyhillshotel.com), de Los Angeles. Foi lá que a atriz Elizabeth Taylor passou seis de suas oito luas de mel (duas com Richard Burton). Liz só descartou o Beverly Hills quando se casou com Nicky Hilton e com Larry Fortensky. Faz sentido. Como o sobrenome indica, Nicky era dono da ilustre cadeia de hotéis. Larry, um caminhoneiro. Talvez não se sentisse à vontade num hotel tão luxuoso que nele residiu por 30 anos o caixa-alta Howard Hughes – aquele vivido por Leonardo DiCaprio em O Aviador.

Foi no Beverly Hills, também, que Marilyn Monroe passou horas furtivas com o ator francês Yves Montand. À epoca, 1960, estava casada com o escritor Arthur Miller. Marilyn e Yves se aproximaram (e como!) ao rodar um filme com o sugestivo nome Let’s Make Love – ainda mais evocativo em sua versão brasileira: Adorável Pecadora. Arthur separou-se da atriz no ano seguinte. Passado mais um ano, Marilyn foi encontrada morta. Arthur morava então no Chelsea Hotel (hotelchelsea.com), de Nova York, onde viveu seis anos e escreveu a peça teatral After the Fall (Depois da Queda). Mais um nome sugestivo.

Outras obras famosas foram escritas no Chelsea. Convém lembrar de 2001, de Arthur C. Clarke, e Naked Lunch (Almoço Nu), do protobeatnik William Burroughs. Andy Warhol fez do hotel a locação de um filme (Chelsea Girls) – bem, na realidade, seus filmes eram dirigidos por Paul Morrissey. Citar outros personagens do Chelsea ocuparia uma infinidade de páginas. Lembremos do mais improvável: Che Guevara. O revolucionário também hospedou-se no prédio de 126 anos e que, até 1902, foi o mais alto de Manhattan. Há quem considere o hotel decadente. Procede. Faz parte de seu charme.

O Chelsea rendeu muitas canções. Fiquemos com duas: Chelsea Hotel nº 2 (Leonard Cohen) e Chelsea Girls (Nico). Mas só o Ritz de Paris (ritzparis.com) inspirou um clássico: Puttin’ on the Ritz, composto em 1929 por Irving Berlin e, no decorrer das décadas, gravado por todo mundo – com a possível exceção da banda Calypso. A letra indica o lugar para onde ir quando está numa deprê. O Ritz, claro.

O hotel também deu origem a um adjetivo: ritzy, designando tudo que é chiquérrimo. Essa saga começou em 1898, quando o ex-garçom César Ritz comprou um palácio do século 18 na praça mais refinada, ou melhor, ritzy de Paris, a Vendôme. Foi o primeiro hotel dotado de telefone e banheiro completo em cada quarto. Outros detalhes incluíam penteadeira e iluminação no interior dos guarda-roupas. “Os maridos pagam as contas, mas são as damas que decidem em que hotel ficar”, explicava César.

O Ritz de Madri (ritzmadrid.com) é outra história. Foi encomendado a César Ritz pelo rei da Espanha Alfonso XIII – avô do atual, Juan Carlos. O motivo: raiva. Alfonso XIII ficara fulo da vida em 1906 quando casou- se com a neta da rainha Victoria e não encontrou na cidade hotéis com sufi ciente requinte para abrigar as cortes europeias e as grandes fortunas. Ainda hoje fiel ao espírito belle époque, o Ritz ficou pronto quatro anos depois, na avenida dos soberbos museus do Prado e Reina Sofía. Mas a coleção preferida de Alfonso XIII está em outra cidade espanhola: Barcelona, onde foi instalado o Museu Erótico. Em seu acervo estão os filmes pornográficos recolhidos pelo rei – pai de dez filhos, sendo três ilegítimos.

Alfonso XIII foi ídolo de Salvador Dalí. O pintor teve um chilique ao descobrir que o assento do vaso sanitário de sua suíte no parisiense Le Meurice (lemeurice.com) havia sido trocado. Razão do faniquito: o tal assento, da suíte 106, costumava ser utilizado pelo avô de Juan Carlos. Salvador Dalí passava ao menos um mês por ano no hotel. Certa vez, pediu à recepção um cavalo para abrigá-lo no quarto. Em outra, hospedou-se com duas jaguatiricas. Um dos restaurantes do Le Meurice chama-se Le Dalí.

Quem colecionou histórias dos hotéis de Paris foi Jorginho Guinle, herdeiro do Copacabana Palace (copacabanapalace.com.br). Como se sabe, ele detonou sua fortuna até o último níquel com o orgulho de jamais ter pegado no batente em 88 anos de boa vida (morreu em 2004). Enquanto morou no Hotel Georges V (fourseasons.com/paris), conviveu com um felizardo de conta bancária muito maior: Thami El Glaoui, o paxá de Marrakesh. O marroquino residia no hotel com seis lindas francesas. A cada uma, presenteou com um Rolls-Royce. A frota fi cava diante do Georges V.

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Jorginho fazia a ponte para trazer estrelas ao Copa. Foram muitas. Mas a celebridade mais escandalosa veio por conta própria. O desabrido cantor Rod Stewart foi expulso depois de jogar, com convidados calibradíssimos, uma partida de futebol na suíte presidencial. Já os cariocas do Clube dos Cafajestes aprontaram com mais humor. Uma das histórias é contada pelo cartunista Jaguar: “Paramos em frente ao Copacabana Palace, invadimos a área da piscina, jogamos os hóspedes e os garçons dentro d’água e depois também demos uns mergulhos com roupa e tudo. Batemos em retirada um minuto antes de a polícia chegar”.

A travessura dos pretensos cafajestes parece coisa de guri se comparada ao que vêm aprontando as ditas celebridades. Um dos pioneiros foi Keith Richards, dos Rolling Stones. Auxiliado pelo saxofonista Bobby Keys e rindo como um demente, atirou um televisor do 10º andar do Hyatt West Hollywood – hoje, Andaz West Hollywood Hotel (andaz.com). A cena faz parte de um documentário tão barra pesada que seu diretor, Robert Frank, só permite a exibição uma noite por ano. Ao menos a cena do televisor você pode ver no YouTube.

Passemos pela peralta mais óbvia: Amy Winehouse. Ela entrou no Sanderson (sandersonlondon.com), em Londres, trazendo o humor costumeiro e o marido, Blake Fielder-Civil. Redecorou as paredes com birita e restos de comida, mas sua incursão pelas artes plásticas não fez sucesso. Cobraram-lhe 18 000 dólares pela obra-prima. O ator Johnny Depp também arruinou um quarto do Mark (themarkhotel.com), palácio erguido em Nova York em 1927. Estava acompanhado da então namorada, Kate Moss, modelo que é o antônimo da palavra modelo: mau exemplo. Johnny arcou com 9 767 dólares e foi detido por policiais.

A cantora Britney Spears teria de estar na lista. Seu barraco mais conhecido aconteceu no Rosarito Beach (rosaritobeachhotel.com), na cidade de mesmo nome, no México. A atuação foi tão marcante que a faxineira, desolada, olhou os destroços e não se conteve: “Nunca vi nada igual na vida”. Mas, se há um campeão das loucuras, o laurel cabe ao roqueiro argentino Charly García, autor de Demoliendo Hoteles. Seu melhor desempenho não causou danos materiais. Charly pulou da janela do Hotel Aconcagua (hotelaconcagua.com) – em Mendoza, na Argentina -, diretamente na piscina. Nada de espantoso, não estivesse ele hospedado no 9º andar. Também dá para ver a sandice no YouTube.

Quebrar quartos e hotéis tornou-se ocupação tão banal para as ditas celebridades que algumas devem ter bocejado em 2008 quando o Royal Monceau (royalmonceau.com), inaugurado sete décadas antes em Paris, enviou uma picareta a 1 200 vips. Era o convite para a Festa de Demolição. Rogava-se aos convivas, entre um canapé e outro, recorrer à picareta para destruir as paredes, uma vez que o hotel passaria por uma reforma de 250 milhões de dólares – reabrirá ainda neste ano. O lobby foi transformado em ruínas, serviço que Britney Spears resolveria sozinha.

Quando o assunto é lobby, jamais deve ser esquecido o do Willard Hotel (washington.intercontinental.com), em Washington. Sua decoração parisiense, tão detalhada quanto uma iluminura medieval, bastaria para a reverência. Mas a importância do lobby do Willard vai além. No decorrer da guerra civil (1861-1865), abrigava uma entrada aos líderes sulistas e outra aos nortistas, evitando enfrentamentos. A relevância é ainda maior quando se sabe que deu origem ao neologismo lobista.

Quem inventou a expressão foi o presidente dos Estados Unidos Ulysses S. Grant, pouco depois da guerra civil, ao notar a desenvoltura das eminências pardas pagas para circular pelo hall do Willard e ali promover encontros com parlamentares para tentar persuadi-los a causas nem sempre justas. Dá para apostar: poucos dos nossos lobistas, os de Brasília, sabem disso. Logo eles, que sabem bem mais que nós.

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