Fora da curva

Mudar o roteiro de viagem na última hora pode ser bom. Que o diga a nossa colunista que descobriu, por acaso, um dos melhores restaurantes do mundo

 

Em julho de 2003, eu visitava a Itália pela primeira vez, a trabalho. Tinha pouco menos de 20 dias para ir de Roma a Milão de carro, passando pela Toscana, Úmbria, Emília-Romanha e Ligúria. Não é preciso fazer muita conta para concluir que a viagem foi corrida. Mas foi também nessa viagem que aprendi que fugir do roteiro pode trazer boas surpresas.

Em novembro do ano passado, o Guia Michelin Itália 2012 foi lançado, e lá estava o restaurante Osteria Francescana, do chef Massimo Bottura, em Modena, exibindo as tão cobiçadas três estrelas. Em 2003, um ano após ter recebido sua primeira estrela, eu não sabia quem era Bottura. Cheguei a Modena determinada a almoçar em outro restaurante, mas bati com a cara na porta. Fiquei vagando pelo centro histórico, até que, lá pelas 18h30, uma portinha me chamou a atenção pelo entra e sai de garçons. Fui até lá. Pedi uma mesa. E consegui na hora.

Como ainda teria de seguir para Parma no mesmo dia, queria apenas um prato simples. Bottura simplesmente não permitiu. Assim que me apresentei como jornalista e pedimos autorização para fotografar o ambiente, ele se ofendeu, repetindo como eu ousaria escrever sobre o restaurante dele provando apenas um prato. Ele tinha razão, embora, naquele momento, eu não tivesse a menor noção da tal experiência que ele fazia questão que eu tivesse. Nem de quem ele era.

Nas horas que se seguiram, provei 18 pratos que até hoje não me saem da memória. Três deles em especial: espuma de melão com calda de presunto, cappuccino de abobrinha e quatro texturas e temperaturas do queijo Parmigiano Reggiano – que hoje ganhou uma quinta textura. Terminei a noite ouvindo Bottura falar de suas experiências com Alain Ducasse e Ferran Adrià.

Pouco mais de oito anos depois, vieram as tão cobiçadas três estrelas. Junto, para mim, um gostinho de ter descoberto o cara muito por acaso, antes que ele ficasse famoso ou que seus menus atingissem os três dígitos. A julgar pelos sabores que ainda me vêm à memória quando me lembro daquele jantar, não tenho dúvida: ter saído do roteiro foi a melhor coisa que fiz naquela viagem.

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Janeiro de 2012 – Edição 195

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