Florença: tour por museus e lugares secretos da cidade

Quer evitar as multidões de turistas? Veja como driblar as filas nos museus

Ao conceber O Nascimento de Vênus, o pintor forentino Sandro Botticelli dificilmente imaginou que, meio milênio mais tarde, em Florença, quase 2 milhões de pessoas por ano teriam de descer ao inferno para admirar sua deusa do amor e da beleza brotando lindamente do mar.

Um dos ícones do Renascimento – um golaço da humanidade no campo artístico, flosófico e científico –, o quadro é um dos bons motivos pelos quais multidões esperam até quatro horas para entrar na Galleria degli Uffizi. Sim, quatro horas. Em estilo neoclássico, a Sala della Niobe – que guarda réplicas romanas de esculturas gregas clássicas trazidas dos jardins do Palazzo Villa Medice, de Roma – foi reaberta em 2013, depois de uma reforma de € 500 mil que devolveu o brilho à cúpula ornamentada e ao belíssimo pavimento quadriculado.

Umas horinhas extras de alegria às terças e sextas também foram implementadas na Galleria dell’Accademia, outro templo da arte italiana, que tem o original do David de Michelangelo como principal garoto-propaganda. E, desde agosto de 2014, o Museo Nazionale del Bargello completa o trio de museus abertos à noite (mas só às sextas). Ele pode até ser menos conhecido do que as grandes galerias forentinas, mas tem acervo peso-pesado. No piso térreo reinam obras de Michelangelo, como Baco, Madona com o Menino Jesus e Brutus. No primeiro andar, lá está Donatello, com duas representações de São Jorge, o Marzocco de pedra (símbolo heráldico de Florença) e um andrógino David.

Estátua de Davi, de Michelângelo, na Galleria dell’Accademia, em Florença, Itália Estátua de Davi, de Michelângelo, na Galleria dell’Accademia, em Florença, ItáliaDavi, nas suas formas perfeitas emolduradas por Michelângelo, é motivo de visitas à Florença

Quer evitar filas nos museus de Florença? Compre ingressos pela internet

Uma verdade da vida: filas longas demais podem arruinar as férias. Para escapar desse martírio, é fundamental comprar bilhetes para os principais museus de Florença, com hora marcada, no site oficial da Uffizi. Você terá de pagar uma taxa de reserva de € 4, por pessoa, além do preço da entrada (€ 20). Acredite, será o dinheiro mais bem gasto da viagem.

Outra artimanha para driblar os efeitos colaterais dos highlights de Florença: esconde-se, no Duomo, a impressionante Cattedrale di Santa Maria del Fiore, no olho do furacão do Centro histórico. A obrigação turística número 1 de quem visita a igreja é subir até a cúpula e checar a vista majestosa da cidade. Para isso, é preciso enfrentar uma espera que costuma superar meia hora e vencer a escadaria na raça.

Duomo de Florença, na Itália, com o Campanile de Giotto Duomo de Florença, na Itália, com o Campanile de GiottoO Duomo de Florença – que também recebe muitos visitantes, mas poucos sobem a torre

Depois de tanto empenho, pouca gente se anima a submeter as panturrilhas a mais 400 e poucos degraus até o topo do magnífico Campanile de Giotto, o que explica as filas bem mais amenas. Mas vale. De cima do campanário de 85 metros de altura, revestido de mármore branco, rosa e verde, não apenas se enxerga a capital da Toscana de maneira gloriosa como a própria cúpula do Duomo de um ângulo único – lembre-se de que o mesmo bilhete (€ 10) dá direito a entrar na catedral, na cúpula, no campanário, na cripta, no batistério e no Museo dell’Opera del Duomo (fechado para visitas até novembro de 2015).

Quase VIP com o Firenze Card

Numa cidade de tantos museus (e tantas filas), quem optar por uma peregrinação intensiva pelos highlights faz um bom negócio ao comprar o Firenze Card. Ele custa € 72 e vale por 72 horas, a partir de sua ativação.

O cartão dá acesso à rede pública de wi-fi, entrada aos principais museus e igrejas e transporte público ilimitado. Mas o mais útil é que, com ele, você tem acesso preferencial – por uma fila bem mais curta – aos 60 lugares incluídos no pacote.

Outros museus de Florença

Também é bom ter em mente que o poderio cultural de Florença não se resume aos grandes ícones. Para os loucos por moda, a cidade é sede dos cobiçadíssimos Museo Gucci e Museo Salvatore Ferragamo, com sua área dedicada aos sapatos usados por estrelas pop, como Marilyn Monroe, Greta Garbo e Audrey Hepburn.

Café do Museo Gucci, em Florença, Itália Café do Museo Gucci, em Florença, ItáliaAté o cafezinho do Museo Gucci tem estilo

O La Specola, por sua vez, é o museu de história natural mais antigo da Europa, com acervo de mais de 25 mil artigos relacionados com antropologia, arqueologia, zoologia, botânica etc. Ah, e tem o Museo Stibbert. Amparado por um jardim neoclássico, o palácio guarda a coleção particular do ítalo-britânico Frederick Stibbert, distribuída por salões opulentos, com papéis de parede e lustres de cristal: cerâmica, arte islâmica, roupas, armaduras medievais e pinturas.

Depois de transitar por tantos museus e pelas ruas atribuladas do Centro da cidade, um respiro é sempre necessário. “O bairro onde moro, chamado Fiesole, é uma das colinas verdes que abraçam a cidade”, diz a curitibana Ana Braitbach Fagnoni, que foi para Florença há dez anos para estudar design de interiores e, hoje, é coproprietária da Apartments Florence, empresa que aluga apartamentos de temporada. “O lugar é famoso pelo anfiteatro romano e também é perfeito para passear.” Para ter a melhor vista da cidade, ela recomenda: é a Piazzale Michelangelo.

Programa ideal para o fim da tarde, o passeio pelo mirante combina com um aperitivo (a happy hour italiana) ao ar livre no badalado Flo Lounge Bar, ali pertinho, de onde se vê a cidade de um ângulo igualmente belíssimo.

Tutto nuovo – atrações novas na antiga Florença

Inaugurado em abril de 2014, o andar superior do tradicionalíssimo Mercado Central de San Lorenzo é a mania da vez. Antes usado como depósito, o espaço foi reformado por mais de € 5 milhões. A transformação revelou ao público o magnífico teto, moldado em ferro e vidro pelo arquiteto Giuseppe Mengoni (o mesmo da Galleria Vittorio Emanuele II, de Milão) no fim do século 19, em estilo art nouveau.

Entre as esguias colunas de ferro pintadas de vermelho, luminárias de fibra natural e em forma de sino dão um ar contemporâneo ao ambiente. Em contraste com o térreo, onde se enfileiram bancas tradicionais de comida, o novo piso é como uma vitrine gastronômica da Toscana, com corredores que atravessam lojas e restaurantes sofisticados. Entre eles, há uma enoteca especializada em vinhos Chianti, uma boa pizzaria, empórios, padarias, bancas de queijos e frios, incluindo uma só de mussarela de búfala. Em mesas e bancos altos, é possível degustar o melhor do mercado.

Mercado Central de San Lorenzo, em Florença, Itália Mercado Central de San Lorenzo, em Florença, ItáliaQueijos e frios regionais podem ser degustados no Mercato Centrale di San Lorenzo

“Florença não é como uma metrópole, em que surgem novos restaurantes da moda o tempo todo. Aqui, é a tradição que conta”, analisa Consuelo Blocker, paulistana que vive na cidade há 24 anos, e relata seus achados de estilo, gastronomia e viagem no Consuelo Blog. Seu favorito é o centenário Sostanza (Via del Porcellana 25r), famoso pela bistecca alla forentina e pelo omelete de alcachofa.

Mas, aproveitando a última temporada de sua mãe na Toscana (ela é flha de Costanza Pascolato, que esteve em Florença entre junho e julho), Consuelo foi conferir o novíssimo Café dell’Oro. O restaurante fica no Il Portrait, um dos hotéis da família Ferragamo. O salão tem paredes de vidro dando para nada menos que a Ponte Vecchio. À mesa, brilham receitas italianas em releituras criativas e apresentações espetaculares.

“Os forentinos não têm o costume de fequentar restaurantes de hotel, mas acho bom e prático. São os únicos que abrem aos feriados”, conta Consuelo, também fiel ao La Terrazza. O bar fica no último andar do Hotel Continentale, e tem uma das melhores vistas da cidade.

A curitibana Ana também tem queda pelos hotéis. “Adoro o brunch do Four Seasons aos domingos, na primavera e no outono, quando mesinhas são dispostas em um jardim aberto para hospedes e clientes do restaurante.” Quem quiser conhecer esse hotelaço instalado no suntuoso Palazzo Scala della Gherardesca também pode tomar um coquetel no bar do Al Fresco, restaurante ao ar livre que abre no verão.

Às compras! Dicas de Consuelo Blocker para gastar bem os seus eurinhos

“A cara de Florença, a Tharros tem bijuteria e joias inspiradas em quadros renascentistas. Imperdível, a Officina Profumo Santa Maria Novella fabrica e vende perfumes desde o século 17. Na Via Santo Spirito, no Oltrano, estão as mais belas lojas de decoração, como a Castorina e o Studio Puck. O melhor outlet nos arredores é o The Mall, com pontas de estoques de grifes como Gucci, Fendi, Valentino, Salvatore Ferragamo, Dior e Burberry.”

Só se fala disso

Numa cidade tão reverente ao passado mais que distante, é um feito a recente inauguração do Museo Novecento. Aberto desde junho de 2014 no antigo Spedale delle Leopoldine (Hospital, na Piazza Santa Maria Novella), é dedicado à arte italiana do século 20. Dividido em 15 salas, o acervo tem mais de 300 obras, entre pinturas, esculturas, instalações.

Museo Novecento, em Florença, Itália Museo Novecento, em Florença, ItáliaFlorença também pode ser moderna

Palco do extravagante casamento da celebridade profssional Kim Kardashian com o rapper Kanye West, o Forte di Belvedere, do século 16, reabriu para visitas em 2013, depois de cinco anos fechado para restauração.

Mas Florença também é pródiga em velhas regiões, tomadas por novos ares. A fortaleza e o Palazzo Pitti ainda são as duas principais atrações do bairro Oltrarno, “o outro lado do Arno”. Bem menos fequentada pelos turistas, a região concentra ateliês de artistas e artesãos e, hoje, também coleciona restaurantes badalados e lojas belíssimas.

Em tempo: cruzar a ponte não garante imunidade contra a síndrome de Stendhal, aquela em que as pessoas quase sufocam diante de obras de arte – por não dar conta de tanta beleza.

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