Dois em uma

Uma viagem, dois cenários. Em Cartagena das Índias, as ruas são pura história. No pouco conhecido arquipélago vizinho de Islas del Rosario, o tempo parece ter parado. !Perfecto!

Em 1994, estive na cidade colonial de Cartagena das Índias, na Colômbia. Naquela ocasião, amigos que viajavam comigo alugaram um barco para seguirmos até as Islas del Rosario, a cerca de uma hora do continente, navegando pelas águas cristalinas do Caribe. Lembro-me de que, quando atracamos no píer de uma das 27 diminutas ilhas do arquipélago – algumas são tão pequenas que mal têm lugar para mais de um casebre e o píer –, senti paz de espírito. Tive a sensação, tão selvagem era o lugar, de ter entrado em um quadro do pintor fancês Henri Rousseau, no caso a tela O Sonho, de 1910, hoje no acervo do MoMA de Nova York.

Corta para 2012. Estou de volta a Rosario. Quando a primeira impressão que se teve de um lugar se assenta na lembrança por anos, costuma-se pensar: será que na próxima vez a emoção será igual? Pois bem, a emoção ao rever o destino foi quase a mesma. A fauna e a flora eram diferentes das da pintura de Rousseau – não havia uma mulher nua ou um tigre a fitar a cena –, mas senti que aquele era um mundo diferente, um lugar idílico e intocado onde o tempo parou. Talvez por isso o Google seja tão lacônico em sua página sobre Islas del Rosario. A razão disso, creio, é também um de seus grandes atributos: pouca coisa aconteceu ali.

As ilhas hoje fazem parte do Parque Nacional Natural Corales del Rosario, que foi criado para proteger a rica vida marinha do entorno. A região é facilmente acessível por barcos que partem diariamente de Cartagena levando turistas para passar o dia e que retornam ao cair da tarde (são cerca de 45 quilômetros). Existe uma razão que por si só justificaria um passeio às ilhas: o mar que beira Cartagena é escuro, pouco caribenho, digamos.

Se naquela primeira visita que fiz há quase duas décadas Rosario pouco tinha a oferecer em termos de estrutura – eu me lembro de mergulhar de um píer, sentar em uma mesa de madeira improvisada e beber rum direto de uma garrafa –, agora há bares com confortáveis espreguiçadeiras e hospedagens com certo charme. Passamos, eu e Daniela, minha namorada, quatro dias em uma delas, o Hotel San Pedro de Majagua, que fica em Isla Grande, a maior do arquipélago (ainda assim, basta uma hora para andar de uma ponta a outra). Nosso bangalô era espaçoso, tinha ar-condicionado, TV (que nunca foi ligada), e a cama ganhava pétalas de flores após cada arrumação. As duas praias do hotel eram limpas e de areia branca e fofa. Poucos metros mar adentro e já surgiam os corais, mas nada que nos impedisse de nadar com segurança. O cardápio do restaurante do hotel era um pouco monótono, mas tanto as lagostas quanto os peixes inteiros assados na grelha não decepcionavam.

Turistas de um dia aproveitam igualmente o mar transparente para fazer mergulho com cilindro ou de snorkel pelos corais e comer peixe fesco nos restaurantes pé na areia de Isla Grande. Outro passeio muito popular incluído em praticamente todos os tours que saem de Cartagena é a visita ao Oceanário, na Ilha de San Martín de Pajares, centro de pesquisa marinha onde golfinhos exibem acrobacias. Ótimo para quem tem filhos pequenos.

Colômbia: fachadas e balcões coloniais do Centro Histórico de Cartagena das Índias Colômbia: fachadas e balcões coloniais do Centro Histórico de Cartagena das Índias

Colômbia: fachadas e balcões coloniais do Centro Histórico de Cartagena das Índias (/)

Fachadas e balcões coloniais do Centro Histórico de Cartagena das Índias – Foto: Gabriele Croppi/Grand Tour

Endinheirados de Cartagena preferem atracar seus próprios iates na Ilha de Cholon e, quando muito, descem para tomar rum nos bares da praia e comer ostras fescas, caranguejos e lagostas grelhadas na hora em mesas colocadas dentro d’água. Há um inconveniente. Os iates são equipados com potentes caixas de som, e os donos não hesitam em deixar a música alta, ignorando as placas de “No generem ruido”.

Mas a sensação de tranquilidade e de tempo suspenso segue inabalável na maioria das ilhas; então, nada melhor do que explorá-las a pé e, no caso de Isla Grande, também de bicicleta. Recomendável também é pedir que um barqueiro leve você até alguma praia isolada, o que é quase uma redundância ali.

Após esses dias de descompressão em Rosario, voltar a Cartagena das Índias foi como chegar a uma cidade fenética. Não é de surpreender que esse lugar, fundado em 1533, tenha se tornado uma das capitais coloniais da Espanha nas Américas. Com condições geográficas excelentes para a atracação de navios, Cartagena logo virou um movimentado porto. De lá, toneladas de minérios (ouro, prata, esmeraldas e outras pedras) saqueados principalmente das cidades incas no Peru, foi embarcado em direção à metrópole. Por sua posição estratégica, Cartagena também esteve na mira de corsários fanceses e britânicos. Como o inglês Francis Drake, que em 1586 realizou importantes saques na cidade. Foi a partir de suas investidas que os espanhóis decidiram erguer 11 quilômetros de muralhas de proteção beirando boa parte da orla.

Cartagena também foi sede de um Tribunal de Inquisição, o infame instrumento que a Igreja, em consórcio com a realeza dos países ibéricos, utilizou para coibir, muitas vezes com a fogueira, condutas consideradas impróprias. A cidade, por outro lado, também testemunhou atos santos. O ótimo guia que contratamos, Duran Duran, nos levou ao bem restaurado Palácio da Inquisição, imponente edifício em estilo andaluz na Praça Bolívar, e ao Claustro e Igreja de San Pedro Claver, que fica em uma linda praça que leva o mesmo nome. Claver, de origem nobre, tornouse sacerdote e dedicou sua vida a ajudar escravos africanos. Sua abnegação foi recompensada: ele se tornou o primeiro santo canonizado no Novo Mundo.

Hoje há sempre alguma coisa acontecendo nos limites da cidadela, cujo astral festivo me remeteu a Barcelona: músicos e dançarinos fazem shows em praças, ambulantes vendem charutos cubanos, e há as tradicionais palanqueras, que circulam pelas ruas vendendo tigelas de futas. Irresistível mesmo no Centro Histórico é a vontade de parar de fachada em fachada e contemplar a arquitetura colonial. Os preços também não são nada extravagantes, ao menos os de roupas e comidas. Encontrei belas camisas de linho por R$ 100 e chapéus panamá por volta de R$ 30. Dois endereços muito recomendáveis são a Malvi Castañeda e a EGO, do designer Edgar Gómez Estévez. Uma refeição memorável eu tive no Salou, casa comandada pelo jovem chef Juanma Restrepo. Pedi um ceviche e um tataki de atum que era de comer de joelhos. Não faltam também em Cartagena excelentes hotéis instalados em palácios antigos que mantêm sua magia. A Casa Pestagua Hotel Spa, no Centro Histórico, tem 11 suítes que se abrem para um pátio arborizado. Eu me senti como o convidado em uma casa senhorial.

Olhando criteriosamente, acho que nem as Islas del Rosario nem Cartagena afiguram-se como eu as trazia na memória antes do meu retorno. Algo realmente mudou. Mas isso parece importar menos, pois ambos os destinos têm agora na minha mente uma nova magia e um novo encanto.

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