Doce Deleite

Uruguai em viagem de carro: história, batuque, bois, Gardel, futebol, muito mate e gauchismo em 15 dias por estradas seguras e quase sem curvas

Sem se preocupar em desviar o olho da cuia de mate, o agente alfandegário de Chuí perguntou: “Grêmio ou Inter?” Sentado em um banquinho de madeira carcomida, ele talvez continuasse sem mexer músculo algum do corpo (exceto aqueles usados no ato de verter água quente da garrafa térmica para dentro da cuia) se, no meu lugar, estivesse Osama bin Laden. A cuia era decorada com uma bandeira do Uruguai. Dado o consumo de mate no país, não consigo imaginar suporte melhor para aquelas listras azuis e o solzinho simpático no canto esquerdo.

A continuação desse diálogo, no qual consegui demonstrar ao meganha minha simpatia pelo futebol uruguaio, vou deixar para depois. Afinal, estou contando essa história do fim para o começo. É que atravessar a fronteira sacando um sorriso de um policial – seja ele de que nacionalidade for – é um presságio auspicioso para qualquer viagem. Mas minha entrada no Uruguai 15 dias antes, via BR-116 e Jaguarão, havia sido, para ser sucinto, normal.

Com menos de 200 mil quilômetros quadrados de extensão territorial – 60% da área do Rio Grande do Sul –, o Uruguai presta–se muito bem a ser conhecido em uma viagem de carro. Suas estradas são bem conservadas, há boa estrutura turística e as distâncias são irrelevantes. E o paisito também acorda para o turismo. Em 2010, recebeu 2,4 milhões de visitantes, 400 mil deles brasileiros. Hotéis novos, de bandeiras internacionais, começam a pipocar na paisagem, e não só em Punta del Este. De Chuí tomei a Estrada 26 para Tacuarembó, minha primeira parada, 260 quilômetros e três horas depois. O caminho tinha pampa e vaquinhas, vaquinhas e pampa e, desconfio, beirava o tempo todo a estância do Brizola. Fiquei tão familiarizado com o cenário que poderia desenhar, de olhos fechados, o rótulo do dulce de leche mais famoso, o Conaprole. Vaquinhas. O campo. Vaquinhas. Tacuarembó surgiu para o mundo com a morte de seu (suposto) filho mais célebre, o cantor de tango Carlos Gardel, que, em uma de suas frases sobre o misterioso tema de sua origem, teria dito: “Nasci com 2 anos e meio em Buenos Aires”.

Além de promover Gardel (ou promover-se com Gardel), Tacuarembó se diz uma das capitais da cultura gaucha. Todo mês de março essa afinidade é exaltada no Festival Patria Gaucha. Seu Museo del Índio y del Gaucho tem peças arqueológicas e, para explicitar a tal cultura, um acervo de boleadeiras, aquele instrumento usado para laçar gado pelas patas e para assustar os comensais nos shows folclóricos das churrascarias rodízio. O Museo Gardel fica afastado da cidade, a 21 quilômetros, em Valle Edén. Os experts dizem que Gardel nasceu em Toulouse, na França, mas guarde essa informação para você. Tacuarembó teria entrado na equação justamente no dia do acidente aéreo que vitimou Gardel, na Colômbia, em 1935. Junto ao corpo foi encontrado um documento que ligava o cantor à cidade. No acervo do museu, jornais, fotografias, letras de tango. Só não estão lá as camisas do Tacuarembó Fútbol Club com sua imagem, que vi nas ruas. O museu em si vale pelo folclore, mas melhor que visitá–lo é encontrar algum fã do cantor pelas ruas e dele ouvir histórias. Em Tacuarembó, saber da vida de Gardel é como saber da vida do vizinho.

Mais vacas e mais pasto nos 230 quilômetros entre Tacuarembó e Paysandú. No trajeto não vi mais que três postos de gasolina. Também são poucos os paradores (restaurantes de beira de estrada). Ao volante, agora já era eu quem vertia água quente na cuia – a minha. Algo bastante desaconselhável para o Brasil, onde não há o costume, claro, e as estradas não são como as uruguaias, sem buracos ou carros no contrafluxo. Parei em Paysandú para comer umas empanadas e segui mais 130 quilômetros até Mercedes. O cenário? Adivinha. Aumentava minha surpresa com a quantidade incrível de vacas que há no país. Três por habitante. Voltemos à parada. Mercedes, uma cidade com nome de mulher, tem belezas femininas: a avenida que beira o Rio Negro, a praça central, a Isla del Puerto, a basílica, a pinacoteca. Sem contar as áreas verdes.

E então, 180 quilômetros depois, cheguei a Paraty. Ou à Paraty dos uruguaios.

De Buenos Aires ela está a apenas um buquebus de distância (em trajetos de 50 minutos). Mas vir a Colonia del Sacramento por terra deixa a gente mais no clima. É a charla com os locais, o amargo do mate em contraste com o doce de leite que vão dando o tom. Em Colonia, cada rua, cada casarão, cada janela encerra um capítulo de história. A cidade foi colonizada ora por portugueses, ora por espanhóis, que disputaram a localidade por um século e meio. Viver o ambiente de locação de filme de época é um barato. Na Calle de los Suspiros, essa volta ao passado se intensifica. Chão irregular de pedras, casas antiquíssimas, janelas ovaladas e batentes de pedra dão textura ao quadro todo. Menção especial ao Rio da Prata e às luzes de Buenos Aires no outro lado da margem.

De Colonia a Montevidéu a Estrada 1 vai quase sem curvas, margeando o Prata até o rio virar mar, justamente nas alturas da capital. A cidade, de 1,3 milhão de habitantes, não é íntima dos brasileiros como Buenos Aires. Mas, se vale a comparação, o trio Caminito–Obelisco–Puerto Madero equivale à grande rambla e ao Mercado del Pueblo, no centro histórico da capital uruguaia. Ninguém vai se arrepender de fazer esses programas superturísticos por lá. Mas, se você preferir uma atmosfera mais Palermo, vai encontrá–la não no bairro Palermo (de Montevidéu), pacato e residencial, mas em Pocitos.

Pocitos, com suas ruas paralelas e arborizadas e uma praia de rio, é o lugar em que tudo acontece na capital. O bairro hoje ganha um novo café por semana, ou quase isso.

É um fenômeno que não se repete em Villa del Cerro, que conseguiu manter sua aura de velho povoado de imigrantes. Não há nenhum morador que não ostente orgulho de viver ali. O Forte General Artigas, no alto do Cerro Montevideo, e o Parque Vaz Ferreira são lugares com história e a melhor vista da cidade – tendo como protagonista o Prata em seus momentos finais.

A Cidade Velha, por fim, é o cantinho mais cheio de bossa de Montevidéu. É lá que se juntam os grupos (ali chamados de comparsas) de candombe, ritmo afrouruguaio que é preservado pela população negra do país, descendente dos escravos que chegaram ao Uruguai na segunda metade do século 18. Sons produzidos com três tipos de tambor contagiam os espectadores, que, na confusão que se forma, vão se mesclando às dançarinas no meio da rua. Quando fui, me disseram para tomar cuidado com os meus pertences e com a câmera. Se locais não houvessem me falado isso, jamais estaria dando essa recomendação aqui. Mas, como se sabe, precaução e caldo de galinha…

 

Píer no Porto de Punta del Este, no Uruguai Píer no Porto de Punta del Este, no Uruguai

Píer no Porto de Punta del Este, no Uruguai (/)

Pai e filho caminham no entardecer no píer de madeira construído junto ao Porto de Punta del Este – Foto: Nilo Biazzetto Neto

A 100 quilômetros da capital está uma espécie de Santos antes do pré–sal do Uruguai, uma Águas de Lindoia à beira–mar. Piriápolis é daqueles lugares que entendíamos como colônia de férias. O filme uruguaio Whisky, de 2004, dá dicas de como é. Com velhos e enormes hotelões, Piriápolis parou no tempo, o que não deixa de ter seu charme. O lugar tem praia, tem marina, tem a vista da baía no Cerro Inglês e tem um castelo, o Castillo de Piria, mandado construir por Francisco Piria, fundador dessa e de várias outras cidades de boa parte da costa uruguaia. Dentro do castillo, móveis e objetos de uso próprio reverenciam e contam a história do mecenas.

Piriápolis é vizinha de Punta del Este, essa espécie de Ibiza paulistana que, alguns até se esquecem, fica no Uruguai. Um clima de hay que pasarla bien domina a cidade. Acordar às 3 da tarde e almoçar às 8 da noite é, pode–se dizer, adequado. Ir dormir de madrugada é quase uma obrigação. É claro que a cidade explode no verão, quando o sol parece não querer se pôr nunca. Mas, mesmo agora, antes do inverno, é um destino muito agradável, apesar da água fria. Mas há outras puntas no mapa. Como Punta Colorada e sua praia rochosa cheia de trapiches (píeres). Ou Punta del Diablo, aquela típica vila de pescadores que foi descoberta e virou point durante o verão. A orla colorida pelas casas e pelos barcos de pescadores e a agitação noturna agradam a todos. No meio está a praia de La Paloma, própria para toalhas, protetor solar e livros do escritor Mario Benedetti, um dos super–heróis uruguaios. Imponente, o farol local dá ordens: quando amanhece, quando escurece.

E, posso dizer?, praia de uruguaio é outra conversa. Não há música estridente – que digo? –,não se ouve absolutamente música na areia. Nem mesmo se vê o churrasco nosso de cada dia, que fica guardado para o quintal das casas. A praia é mais como uma praça. É onde as pessoas se encontram para ver, tomar mate, claro, e ver a vida passar. Se for a Punta Colorada, não deixe de passar por Punta Ballena. Além da vista incrível que se tem, com o skyline de Punta del Este de um lado, é o lugar em que fica o Hotel Club Casapueblo, aquela mansão caiada de branco que é postal uruguaio. Originalmente residência do pintor Carlos Páez Vilaró, hoje também funciona como galeria de arte e hotel. Vilaró vive lá e congraça diariamente com os hóspedes.

Já no caminho de volta ao Rio Grande do Sul, a 140 quilômetros de Punta del Este está o que foi a melhor parada da minha viagem, Cabo Polonio. Sem luz, sem acesso a carros convencionais, no meio das dunas, lembra Jeri antes da energia elétrica. Em vez dos hippies e dos porcos de antigamente, artesãos e uma colônia de lobos–marinhos. Para chegar, é preciso deixar a Ruta 10 no quilômetro 264,5 e tomar um caminhão adaptado. Largue o carro sem medo (e sem pagar pelo estacionamento, que não existe). Cabo Polonio não é muito mais que uma ponta rochosa incrustada no meio de uma longa faixa de dunas. Ao lado do farol fica a reserva de lobos–marinhos. Vi dezenas deles. Todos sociais, preguiçosos e irritadiços, ficavam largadões ao sol e, às vezes, puxavam umas brigas.

Tudo isso a 100 quilômetros de Chuí, onde o agente perguntaria se eu era tricolor ou colorado. Disse a ele que era carbonero, a maneira in de dizer que torcia pelo Peñarol, o negro y amarillo, o time mais vencedor do Uruguai (não o mais popular, que é o Nacional), onde jogaram Obdulio Varela, o negro jefe, Pedro Rocha e também Diego “Fiera” Aguirre.

Na cena seguinte, era o policial que sorria para mim. E, depois de remexer em seus pertences, dava–me de presente um adesivinho do Peñarol. “Ponha isso no vidro do seu carro e você não terá problema com os policiais uruguaios”, disse. “Só com os do Nacional, mas esses não contam.”

Poderia ter ficado por ali mais algumas horas, charlando y mateando, relutando em deixar o Uruguai. Mas um pôr do sol no Guaíba me esperava.

Leia mais:

Sumário de maio de 2011 – Edição 187

Doce Deleite ##- Onde é melhor

Doce Deleite ##- O essencial

48 horas em Montevidéu, a capital do Uruguai

A vez de Montevidéu

Visto para a América do Sul

Aluguel de carro na América do Sul

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