Cunha (SP): Campos lado B

Montanhas para idolatrar o infinito, cachoeiras, festival de inverno, truta, cerâmica e preços que alegram o turista em Cunha, a três horas da capital paulista

Cenários de montanhas, pousadas graciosas, trutas, um festival de inverno. São atributos de Campos do Jordão, destino máximo do inverno paulista, que também definem Cunha. Se as cidades fossem pessoas, Campos seria uma cultora do corpo, alguém que gosta de grifes e curte baladas. Cunha, o tipo rústico, meio grunge, camisa xadrez, que se banha na cachoeira e prefere cachaça de alambique ao corte bordalês. Cunha, estância climática normalmente agraciada com sol de dia e fiozinho noturno, é também a terra dos ceramistas, tem muitas trilhas e o mar de Paraty ali perto, ainda que a estrada que a liga à cidade fluminense seja um caso sério.

As íngremes ladeiras de Cunha, a 241 quilômetros da capital, já parecem se anunciar na sinuosa SP-171, depois que se deixa a Dutra na altura de Guaratinguetá. Encravada entre as serras da Bocaina e do Mar, Cunha pede um viajante que valorize o contato com a natureza. O ápice dessa “relação” se dá no Parque Estadual da Serra do Mar (Acesso pelo km 56 da SP-171, 12/3111-2353). A 30 quilômetros do Centro, guarda plantas nativas da Mata Atlântica que exalam gostosos aromas. Quem tem disposição é presenteado com três trilhas. Não precisa ser atleta para encarar a do Rio Paraibuna, de 1,7 quilômetro, um trecho que é normalmente vencido em 50 minutos e que passa por três cachoeiras com poços bons para nadar. “Esta trilha não precisa de guia. Vim pela segunda vez”, contou o engenheiro santista Cecílio Galante. Boa condição física e agendamento prévio são exigidos caso você queira percorrer as trilhas do Rio Bonito, de 7,6 quilômetros, e das Cachoeiras, de 14,5 quilômetros.

Se não quiser ir tão longe, desde o Centro siga as placas para a Cachoeira do Pimenta, com acesso pela chata Estrada do Monjolo, de terra e pedra. Enquanto dirigia por ali, roguei a São Pedro para que meu passeio não acabasse em um atoleiro. Aquele chão integra a Estrada Real, caminho que ligava Diamantina e Ouro Preto ao porto de Paraty, cidade cujas praias, aliás, podem ser admiradas do alto da Pedra da Macela (Acesso pelo km 65 da SP-171). Aviso: os 2 quilômetros de caminhada íngreme podem não valer a pena em dias nublados, quando nada se vê. Uma vez ali, visite também a artesanal Cervejaria Wolkenburg , na mesmo saída do km 65.

Mesmo que você seja um entusiasmado andarilho, o ouro local está menos na Trilha do Ouro (45 quilômetros, 12/3119-1130; R$ 350), peregrinação a pé de dois dias até Paraty, do que no bairro Vila Rica, que concentra 14 dos 21 ateliês de Cunha. A história da cidade com a técnica começou em 1975, ano em que o português Alberto Cidraes e a japonesa Mieko Ukeseshi, do Ateliê Mieko e Mario (Rua Jerônimo Mariano Leite, 510, 12/3111-1468), chegaram a Cunha para construir o primeiro forno noborigama (leia mais abaixo). A vocação artística não se limita à cerâmica, como comprovam os bordados da Casa do Artesão (Rua José Antares Filho, 27, 12/3111-0253) e as joias de Ricardo Pompilio, que deixou São Paulo para elevar seu índice de paz interna bruta em Cunha. Paz é o que emana seu ateliê, o Tabuleiro (Rua Agenor Augusto de Araújo, 233, 12/3111-2295). Enquanto afaga seus cães, ele esmiúça como cria as joias: como um ferreiro, incrusta pedras brasileiras apenas com o bater do martelo, sem cola ou solda. “Só metais nobres como prata e ouro têm maleabilidade para dispensar a fornalha”, explica Pompilio, que cobra de R$ 178 a R$ 3 000 pelas obras.

A estrada e os Fusca em Cunha A estrada e os Fusca em Cunha

A estrada e os Fusca em Cunha (/)

A estrada e os Fusca – Foto: Priscila Zambotto

Também na vila rica, o bucólico e descolado Drão (Alameda Lavapés, 560, draocunha.com.br), que faz papel de bistrô, antiquário e ateliê, é inspirado em casas similares na Holanda natal do simpático Gerwin de Koning, um dos donos, artista perito em criar lustres, bijuterias e telas. O nome Drão tributa a primorosa canção de Gilberto Gil, que fala de separação, mas o mignon ao gorgonzola com risoto de açafrão (R$ 34,50) tinha sabor de lua de mel.  Termine o roteiro pelo bairro na Adega Cunha (Rua Alcides Nogueira, 288, adega cunha.com), que rende uma aula de enologia do proprietário, Marcos Dourado.

No Centro, o casario histórico não é dos mais preservados, mas a região concentra vários eventos. No dia 10 de maio, a Praça da Matriz é tomada por barracas na Festa Gastronômica da Truta. Os pratos (R$ 25) podem ser degustados até 23 de junho nos restaurantes locais. No feriado de Corpus Christi, a comunidade se junta às 6 da manhã para confeccionar o tapete de serragem que se espalha em volta da praça. A principal festa ocorre nos fins de semana de julho: é o 20º Festival de Inverno, ainda sem programação definida pela prefeitura – exposições, shows e concertos estão no menu. Já a Festa do Divino, com singelas apresentações de congado, agita Cunha de 12 a 21 de julho. Se você visitar a estância em janeiro, presenciará a Fuscunha e entenderá por que a cidade também é a capital dos Fusca, que vencem solertes as ladeiras de terra e paralelepípedos. Estima-se que 2 mil deles rodem pelo município de 26 mil moradores. Se você venera o veículo, planeje já sua estada em aconchegantes pousadas como a Recanto das Girafas (Rua Agenor Augusto de Araújo, 251, re cantodasgirafas.com.br; diárias desde R$ 220), cujos aposentos têm lareira e varanda que descortina colinas verdinhas.

Seduzido pelos 53 quilômetros até Paraty, talvez você pense em um bate e volta. Os últimos 9,4 quilômetros, porém, são precários, a não ser em um 4×4. “Lá tem tantas crateras que meu carro quebrou. o lugar é ermo e sem sinal de celular”, avisa a designer Márcia Carvalho. Em território fluminense, o trecho pertence ao Parque Nacional da Bocaina, área de preservação. “Fico constrangida quando digo às pessoas que não vão conseguir chegar. Parece que estou boicotando Paraty”, diz Ana Rosa Calfat, dona da Barra do Bié (pousadabarra dobie.com.br; diárias desde R$ 510).

Prometida há anos, a pavimentação iniciada no fim de 2012 foi interrompida. Segundo o governo do Rio, as obras acabam em julho de 2014. Oxalá a estrada saia logo para que Cunha deixe de ser um destino de montanha com vista para o mar para ser uma montanha com os pés no atlântico!

O prato generoso do Drão e as cervejas encorpadas da Wolkenburg O prato generoso do Drão e as cervejas encorpadas da Wolkenburg

O prato generoso do Drão e as cervejas encorpadas da Wolkenburg (/)

O imponderável vai ao fogo por Pedro Schiavon

 

Preceito estético japonês, o wabi sabi diz que a singularidade das coisas é adquirida a partir das cicatrizes deixadas pelo tempo. E é isso que faz da cerâmica uma arte peculiar, na qual a queima das peças sempre beira o imponderável. Daí a razão de tanta gente ir às aberturas de fornada que o ateliê Suenaga & Jardineiro (Rua Doutor Paulo Jarbas da Silva, 150) promove quatro vezes por ano – as próximas: 6 de julho, 7 de setembro e 16 de novembro. O espaço tem um dos cinco fornos noborigama da cidade. Ele é construído sobre degraus, com câmaras em formato de abóbada interligadas por túneis para que o calor passe entre elas desde a base, onde a lenha mantém o fogo operante por 25 horas a escaldantes 1 400 graus. Enquanto abre cuidadosamente cada câmara, Gilberto Jardineiro detalha todas as excitantes etapas da produção. Os turistas mexem na argila, veem a composição de esmaltes com casca de arroz e minerais decantados, observam o posicionamento das peças dentro das câmaras e o tapamento do forno com barro (a última etapa). Depois, cabe torcer para que os imprevisíveis resultados da circulação das chamas, da sedimentação das cinzas e da oxidação do ar dentro do forno sejam bons e que cada peça – única, irregular e imperfeita – nasça bela.

 

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