Conversa de botequim

Uma seleção de 23 ótimos botecos paulistanos com muitas e surpreendentes coisas em comum pelo PhD em boemia pé-suja MIGUEL ICASSATTI

Na condição de autor do blog Boteclando e de ex-repórter de bares de PLAYBOY e de VEJA SP, venho apontando, nos últimos 14 anos, qualidades e defeitos de pubs, tascas e cervejarias, entre outros tipos de bar. Mas, quando quero desacelerar, beber e beliscar a lazer, é nos botecos que me refugio. E um bom boteco – esse subgênero gastroetílico de definição imprecisa – é o que não falta em São Paulo, cidade em que eles próprios acabam por estabelecer coincidências entre si, voluntárias ou não.

Donos do balcão

Alguém já reparou, por exemplo, com que orgulho muitos donos de bares exibem o próprio nome ou alcunha na porta de sua locanda? Na falta de um só bar do Luiz, São Paulo tem três: o Bar do Luiz Fernandes (Rua Augusto Tolle, 610, 2976-3556), no Mandaqui, que acaba de nos legar o brasileirinho, um bolinho de mandioquinha com recheio de feijoada e couve (R$ 3,50); o Bar do Luiz Nozoie (Avenida do Cursino, 1210, Saúde, 5061-4554), que chega aos 50 anos em 2012 firme e forte, assim como sua inoxidável máquina de fazer sorvetes – adaptada para gelar uma garrafa de serramalte (R$ 7) em 15 minutos; e o Bar do Magrão (Rua Agostinho Gomes, 2988, 2061-6649). Luiz Antonio Sampaio no RG, Magrão montou em seu bar, no Ipiranga, uma respeitável carta com 70 marcas de cerveja.

Na Zona Leste, três veteranos comandam duas bodegas. No mooquense Elídio Bar (Rua Isabel Dias, 57, 2966-5805), o são-paulino Elídio Raimondi expõe 80 itens em seu balcão de petiscos (R$ 7,50 cada 100 gramas). No Bar do Leonel (Rua Emilia Marengo, 468, Tatuapé), a freguesia é acolhida por Wilson e Walter Leonel com um cordial “Joinha? Joinha?”, para logo receber as garrafas de Original geladaças (R$ 8) que guarnecem os pasteizinhos de palmito (R$ 4).

Um pouco maiores e pelos mesmos R$ 4, os pastéis de carne, queijo e palmito são a única opção de salgado para quem chega cedo e com fome ao Botequim do Hugo (Rua Pedroso Alvarenga, 1014, Itaim Bibi, 3079-6090). Afinal, Hugo Cabral Filho encerra o expediente às 10 da noite – em ponto.

Pais, mães e filhos

Nessa lista de notáveis, a portuguesa Felicidade Bastos é a única dama. À frente do Dona Felicidade (Rua Tito, 21, Vila Romana, 3804-0775), ela serve os mesmíssimos desmaiados (pudim de coco com calda de caramelo, R$ 8) e bolinhos de bacalhau (R$ 3,80) que já haviam dado fama a seu primeiro bar, o Pé pra Fora (Avenida Pompeia, 2517, 3672-4154), sob outra administração desde 1996.

Entre o Bar Léo (Rua Aurora, 100, 3221-0247), berço do mais mítico chope servido na cidade (R$ 6,50), e o Amigo Leal (Rua Amaral Gurgel, 165, 3223-6873), ambos no centro, a relação é ancestral: foram fundados por Leopoldo Urban respectivamente em 1940 e 1967. Gerente do Léo por oito anos, Milton di Francesco está entre os sócios do Bar do Nico (Rua Moreira e Costa, 538, Ipiranga, 2273-4811), para onde levou em 2000 o conhecimento de como tirar bem a bebida (R$ 5,50). O Original (Rua Graúna,137, Moema, 5093-9486) e o Pirajá (Avenida Brigadeiro Faria Lima, 64, Pinheiros, 3815-6881), por sua vez, são bares-irmãos. Têm os mesmos donos e a mesma filosofia, a de prestar continência a quem preza pela boa cozinha boêmia.

Um dos bares homenageados pela dupla é o sexagenário Valadares (Rua Faustolo, 463, 3862-6167), na Vila Romana, vizinho de parede do Lewis Bar (Rua Crasso, 140, 3864-3207). Lewis é o apelido de Oscar da Silva Aguiar, ex-garçon do Valadares que, depois de 15 anos de casa, investiu em 2004 seus tostões no próprio negócio, no qual vende saborosos bolinhos de carne com gorgonzola (R$ 19,90, 12 unidades). A política da boa convivência reina naquela calçada, até porque Lewis respeita a primazia do Valadares no preparo de petiscos casca-grossa, a exemplo dos testículos de galo fritos (R$ 26,90 a porção).

Conjunto da obra x obra-prima

Outro sessentão célebre pela excelência de seus acepipes incomuns é A Juriti (Rua Amarante, 31, Cambuci, 3207-3908). São duas as pedidas obrigatórias ali: a codorna ao alho e óleo (R$ 7) e a rã à dorê (R$ 12). Na Vila Mariana, o conjunto da obra é também a razão de ser do Jabuti (Avenida Conselheiro Rodrigues Alves, 1315, 5549-8304). Seu menu privilegia pescados, como manjubinhas fritas, polvo ao molho vinagrete e um inigualável atum ao escabeche.

Já em certos endereços, vale apostar todas as fichas na especialidade da casa: pela ordem, a paella (R$ 45) do Del Mar (Rua dos Andradas, 161, Centro, 3222-8600); o insuperável churrasco no pão (R$ 13) montado no Peru’s (Rua Cajuru, 1164, Belém, 2694-6861); e a coxinha com catupiri (R$ 4,60), a pièce de résistance do Frangó (Largo da Matriz de Nossa Senhora do Ó, 168, Freguesia do Ó, 3932-4818) e do Veloso (Rua Conceição Veloso, 56, Vila Mariana, 5572-0254), onde a porção com seis unidades custa R$ 19,80.

De longe

A bem da verdade, no Frangó as atenções recaem também sobre a carta de cervejas, que beira os 100 rótulos de diversos países, como Bélgica e Alemanha. Da terra do chucrute, aliás, vem a inspiração para o que talvez seja o menos paulistano dos botecos. Na forma – lembra uma taberna alpina –, no cardápio e no nome, o Zur Alten Mühle (Rua Princesa Isabel, 102, Brooklin, 5044-4669) não deixa dúvidas quanto à sua origem. Eisbein (R$ 61,30), Leberkäese (bolo de carne com batata, R$ 34,80) e o bom chope (R$ 5,80) evocam a tradição tesdesca.

As influências no cardápio da Academia da Gula (Rua Caravelas, 374, Vila Mariana, 5572-2571) também chegam de longe, mas o sotaque é mais familiar: alheira (R$ 29,90) e bacalhau desfiado com cebola (R$ 35) estão entre as receitas preparadas pela portuguesa Rosa Brito em seu boteco de esquina. Zelosa pelo salão e pela cozinha, bem que ela poderia seguir o exemplo dos Luizes, do Elídio e do Leonel e estampar seu nome na porta. Que tal pensar no assunto, dona Rosa?

Leia mais:

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