Chicago: um passeio diferente pela terceira maior cidade do país

A adorável Chicago é um milagre em plena paradeira do Meio-Oeste americano. Tem prédios absurdamente arrojados, muito blues, muito jazz – e o lago Michigan

Num de seus famosos perfis, o escritor americano John Jeremiah Sullivan descreve o Meio-Oeste como “a parte mais nada, mais lugar nenhum dos Estados Unidos”. Algo que os americanos chamam pejorativamente de fyover country, um pedaço do país por onde você só passa de avião, para ir da Califórnia até a costa leste. Um emaranhado de cidadezicas insípidas, campos de plantação de milho e soja e gente conservadora que provavelmente ainda vai perguntar se você mora em uma selva quando disser que é do Brasil.

E é nesse miolo que está Chicago, a terceira maior cidade americana, que nada tem a ver com a caipirice dos arredores — e é tão cosmopolita, intensa e interessante quanto suas colegas desta reportagem. Lugar de fanáticos por esportes (melhor escolher logo de que lado dos times de baseball você está: Cubs ou White Sox?), arquitetura arrojada, restaurantes estrelados, uma vida cultural eletrizante, muito blues, muito jazz e hotéis bons e baratos – redes top, como Sheraton, Softel e W, costumam ter tarifas a partir de US$ 100.

Arquitetour

A curta história da cidade explica sua localização improvável: fundada em 1837, Chicago era um importante hub comercial por ligar os Grandes Lagos ao rio Mississippi. O evento mais marcante desde então foi provavelmente o Grande Incêndio de 1871, que torrou a maior parte da cidade. Mas a bonança veio, e como: das cinzas, arquitetos como Daniel Burnham e Frank Lloyd Wright construíram os primeiros arranha- céus do país (o pioneiro tinha dez andares, veja você). Mais tarde, o alemão Mies van der Rohe e seus seguidores revolucionaram a paisagem local com prédios modernos cheios de estruturas de aço e vidro. E depois deles os pós-modernos. O resultado é que a cidade pira em arquitetura e tem o skyline mais opulento do país. Um dos nomes mais impactantes hoje é Jeanne Gang, que projetou a forma “ondulante” da Aqua Tower, em 2009, e foi a primeira mulher do planeta a colocar um arranha-céu de pé. Para entender o negócio, suba no Skydeck, o observário da Willis Tower, a mais alta da cidade. Lá há cubos de vidro encaixados para fora do prédio que dão a sensação de futuar a… 400 metros de altura.

“Dá vontade de vir pra cá e fazer um curso de arquitetura”, me disse a dentista paulistana Elisa Gonçalves, que declaradamente tinha conhecimentos arquitetônicos tão parcos quanto os meus e embarcou num tour da Chicago Architecture Foundation, que tem guias superescolados. De barco no lago Michigan, que enquadra lindamente a cidade, você aprende sobre a evolução dos estilos no Loop, o centro comercial, e vê praças enfeitadas com obras como a escultura de 15 metros de altura de Picasso na Daley Plaza.

Eu já vi a cidade em muitas ocasiões, com ventanias no outono, empacotada em casacos no inverno e também no verão, quando Chicago tem um despertar excepcionalmente enérgico: os chicagoans lotam as ruas com as Divvy Bikes, do sistema de bikes públicas, tomam café em mesas nas calçadas, ocupam as praias do lago Michigan como se estivessem em Miami e saracoteiam pelo Millennium Park para se refescar nas Crown Fountains, obra interativa em que imagens de duas bocas em telas de LED cospem água.

O parque também emana a energia cultural da cidade: por ali está o fantástico Art Institute, cujo must é o quadro do impressionista francês Georges Seurat, Uma Tarde de Domingo na Île de la Grande Jatte. Ou a ala moderna do museu, projetada por Renzo Piano. E o Symphonic Center, casa da Orquestra Sinfônica de Chicago, uma das mais top do mundo.

Saindo do Loop, o mais óbvio é bater pernas pelo bairro River North, onde a Magnifcent Mile, lotada de grandes lojas de grifes, está aí para os amantes da Quinta Avenida. Escorregando alguns quarteirões a oeste, a intersecção das ruas Superior e Franklin concentra galerias de arte. Ali, coma na Lou Malnati’s Pizzeria a deep dish pizza, patente chicaguina, uma pizza/torta grossa e queijuda. E aí fnalize o dia no Navy Pier, onde, do alto da roda-gigante, você tem vislumbres da Windy City.

Aliás, Chicago só perde no quesito compras para os outros destinos dos EUA pelo imposto: o sales tax é de 9,25%, um dos mais altos do país (em NY é de cerca de 8,87%). Mesmo assim, os caras acertaram em cheio quando inauguraram o Fashion Outlets of Chicago, no ano passado, colado no aeroporto de O’Hare. Você pode chegar cedo, fazer o check-in ali mesmo e mandar ver nas comprinhas pré-voo.

É comum receber olhares preocupados quando você diz que vai se afastar do Loop. Chicago vive uma certa insegurança. Desde os tempos de Al Capone tem problemas com gangues, e a violência assola bairros menos abastados, no sul e no oeste. O drama virou tema da série de documentários da CNN Chicagoland, que estreou em março.

Assim, achei melhor rumar para o norte, na descoladinha Wicker Park. A Milwaukee Avenue, no trecho entre a Divion Street e a North Avenue, é um burburinho hipster (brechós, bigodes, camisas xadrez, cafés vintage, lojinhas independentes, aquela coisa). Por ali estão a Reckless Records, coberta de vinis, a Lomography, em que fotógrafos e diletantes encontram câmeras analógicas, e o Filter, um café cheio de sofás antigos. Para comer, há o estiloso mexicano Big Star ou o gracinha Mindy’s Hot Chocolate.

Já à região de Lincoln Park, vá de dia, ao parque e zoológico, se estiver com crianças. Ou à noite, para um bom bar de blues. Arrematei o dia com uma cerveja do Kingston Mines, onde o vozeirão do vocalista e o tecladista virtuose não me deixaram desviar os olhos da banda.

No Meatpacking District aconteceu algo parecido com o que rolou no colega homônimo de Nova York: ali se instalou a Restaurant Row, fleira com os melhores restaurantes da ascendente cena gastronômica da cidade. O Alinea, em 15º lugar na lista dos melhores do mundo da revista Restaurant, puxou seguidores, como o chef Curtis Duf, do Grace. Escolhi o restaurante Blackbird e pedi um peito de pato com couve-de-bruxelas, iogurte grego e sementes de mostarda. Do lado de fora, o conjunto de construções deterioradas faz lembrar quão longe e ao mesmo tempo quão perto Chicago está do Meio-Oeste. E talvez seja isso o que deixa a cidade tão adorável, afinal.

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