Boston: comércio e museus na cidade histórica que renasceu

Coberta por um onipresente tom amarronzado, rodeada de prestigiosas universidades - entre elas Harvard. Boston e seus predinhos de tijolos é cheia de história pra contar, e cheia de boas-novas pra mostrar

A vista do alto do observatório do Prudential Center mostra uma Boston que parece totalmente unicolor; uma grande mancha amarronzada de casas de tijolos com telhado cinza-escuro, e um punhadinho de prédios mais altos aqui e ali. O que fundamenta a impressão de que Boston é, antes de tudo, uma cidade histórica: estabelecida em 1630, ela foi o centro comercial e intelectual das colônias britânicas. E, mais importante, o epicentro da luta revolucionária que culminou na independência do país, em 1776.

Apesar disso, Boston não é nenhum tipo de cidade-museu, parada no tempo. Ela teve, na verdade, uma das mais bem-sucedidas histórias de renascimento urbano nos últimos 20 anos. Sua população cresceu (hoje são 636 mil habitantes), e mais imigrantes vieram; hoje mais da metade da população é de origem negra, hispânica, asiática ou de outras nacionalidades. O maior dinamismo ao redor de suas universidades (são mais de 50) ajudou a expandir a economia. E vieram megainiciativas como a limpeza da água do Boston Harbor, que banha a cidade, e o Big Dig, o projeto rodoviário mais caro da história dos EUA. Eles simplesmente pegaram uma rodovia elevada que passava no Centro da cidade e a transformaram num túnel (o que custou 15 anos sob a poeirada das obras). Agora, uma parte do que era um feio viaduto virou o Rose Kennedy Greenway, uma série de parques com instalações de arte.

Ostras e revolucionários

O coração verde da cidade é o Boston Common, uma espécie de Central Park local, em proporções menores. Ali começa a famosa Freedom Trail, um caminho vermelho pintado no chão que descomplica o tour histórico. É só seguir e ver landmarks como a Old State House, sede do governo de Massachusetts no século 18, em que hoje um museu com guias vestidos de revolucionário contam a história da libertação do país das garras dos ingleses.

O Faneuil Hall Marketplace e o Quincy Market também fazem parte do roteiro, mas perderam sua autenticidade com turistas demais e lojas comuns demais. Melhor atravessar a ponte e seguir para a fofa Little Italy, no North End, cheia de restaurantes, butiques, mercadinhos e docerias. A tarde de sábado em que eu estive lá estava especialmente animada: a Mike’s Pastry tinha filas de gente tentando comprar seus cannoli de mil sabores, e quase não consegui sentar no Neptune Oyster, um dos melhores points de futos da mar da cidade. Ah, sim, comer ostras em Boston é quase como apreciar um vinho: você recebe um cardápio com as espécies e a região de onde elas vêm e suas características – mais carnudas, mais salgadas, com um leve fnal amanteigado, por exemplo. Se achar confuso, peça uma de cada tipo e se surpreenda.

Em Beacon Hill, outro bairro histórico, o passeio pelos paralelepípedos da Charles Street é uma delícia, com um monte de lojinhas legais, como a Black Ink, com livros, brinquedos e apetrechos de viagem, e a Beacon Hill Chocolate, que já foi considerada uma das melhores chocolaterias da cidade. Dali para Back Bay, um charmoso bairro com pinta de europeu, é um pulo (aliás, quase tudo em Boston é um pulo). Entre seus bulevares apinhados de lojas estão o Prudential Center, o lugar com vistão que abre este texto, e a Copley Square, onde termina a Maratona de Boston, que rola em abril (e deve ter segurança reforçada neste ano).

South End, que está a apenas 40 minutos a pé do North End, é o reduto dos artistas do momento. No Sowa, que abrange a Thayer Street e a Harrison Avenue, há ateliês, galerias, lindas lojas de decoração e um mercado com artesanato e comidinhas aos domingos. “Aqui tem uma interação muito grande entre os artistas. As lojas são independentes e vendem artigos únicos”, me disse a designer Lana Barakat, dona da loja December Thieves.

Para os dois museus essenciais de Boston, suba no metrô mais antigo do país, o “T”, como é chamado por lá. O Museum of Fine Arts tem uma imensa coleção de impressionistas fanceses, graças aos colecionadores bostonianos do fm do século 19 que compraram as obras ainda baratas, enquanto a elite de Paris e Nova York ria de Monet, Degas e Renoir. Quase ao lado dele está o Isabella Stewart Gardner Museum, fundado pela colecionadora nova-iorquina em 1903 e que não mudou muito desde então, já que, quando morreu, ela pediu que a coleção permanente nunca fosse alterada. Pois então resolveram construir logo ao lado uma estrutura de vidro do arquiteto-grife Renzo Piano para abrigar mostras de arte contemporânea, inaugurada em 2012. E o conjunto fcou espetacular.

Se Boston dá a sensação de ser pequena na prática, no mapa ela parece muito maior. As divisas com as cidades próximas, como Brookline e Somerville, são imperceptíveis. “É difícil entender onde Boston começa e termina efetivamente”, me disse Marcelo Zicker, jornalista brasileiro que mora na cidade há cinco anos e escreve no Brazilian Times, um dos jornais destinados à comunidade brasileira de Massachusetts, cerca de 300 mil pessoas. De fato, Cambridge, do outro lado da ponte, parece a continuação natural de Boston. Eu aproveitei para fazer o tour dado pelos alunos de Harvard e conhecer o campus (de 1636!). O “guia” mostra onde viveram alguns moradores célebres, como John F. Kennedy, Bill Gates e Mark Zuckerberg, e conta historinhas como a do ex-aluno que dá nome à biblioteca Harry Elkins Widener Memorial e que morreu no Titanic.

Pode parecer difícil pensar em uma região sendo erguida do zero numa cidade com quase 400 anos. Mas foi o que aconteceu com o Fort Point Channel, que margeia a enseada de Boston Harbor. Depois da construção do Boston Convention & Exhibition Center, em 2004, o negócio deslanchou. A restaurateur mais famosa da cidade, Barbara Lynch, aproveitou e abriu três casas, uma delas o italiano Sportello. Em 2012 lançaram como atração turística réplicas dos navios da famosa Boston Tea Party, na qual atores encenam o momento em que os colonos se revoltaram com a sangria dos impostos e jogaram um carregamento inteiro de chá inglês no mar. E o excelente Institute of Contemporary Art também abriu por ali, debruçado sobre a enseada. Quase tão bacana quanto as exposições é o edifício todo de vidro, que tem alas vazias com bancos para sentar e admirar os prédios refetidos na água e as luzes da cidade de tijolos marrons.

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