Bariloche: a temporada mais esperada

Depois do inverno que não houve em 2011, a estação argentina se prepara para receber 10 mil brasileiros

200 lugares para amar o inverno: mais destinos

Conheci Bariloche aos 15 anos. Era a primeira vez que eu voava, e tive a sorte de aterrissar olhando o cenário desde a cabine do avião, pois o piloto era pai de um colega da escola. Íamos no jato da Aerolíneas eu, meu pai e minha avó, que era, de fato, a responsável por aquela viagem – um regalo que me dava de aniversário. Para a maioria dos jovens argentinos, e eu fui um deles, o sul de nosso país tem uma dimensão meio mística. É a natureza profunda, anímica. Mas Bariloche é também o seu oposto, o lazer aguardado, o destino número 1 de férias, a Porto Seguro gelada. Milhares de estudantes argentinos vão à cidade como prêmio de formatura e têm ali o rito simbólico do fim da adolescência. Voltei agora, aos 41 anos, com a dose de ceticismo e psicose do argentino médio, para esta reportagem da VT.

Bariloche, ou São Carlos de Bariloche, seu nome oficial, tem, pode-se dizer, as cores da bandeira argentina – o céu muito azul contra o branco de seus picos nevados. É assim que os brasileiros a querem, pois viajam para cá no meio do ano, quando se abre a temporada de esqui. O português ou um pouco esforçado portunhol domina as conversações na cidade em julho. Não é a língua que se ouve em janeiro, no verão. No inverno de 2011, o português deixou saudade. A cidade ficou às moscas, ou melhor, às cinzas – às cinzas do vulcão chileno Puyehue, que interromperam o tráfego aéreo na região e, por consequência, derrubaram o turismo de Bariloche. Em 2012, se a cidade não assiste a lançamentos hoteleiros nem tem grandes novidades em seus centros de esqui, carrega as mais altas expectativas. “Esperamos até 20 mil brasileiros nesta temporada”, diz Leopoldo Tiberi, do organismo de turismo local.

Fênix da neve

O vilão, o Puyehue, se acalmou, o que não significa que tenha cessado sua atividade. De qualquer forma, o aeroporto não enfrentou mais problemas e se tornou o mais seguro da Argentina, segundo Tiberi. A pista foi reformada, e um sistema que mede a concentração de cinzas na atmosfera começou a funcionar. Se, como dizem na Argentina, “não há mal que por bem não venha”, para o incremento do aeroporto as cinzas certamente serviram. Bariloche já tem seu mascote oficioso deste inverno: a ave fabulosa fênix, que renasce das cinzas. Os 120 voos charter esperados desde o Brasil são suas asas.

Principal estação de esqui da Argentina, Cerro Catedral (54-2944/409-000, catedralaltapatagonia.com; Cc: A, D, M, V; passes desde US$ 34) volta a exibir suas atrações aos brasileiros, especialmente para aqueles que sabem, ainda que mais ou menos, esquiar. Depois do snow tubing e do esqui de fundo (prática com equipamento mais leve e em pistas mais planas) dos anos recentes, a novidade de 2012 é de ordem administrativa, com a concessão da montanha à iniciativa privada. Não somou nenhum metro de área esquiável a seus 120 quilômetros de pistas, mas divulga melhorias em segurança e manutenção de equipamentos. Conheci Justi Olivieri que, aos 59 anos e 70 temporadas de esqui (algumas na Europa), chefia 450 instrutores na escola de Cerro Catedral, na base da montanha. Olivieri me falou que os brasileiros “são divertidos, indisciplinados e costumam aprender rápido porque têm boa relação com seu corpo”.

É claro que Justi manifestou opinião diferente quando lhe perguntei sobre a relação dos brasileiros com a bola.

Catedral é a grande estação, mas a neve se espalha por outros lugares. Numa das faces do Cerro Otto, famoso pela confeitaria giratória a 1 405 metros de altitude, está o Centro de Esqui Nórdico (54-2944/427-593, skinordico.com), onde a brincadeira é andar de quadriciclos adaptados por bosques de onde se vê o lindo Lago Nahuel Huapi lá embaixo. Trenós puxados por motos também podem ser usados. O turista mais sustentável talvez prefira caminhadas sobre a neve, em raquetas. É uma interessante opção para um passeio em família – quando os filhos ainda não descartam a companhia dos pais por estes não saberem fazer slalons ou outras manobras radicais. Do outro lado do Otto está Piedras Blancas (Avenida de los Pioneros, km 1, 54-2944/430-417, piedrasblancasbariloche.com; passes desde US$ 41), com cinco pistas para a prática do esquibunda.

Há hotéis que vão para sua primeira grande temporada de inverno na cidade. Caso do Alma del Lago (Avenida Bustillo, km 1, 151, 54-2944/527-010, almasuites.com.br; diárias desde US$ 182; Cc: A, D, M, V), onde me hospedei no fio domingo de minha chegada. Nestes últimos anos, confesso que não tem sido fácil deixar minha vida de personagem secundário de cumbia, e com isso raramente me afasto de lugares pouco recomendáveis em Buenos Aires. O Alma, cinco-estrelas que me esperava em Bariloche, poderia ser, portanto, meu próprio Taj Mahal. Mas as suítes de cerca de 40 metros quadrados estavam mais para Lost in Translation: um luxo contido, executivo, fio, moderno, sem rococós ou objetos de decoração que imaginamos na casa da abuelita tirolesa. No térreo há sauna seca e úmida, além de uma piscina de 17 metros com bela vista do Lago Nahuel Huapi. Conheci também o Villa Huinid (Avenida Bustillo, 2600, 54- 2944/442-494, villahuinid.com.ar; diárias desde US$ 98), onde fui mais bem tratado do que sinto que merecia. O local tem apartamentos no prédio principal e cabanas mais isoladas e um spa com tratamentos faciais. A grande referência hoteleira de Bariloche segue sendo o Llao Llao (Avenida Bustillo, km 25, 54- 2944/448-530, llaollao.com; diárias desde US$ 219; Cc: A, D, M, V). São 205 quartos, campo de golfe de 18 lugares, spa e um salão de chá que pode justificar a visita caso você não possa ou não tenha interesse de se hospedar ali.

As coisas boas da vida na estação de Cerro Catedral, Bariloche As coisas boas da vida na estação de Cerro Catedral, Bariloche

As coisas boas da vida na estação de Cerro Catedral, Bariloche (/)

As coisas boas da vida na estação de Cerro Catedral – Foto: Francisco Bedeschi

Cervejas artesanais

Passei várias temporadas em São Paulo, onde bons amigos sempre me regalavam com um catre e boa comida. Eles me informam agora que pipocam pela metrópole bares dedicados a cervejas artesanais. Bem, se isso é um novo vício dos brasileiros, eles não sofrerão de abstinência em Bariloche. Hoje já são cerca de 20 pequenas cervejarias na cidade, e seus donos começam a se organizar para ofertar uma experiência mais completa. O slogan da associação, eles já têm: “Feliz encontro entre as pessoas”. Nesses estabelecimentos, às vezes a fábrica está dentro do bar, e não o contrário, caso da Blest (Avenida Bustillo, km 11, 54-2944/461-026, cervezablest.com.ar; Cc: A, D, M, V), a pioneira. O funcionário Martin Oyarzun amavelmente me explicou que a qualidade e a pureza da água local e o lúpulo que se consegue pela região são fatores determinantes para a qualidade do produto. Há até uma levedura de cerveja nativa dos bosques da Patagônia, que é elaborada a partir do fungo llao-llao e que deu origem à levedura híbrida que hoje se usa correntemente na produção das cervejas do tipo lager. A alguns quilômetros da Blest, Ángel Perticará, dono do Konna (Calle Juramento, 73), na área central da cidade, reafirma o espírito de fraternidade nativo. Diz ele que os produtores artesanais se cotizam para apresentar seus rótulos em feiras e encontros. “Já ganhamos prêmios em Blumenau.” No fim de novembro, Bariloche tem um evento marcado: o primeiro Festival Latino-americano de Cerveja Artesanal, com direito a degustações, cursos, charangas e muito consumo do precioso líquido.

Como todo recanto invernal, Bariloche é também famoso por seu chocolate. A família Fenoglio, italiana, foi a pioneira em uma década que já se perdeu nas brumas. As marcas Rapa Nui, El Turista, Mamushka, Fenoglio, Abuela Goye e Frantom se destacam. Na Frantom (Calle Mitre, 183, 54-2944/445-668, chocolatesfrantom.com.ar), o cacau vem da Bahia, como me disse o vendedor Maxi Nieto, que, de tanto observar os brasileiros que acorrem à loja, os define como “gente a quem é melhor nada impor”. Curioso constatar que os brasileiros acabam por vir a Bariloche repatriar, agora elegantemente empacotado, o alimento tropical de seu país. São as voltas da vida.

Animais de latitude

Mas esse é um caso de exceção. A culinária de Bariloche tem sabores que são próprios. Peixes de água doce, como a truta e o salmão; animais típicos destas latitudes, como o cervo, o javali, o cordeiro; sobremesas preparadas com frutos finos (arándanos, framboesas e outros berries). Tudo isso se pode desfrutar em lugares como o El Patacón (Avenida Bustillo, km 7, 54-2944/442-898, elpatacon.com; Cc: D, M, V), um dos restaurantes de insígnia de Bariloche, que tem também uma festejada truta negra, como degustou Bill Clinton em 1998, um dos visitantes de que se orgulha o lugar. Perto do Llao Llao, o Il Gabbiano (Avenida Bustillo, km 24, 448-346, gabbiano.com.ar; Cc: D, M, V) é um irresistível convite ao passante com sua fachada de madeira. Salmão, ravióli de abóbora e coelho ao alho se fazem acompanhar por uma carta de vinhos completa que inclui rótulos italianos e franceses.

No Brasil, os operadores estão ansiosos. Aldo Leone, da Agaxtur, disse à VT que “Bariloche 2012 vai ser tudo de bom”. Planeja levar ao destino 3 500 brasileiros. A CVC mira mais alto: 10 mil turistas. Bem-vindos todos. Neste meu retorno a Bariloche, senti orgulho da calidez de sua gente, do espírito de superação em uma região que exige grandes esforços. Agradeço aqui pela pureza do ar, pela beleza da montanha e pela serenidade do lago. Bariloche faz bem. “A neve borra a maldade e cura todas as feridas da alma”, disse o recém-finado compositor Spinetta, grande poeta musical argentino. Abençoado seja.

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