Absurdo – Movida santiaguina

No bairro Bellavista, de Santiago, o bairro mais boêmio e literário O Palermo Soho encontra o Quartier Latin 

Santiago é um destino cada vez mais conhecido dos brasileiros, pela proximidade e por ser capital e base de um país exuberante. Se você não quer ficar muito tempo na cidade por já conhecer ou por estar louco para explorar o Atacama, vá direto à Bellavista, o bairro boêmio-literário por excelência. O lugar é uma mistura do Palermo Soho, de Buenos Aires, e o parisiense Quartier Latin. É o que concluo ao ver tantas placas e fachadas que indicam sua enorme vocação cultural. São 22 teatros, incontáveis bares, bons restaurantes, lojinhas design, galerias e coletivos artísticos. E ainda a casa de Pablo Neruda, uma livraria-café, mais de cinco centros culturais. Tudo isso cercado pelo belíssimo Cerro San Cristóbal, com seus lindos mirantes a 880 metros de altitude.

As mansões de veraneio dos antigos aristocratas santiaguinos hoje vão se transformando em hotéis-butique, como o charmoso The Aubrey, inaugurado em março deste ano. São apenas 15 quartos, 11 deles na casa principal, que foi completamente reformada, e quatro ao lado da piscina, aos pés do cerro. As diárias, desde US$ 240, incluem um café da manhã “brasileiro”, com sucos e frutas tropicais. Até quem não está hospedado no The Aubrey pode conhecer um de seus pontos fortes: uma filial do badalado restaurante Pasta e Vino, de Valparaíso. Montado pela chef Verónica Alfageme, o cardápio tem sete tipos de nhoque e várias outras massas, feitas artesanalmente. Para experimentar, é preciso reservar.

Se não houver vaga na noite desejada, não se preocupe, a Calle Constituición, onde está o hotel, abriga dezenas de restaurantes, entre eles uma paixão dos brasileiros, o Como Água para Chocolate. Nele encontro a estudante de arquitetura paulistana Fabíola Fonseca. “Acho que os brasileiros gostam da experiência de comer algo afrodisíaco”, diz. Pela terceira vez em Santiago e pela terceira vez no restaurante de comida mediterrânea-mexicana, ela recomenda o medalhão com molho de três pimentas, acompanhado de legumes, que sai por menos de $ 9 000 (R$ 36), um dos pratos do que se chama ali de “cozinha mágica”. Os ingredientes afrodisíacos são as tais três pimentas. A casa foi inspirada no romance homônimo da mexicana Laura Esquivel, levado com muito sucesso às telas dos cinemas em 1993.

Para quem já conhece Constituición e os restaurantes clássicos, como o Azul Profundo, que serve frutos do mar caprichados, em um ambiente todo decorado com carrancas, timão e outros objetos náuticos, há uma boa novidade: o Santiago Colonial, dirigido pelo chef Rodrigo Barañao, que serve pratos típicos da cozinha chilena com um toque moderno, como o salmão com molho de papaia (que não se parece em nada com o nosso mamão) acompanhado de uma tortilla de alcachofra. Para quem alugou carro, um refresco: o restaurante é um dos poucos com estacionamento gratuito. Se preferir algo mais leve, há o Ciudad Vieja, com sanduíches gourmet desde $ 2 700 (R$ 10), como o Huarique, com anchova, tomate, maionese e molho. A carta de cervejas tem mais de 30 opções.

Mas nem só de boa comida se faz a rua. Há também lojinhas design, como a Little Palermo Soho, que vende roupas e acessórios vintage, feitos por estilistas argentinos, com carinha de brechó moderno. No fim da rua, na Plaza Mori, está a Casa Roja Lehuedé que, além de peças de vestuário, tem objetos de decoração, obras de arte, artesanato e suvenires. Vale a visita nem que seja só para conhecer o casarão em si, um dos mais antigos do bairro (de 1923), e sua infinidade de cômodos. Já para quem prefere livros, há a El Mundo del Papel, uma livraria-cafeteria onde os sofás são feitos de papelão, a decoração é de origamis e pipas. O acervo tem títulos de história e de viagem, entre outros.

Falando em livros, é quase inconcebível vir à Bellavista e não visitar La Chascona, a casa onde o poeta e prêmio Nobel Pablo Neruda viveu com sua terceira esposa, Matilde Urrutia, de 1955 a 1973. Mas faça isso pela manhã (a partir das 10 horas), quando o número de turistas é menor. A casa lembra um barco, com escotilhas no lugar das janelas e teto baixinho. Ande por ali tentando decifrar “o eco de antigas palavras, fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos…”, do amor de Pablo e Matilde. A música Futuros Amantes e seus versos, como “Amores serão sempre amáveis”, de Chico Buarque, vêm à mente ao ver tantas e pequenas declarações pela casa. Apesar do grande número de objetos espalhados pelos cômodos, o que há hoje é uma fração do que já existiu ali, visto que os militares invadiram e vandalizaram La Chascona em 1973.

Ficaram os poemas, e eles também invadem os muros de todo o bairro na forma de belos grafites multicoloridos. Há um painel em frente a La Chascona e outros tantos espalhados pela rua mais underground da Bellavista, a Calle Pio Nono. Em 1980 ela abrigava um improvisado mercado de pulgas; hoje quem toma suas calçadas são jovens e estudantes, em esquentas para as baladas, aqui chamadas de boliches, de reggaeton. Algumas pessoas dizem ser perigoso andar sozinho por ali, mas o lugar não parece ser mais inseguro que a Rua Augusta, em São Paulo, por exemplo.

No fim da Pio Nono está o funicular que sobe o Cerro San Cristóbal, montanha com 880 metros, onde há um terraço com uma das melhores vistas de Santiago, duas piscinas públicas e o Parque Metropolitano. Com mais de 700 hectares, o parque tem zoológico, jardim japonês, espaço para churrasco, ciclovia… E foi cenário do primeiro encontro de Pablo e Matilde e, imagino, dos muitos estudantes que gravitam pela região. O senão é que abre tarde, às 10 horas da manhã, e não é aconselhável quando anoitece.

Mas de noite o bom mesmo é agitar. Para ouvir música latina, há a La Casa en El Aire, centro cultural com apresentações de dança e saraus, além de shows de músicos chilenos, colombianos, mexicanos, espanhóis… Se quiser comer bem e dançar no mesmo lugar, cacife o Etniko, mas só de quinta a sábado, quando DJs tocam música eletrônica. Ou, então, vale anotar o endereço do resto-bar mais cool da cidade, o KY, que fica escondido na Calle Perú, em um casarão com mais de dez ambientes, todos muito diferentes e bacanas. Para se jogar na pista, o lugar é o La Feria, onde desembarcam os DJs internacionais que vão a Santiago. Finalmente, quem gosta de jazz deve ir a El Perseguidor, considerado o precursor do gênero na cidade.

Com tantas opções, se bater uma vontade louca de não tomar decisão alguma ou escolher entre jazz e cúmbia, flane pelo Patio Bellavista, um shopping a céu aberto de dia que se transforma em point à noite, com vários bares e restaurantes-baladas. Bellavista é um lugar onde este verso de Neruda faz bastante sentido: “Se trata de que tanto he vivido/que quiero vivir otro tanto”.

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