A nossa Broadway

Musicais em São Paulo: com uma superprodução atrás da outra, o estado abraça de vez os grandes musicais e atrai uma onda de excursões do interior paulista

As animadas excursões do interior para os teatros paulistanos agora têm os musicais como ápice da programação. “Aqui ou em Nova York, é o público de fora que permite que as peças fiquem tanto tempo em cartaz”, diz o ator e cantor Saulo Vasconcelos, nos palcos com Mamma Mia!. Em Fernandópolis, a 560 quilômetros de São Paulo, a aposentada Elza Carniello, de 72 anos, pagou R$ 560 por um pacote que lhe garantia um lugar no ônibus, duas noites de hospedagem no Hotel Blue Tree Towers, nos Jardins, um jantar no Bixiga, um passeio na capital e, mais importante, o ingresso para ver Evita, o famoso musical baseado na história da primeira-dama argentina. No palco, 45 atores entoam o repertório assinado pelos compositores Tim Rice e andrew Lloyd Webber, autores da imortal Don’t Cry for Me, Argentina. “Tão interessante quanto ver a peça é viajar com pessoas que eu conheço”, diz Elza. Assim, os 38 fernandopolenses da excursão encararam oito horas de estrada para dividir a plateia com paulistanos, ituanos, jundiaienses, campineiros…

O fenômeno dos musicais na cidade é o capítulo mais recente de uma história iniciada na primeira metade do século 20, com o teatro de revista. em 1962, a adaptação de My Fair Lady marcou a chegada de um espetáculo da Broadway a São Paulo, mas não deu o impulso que se esperava ao gênero. Salvo exceções como A Chorus Line (1983), que revelou a atriz Claudia Raia, os musicais quase emudeceram nas décadas seguintes. “Havia um preconceito artístico dos atores, que não percebiam a complexidade desse trabalho”, conta a atriz e cantora Kiara Sasso, uma das estrelas de Mamma Mia!, A Bela e a Fera e outras 14 montagens. “Hoje, o sucesso de seriados como Glee e de filmes como High School Musical ajudaram a conquistar o interesse do público e o respeito da classe”, ela diz. A grande virada aconteceria somente em 2001, com os investimentos da produtora Cie Brasil (hoje, Time for Fun) e a reabertura do teatro abril, ex-Paramount. Les Misérables, o espetáculo de estreia dessa parceria, atraiu 350 mil espectadores em apenas 11 meses. Na mesma casa, em 2002, A Bela e a Fera teve US$ 8 milhões de orçamento e foi vista por 600 mil pessoas. Aos poucos, atores e cantores desconhecidos viraram figurinhas carimbadas, caso de saulo vasconcelos, que, na temporada de Cats (2010), permanecia no palco durante o intervalo para atender aos pedidos de fotos dos fãs. Em 2005, saulo interpretou o papel principal de O Fantasma da Ópera, o musical mais visto no país, com quase 900 mil espectadores. De olho nesse filão, as produtoras passaram a comprar em série os direitos de peças Broadway e off-Broadway. o circuito dos blockbusters ganhou o reforço do teatro Bradesco, inaugurado no final de 2009 no shopping Bourbon – hoje, endereço do notável New York, New York, dirigido por José Possi Neto. “Não é todo lugar que comporta efeitos como a queda de um lustre ou uma Mary Poppins voando sobre a plateia”, diz a atriz Kiara, de Mamma Mia!. Para receber as produções mais modernas e atender a demanda, São Paulo teria potencial para ganhar mais uma grande casa. “O Cultura artística, que deve reabrir em 2013, pode ser esse espaço”, diz o produtor e diretor Jorge Takla, em cartaz com Evita.

Como ocorre com os mega shows internacionais, o enorme aparato dos musicais impede que os espetáculos saiam em turnê no país, obrigando seus fãs – estudantes, famílias e, notadamente, público da terceira idade – a vir a São Paulo. Segundo Takla, o percentual de ingressos vendidos para moradores do interior e de outros estados subiu de 3%, em 2001, para até 30% da bilheteria em 2011. “No último feriado, dava para ouvir a mistura de sotaques no teatro”, diz ele. Proprietária de uma agência de turismo cultural em Campinas, Roberta Trondi conta que o principal critério na hora de escolher o musical da viagem é o sucesso que cada peça faz na mídia.

“Com O Fantasma da Ópera, por exemplo, fui 17 vezes a São Paulo”, ela diz. Criado a partir das músicas do grupo sueco Abba, o espetáculo Mamma Mia!, em cartaz no teatro abril, já foi visto por 42 milhões de pessoas no mundo todo desde sua estreia em Londres, em 1999. Integrante de uma excursão com 40 pessoas, a empresária campineira Marta Diniz viajou especialmente para assistir à peça. “Em grupo, até os acidentes de percurso, como um pneu furado, ficam mais interessantes e divertidos”, afirma.

Quem chega de cidades próximas à capital geralmente volta na mesma noite. Quando o município é mais distante, o roteiro se prolonga por todo o fim de semana. Ainda no frisson do espetáculo Evita, o grupo de Fernandópolis deixou o Teatro Alfa direto para as mesas do Villa Tavola, restaurante de comida italiana para multidões, no Bixiga. A poucas quadras dali, as cantinas Mamma Celeste e Roperto também ganharam popularidade no circuito, já que têm as massas e o ambiente ítalo-paulistano tão desejados pelos turistas.

Durante o dia, aos sábados, os grupos costumam ir às compras no formigueiro da 25 de Março e visitar os museus mais emblemáticos da capital: do Futebol, da Língua Portuguesa, Pinacoteca e Masp. No domingo, um dos passeios é o concerto matinal na magnífica sala São Paulo. Na hora de procurar uma excursão, considere a expertise da agência em roteiros culturais e verifique tudo o que o pacote inclui, entre traslados, ingressos, hospedagem, passeios e alimentação. Sem outras preocupações, quando as luzes da plateia se apagam e a ribalta se ilumina, o programa tem tudo para ser um espetáculo. “Em termos artísticos e visuais, do cenário ao figurino, o visitante assiste exatamente ao que veria em Nova York, sem ter de ir até lá”, resume o ator Saulo Vasconcelos.

Evita

Teatro Alfa (Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, 5093-4000, www.evitamusical.com.br; 5ª 21h, 6ª 21h30, sáb 17h e 21h, dom 16h e 20h; ingressos de R$ 40 a R$ 185; 4003-1212, www.ingressorapido.com.br; 130 minutos; em cartaz até o dia 31 de julho)

Um conjunto de projeções de fotos e vídeos ilustram a trajetória da ex-primeira dama da Argentina Eva Perón, da carreira de atriz até a sua morte prematura, aos 33 anos. O elenco traz Paula Capovilla no papel principal e Daniel Boaventura como Perón, além de outros 43 atores e cantores, orquestra com 22 músicos e um total de 350 figurinos.

Mamma Mia!

Teatro Abril (Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 411, Bela Vista, 2846-6060, www.musicalmammamia.com.br; 5ª e 6ª 21h, sáb 17h e 21h, dom 16h e 20h; ingressos de R$ 80 a R$ 250; www.ticketsforfun.com.br; 160 minutos; sem data prevista para o fim da temporada).

Em uma pequena ilha grega, uma jovem prestes a se casar convida para a cerimônia três homens das antigas relações afetivas de sua mãe, com o objetivo de descobrir qual deles é o seu pai. Lançado em Londres em 1999, o musical foi adaptado para o cinema em 2008, com Meryl Streep no papel principal. A peça já foi vista por 42 milhões de pessoas e está sendo apresentada em sete diferentes teatros do mundo. A trama é embalada por 23 músicas do grupo sueco Abba, incluindo o hit Dancing Queen. Em São Paulo, elas ganharam versões em português. Saulo Vasconcelos, Kiara Sasso e Pati Amoroso fazem parte do elenco.

New York, New York

Teatro Bradesco (Rua Turiassu, 2100, Bourbon Shopping, Pompeia, www.teatrobradesco.com.br; 5ª 21h, 6ª 21h30, sáb 17h e 21h, dom 19h; ingressos de R$ 20 a R$ 170; 4003-1212, www.ingressorapido.com.br; 120 minutos; em cartaz até o dia 3 de julho)

Na Nova York das big bands e do pós-Segunda Guerra, nasce o amor entre a cantora Francine Evans (interpretada pela atriz Alessandra Maestrini) e o saxofonista Johnny Boyle (Juan Alba). Inspirada no musical do cinema, dirigido por Martin Scorsese e estrelado por Robert De Niro e Liza Minnelli em 1977, a história baseia-se no livro homônimo do americano Earl Mac Rauch. No elenco, 13 bailarinos e outros 23 atores. Fato raro entre os musicais no Brasil, o repertório foi mantido em inglês, com legendas para o público em português. A direção é de José Possi Neto.

PRÓXIMAS CENAS

Os musicais que deverão atrair paulistanos, interioranos e gente de todo o país

Hair

A história de paz e amor ainda não tem data de estreia confirmada, mas pode chegar à cidade em julho. Os responsáveis pela versão brasileira, hoje em cartaz no Rio, são Claudio Botelho (O Fantasma da Ópera, Les Misérables e Mamma Mia!, entre outros) e seu parceiro Charles Möeller.

As Bruxas de Eastwick

Botelho e Möeller se unem na adaptação do romance do americano John Updike. Na história, três mulheres da pequena cidade de Eastwick são seduzidas por um homem que é a encarnação do mal. Prevista para estrear em agosto no Teatro Bradesco.

Cabaret

Em outubro, a atriz Claudia Raia deve voltar aos palcos do Teatro Procópio Ferreira na pele da protagonista Sally Bowles. A personagem já foi estrelada, em 1989, por Beth Goulart, na primeira montagem no Brasil do musical de Fred Ebb e John Kander. 

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