A felicidade é branca

Aspen, vencedora do Prêmio VT, a altíssima Telluride e Lake Tahoe, com seus cassinos, são os hits de esqui americanos da temporada

Com o Vulcão Puyehue no noticiário, o inverno de 2011 é o inverno a se esquecer para quem  pretendia ir a Bariloche. Mas o ano ainda não acabou, e há muita neve caindo por aí. Nos Estados Unidos, por exemplo. Mesmo com o dólar instável, são esperados até 12 mil brasileiros em Aspen, nosso principal destino de esqui fora da América do Sul.

Aspen está com tudo. No Prêmio VT 2011/2012, sagrou-se campeã na categoria estação de esqui do Hemisfério Norte. Aspen e a vizinha Snowmass formam o maior complexo de esqui americano. São quatro montanhas e mais de 300 pistas. Por isso há ambientes e cenários muito distintos, e as estações proporcionam experiências a todo o arco de esquiadores, do superpro ao prego. As quatro montanhas não são interligadas, mas basta um único passe. Cada uma das montanhas tem, pode-se dizer, personalidade própria. Buttermilk, por exemplo, a menor e com fama de fácil, é, na verdade, palco do Winter X Games, jogos promovidos pelo canal ESPN. Ali está um dos mais completos snowparks americanos, com obstáculos que provocam peregrinações de snowboarders.

Aspen Mountain também tem certa aura mística por ter sido um dos primeiros centros de esqui para experts nos EUA. As pistas são aplainadas constantemente e seguem muito íngremes, quase se debruçando na cidade lá embaixo. A montanha merece até um apelido, “Ajax”, como se fosse uma velha conhecida. Já Aspen Highlands é a mais rústica das irmãs, alta, sem badalação, e, para os esquiadores, linda como uma Gisele Bündchen que nunca saiu do interior. Não espere encontrar ali lojas Gucci nas ruas ou novatas na neve vestidas com roupa de esqui Prada. As pistas, nunca muvucadas, têm ainda mirantes que dão vista a picos extremamente fotogênicos, áreas de nível extremo (que dizer de um lugar conhecido como “Temeridade”?). Há locais que exigem dos esquiadores extrema competência – são as pistas double black Diamond. Acima disso, como se diz no esqui, só o cemitério. Vi um grupo de paulistas exultantes voltar de uma dessas. Estavam comigo no Cloud Nine, o melhor e mais charmoso restaurante de pista dos Estados Unidos, instalado num pequeno bangalô de madeira onde antes ficava o QG dos socorristas. Mas não se engane com a simplicidade do lugar no meio da neve: as reservas devem ser feitas com dias de antecedência. A comida tipicamente alpina (raclettes ou ossubuco de alce, por exemplo) é assinada pelo chef austríaco Andreas Fischbacker.

Suficientemente distante do agito urbano da cidade de Aspen, Snowmass tem ares de um resort familiar fechado, apesar de contar com o segundo maior terreno do país depois de Vail. Seu maior trunfo são as longas pistas para esquiadores intermediários, largas o suficiente para todos poderem deslizar com velocidade e segurança pela superfície alisada de maneira quase maníaca por tratores. No coração dessa mãezona branca tem lugar para todos: os iniciantes vão encontrar as mesmas facilidades, em ângulos bem mais suaves.

Nas gôndolas, teleféricos e pistas o português é uma das línguas correntes, num toque meio Valle Nevado de ser. Vi famílias completas, às vezes com babás com roupas de esqui inteiramente brancas! A escolinha de esqui infantil Tree House é supermoderna: as crianças piram escalando a árvore artificial indoor e os percursos pela neve com túneis divertidos e miniobstáculos. A maior parte dos fequentadores prefere ficar em apartamentos do tipo “condo” ou chalés com vários quartos e cozinha equipada, ideais para rachar com um grupo de amigos. A estação inaugurou recentemente um grande empreendimento com apartamentos mobiliados em Snowmass Village, com ligação via gôndola para o pequeno shopping da parte de cima, mais antiga. Logo depois de anoitecer, os poucos bares vão perdendo o ritmo e antes das dez badaladas já está todo mundo vendo TV ao pé da lareira. Dormir cedo é boa receita para no dia seguinte partir para as pistas ainda não exploradas.

No Prêmio VT, Aspen também se destacou pela hotelaria e vida noturna. O lugar tem restaurantes sofisticados, adegas com vinhos raros e hotéis de charme. O traçado metropolitano com quadras e ruas simétricas não mudou muito desde o apogeu dessa grande dama nos idos de 1890, assim como os prédios de tijolinho e o luxuoso teatro onde óperas eram montadas. A decadência econômica que se seguiu quase a tornou uma cidade fantasma, mas ajudou a preservar o DNA da arquitetura vitoriana em casas que foram sendo ocupadas mais tarde por grifes de luxo e galerias de arte caríssimas. Lojas e bares ficam abertos até tarde e as ruas estão sempre cheias de gente com sacolas nas mãos. Há dezenas de restaurantes interessantes, como o Cache Cache e o Ajax Tavern.

Sim, as celebridades também adoram Aspen. Hospede-se no luxuoso The St. Regis ou no repaginado Little Nell e serão boas as chances de topar com a atriz americana Kate Hudson e a modelo alemã Heidi Klum e seu marido, o cantor Seal, no elevador; as chances de fazer sauna em companhia do cantor de Crazy ou do ator Jack Nicholson não são desprezíveis. Outro favorito dos vips é o venerando Hotel Jerome, o mais antigo de Aspen. Vale ao menos entrar para conhecer a decoração austera do imenso longe e pedir um drinque no bar. É um ambiente bastante mais aconselhável para estar ao lado de Jack Nicholson.

Telluride, Aspen das antigas

Se a badalação e a infra de Aspen não dizem muito a você, vale olhar o canto esquerdo do mapa do Colorado, onde fica Telluride. A estação ainda consegue manter algo da atmosfera de autêntica cidade histórica, fundada por mineiros, tal como Aspen antes da chegada das grifes de moda. No fim de um vale estreito no alto das San Juan Mountains, perto da divisa com o Novo México, Telluride fica tão isolada que até hoje são necessárias duas horas para chegar ali do aeroporto de Montrose. O lugar foi adotado por montanhistas, extreme skiers e hippies nos anos 1970. Agora Telluride tem um quê de San Francisco: os moradores até hoje impedem que qualquer tipo de fast-food ou cadeia de lojas obtenham licença de funcionamento. O visual, com alguma boa vontade, tem um quê de cenário de cidade de faroeste. Coincidentemente, foi ali, em 1889, que Butch Cassidy praticou seu primeiro roubo a banco. Butch, você sabe, é o bandido-herói retratado por Paul Newman no filme Butch Cassidy e Sundance Kid.

A aura cool, a neve excelente, a beleza e o terreno privilegiados foram atraindo nos últimos anos milionários e megaastros, como Tom Cruise, para quem a localização remota do resort é uma bênção. Existem excelentes hotéis e bares na cidadezinha; porém, os mais sofisticados estão na moderna Mountain Village, construída no meio da montanha e rente às pistas. Dá para descer até a cidade esquiando, mas a principal ligação entre as duas é feita por gôndolas para passageiros, um passeio que ganha um charme ainda mais especial à noite. 

A Village, com novos hotéis-butique, como o Lumière e o The Peaks Resort and Spa, calçadas aquecidas e mais lojas de roupas, lembra muito Beaver Creek (outra estação do Colorado) até no rinque de patinação no gelo ao ar livre e no clima mais consumista. Todos os hotéis estão bem perto dos meios de elevação e as filas são raras. E, embora tenha fama de estação para experts, existem muitas pistas azuis para intermediários em todos os setores da montanha.

Com os esquis nos pés, o panorama que surge a cada curva não tem igual no Colorado. Picos gigantes de mais de 4 mil metros, como o Palmyra e o Diamond, parecem dramaticamente ainda mais próximos. É um dos lugares mais bonitos em que já esquiei. A altitude de Telluride também amplia o efeito das taças de vinho tomadas no almoço do Alpino Vino, o restaurante mais alto dos Estados Unidos, a 3.647 metros, que fica em uma casinha de madeira à beira da pista. Ali vale seguir o costume europeu: finque os esquis na neve e saboreie a boa comida sem pressa. Não convém se empolgar e exagerar no vinho, já que, para descer dali, só pelas longas pistas para intermediários. Não existe táxi!

A neve da Califórnia

De baixo, o lago parecia apenas um espelho-d’agua a perder de vista, sem cor ou movimento e sem se conseguir enxergar muito além da primeira elevação por onde sobe a nova gôndola para esquiadores e passageiros. Nem existe uma cidade propriamente dita e sim uma longa estrada sem graça pontilhada por lojas e bares. Para entender a razão de o nome da principal estação de Lake Tahoe ser Heavenly (“Celestial”), é preciso realmente subir aos céus. Conforme a gôndola vai ganhando altura e a movimentada estrada desaparece de vista, a beleza do Lake Tahoe, em seus 1900 metros de altitude, com tons de turquesa e azul-cobalto, vai se revelando cada vez mais arrebatadora em contraste com a paisagem branca ao redor. As exclamações de admiração dos passageiros são quase incontroláveis na primeira subida. E o melhor ainda está por vir.

Heavenly é a maior estação da Califórnia e a mais importante entre as mais de dez ao redor desse grande lago ao pé das montanhas Sierra e ao lado da imensidão plana do deserto de Nevada. Lake Tahoe é um nome bastante conhecido no Brasil entre surfistas e snowboarders que vão passar temporadas na Califórnia e isso dá a falsa ideia de que o lugar tem apenas um único centro de esqui. Mas, além de Heavenly, há Northstar at Tahoe, de perfil mais elitista, e Kirkwood, com ótimos fora-de-pista, neve abundante e seca.

Se há uma lenda que paira sobre as estações dali, é que a neve da região tem o irritante costume de endurecer rapidamente, o que deu origem ao apelido de Sierra Cement. Na véspera da minha chegada havia caído uma grande tempestade. Lá vem cimento, pensei. Na manhã seguinte, surpresa: abriu um céu azul digno de Bluebird Day, a bonança mais desejada pelos esquiadores depois de uma tormenta. E a tormenta daquele dia despejou metros de uma neve fina. Se já era bonita da gôndola, a vista na perspectiva da pista de Heavenly tornou-se celestial. Ver as árvores branquinhas em cada lado e o lago multiazulado no horizonte durante a descida é coisa de outro mundo. E ainda tem bônus tracks: Heavenly tem uma parte na Califórnia e outra em Nevada. Além da brincadeira de cruzar uma divisa estadual em esquis, o outro lado da montanha tem uma paisagem muito diferente, nada de água à vista, só a imensidão árida do deserto. A animação noturna naquelas bandas fica por conta dos cassinos, obviamente permitidos – Nevada é o estado, afinal, onde fica Las Vegas; na porção californiana o point é a microcervejaria Brewery at Lake Tahoe, com dezenas de especialidades servidas sobre tonéis de aço inox.

Estados Unidos (DDI +1)

Aspen

FICAR 

Com visual de conto de fadas, o The St. Regis (315 East Dean Street, 970/920-3300, www.stregisaspen.com; diárias desde US$ 775; Cc: A, D, M, V) tem spa e serviço de mordomo. Reformado, o The Little Nell (685 East Durant, 970/920-4600, www.thelittlenell.com; diárias desde US$ 860; Cc: A, M, V) está pertinho da gôndola que leva à montanha. O Jerome (330 East Main Street, http://hoteljerome.aubergeresorts.com; diárias desde US$ 299; Cc: A, D, M, V) é instituição local. Bom custo/benefício, o Limelight (355 Monarch Street, www.limelightlodge.com; diárias desde US$ 140; Cc: todos) tem quartos com wi-fi, après-ski com queijos e vinhos e jacuzzi ao ar livre. Opções em Snowmass são o Wildwood Lodge (40 Elbert Lane, www.wildwood-lodge.com; diárias desde US$ 279; Cc: A, D, M, V) e o Mountain Chalet (115 Daly Lane, www.mountainchalet.com, diárias desde US$ 303; Cc: A, D, M, V).

COMER

Reserve para o francês Cache Cache (205 South Mill Steet, 970/925-3835, www.cachecache.com; Cc: A, D, M, V) ou o italiano Campo de Fiori (205 South Mill Steet, 970-920-7717, www.campodefiori.net; Cc: A, D, M, V). O Ajax Tavern (685 East Durant, www.thelittlenell.com; Cc: A, D, M, V) é lugar para ver e ser visto. Um diner bem à americana, anos 1950, é o Boogie’s Diner (534 East Cooper; Cc: A, D, M, V), que serve hambúrgueres gourmet e milk-shakes do delírio. O Cloud Nine (970/544-3063), em Aspen Highlands, é o mais bacana restaurante de pista do Colorado.

Telluride

FICAR

Pioneiro, o The Peaks (136 Country Club Drive, www.thepeaksresort.com; diárias desde US$ 229; Cc: A, D, M, V) teve os quartos remodelados. Tem grande spa, academia de ginástica e piscina. O Lumière (118 Lost Creek Lane, www.lumieretelluride.com; diárias desde US$ 325; Cc: A, M, V) é dos melhores hotéis de esqui do país.

COMER

O La Cocina de Luz (123 East Colorado, www.lacocinatelluride.com; Cc: A, D, M, V) é um inusitado mexicano orgânico. O Allred’s (Gondola Station Saint Sophia, allredsrestaurant.com; Cc: A, D, M, V) tem carnes de caça e um salão com vista das San Juan Mountains.

Lake Tahoe

FICAR

O Marriott’s Timber Lodge (4100 Lake Tahoe Boulevard, 530/542-6600, www.marriott.com; diárias desde US$ 112, Cc: A, D, M, V) está ao lado da gôndola. O Inn by the Lake (3300 Lake Tahoe Boulevard, 530/542-0330, www.innbythelake.com; diárias desde US$ 91; Cc: A, D, M, V) é um hotel-butique no centro da cidade.

COMER

Generoso bufê serve o Lakeside Inn and Casino (Highway 50 Stateline, www.lakesideinn.com; Cc: A, D, M, V). O The Brewery at Lake Tahoe (3542 Lake Tahoe Boulevard, www.brewerylaketahoe.com; Cc: A, D, M, V) tem cervejas caseiras.

QUEM LEVA

A Interpoint (11/3087-9400, www.interpoint.com.br) tem sete noites no The St. Regis, em Aspen, e passes para os meios de elevação desde US$ 5638. Para Telluride, a Ski Brasil (11/2196-9399, www.skibrasil.com.br) tem sete noites no Lumière e passes desde US$ 4040. A Snowtime (11/3088-3700, www.snowtime.com.br) leva a Lake Tahoe com sete noites no The Ridge Tahoe e passes desde US$ 2880. A NS Tour (11/3061-2800, www.skinet.com.br) tem sete noites no Inn by the Lake, em Lake Tahoe, e seis passes desde US$ 842 (sem aéreo). A Landscape (11/3124-3366, www.landscape.com.br) tem sete noites em Lake Tahoe e seis passes desde US$ 3057. A Monreal (11/3755-0500, www.snow.com.br) tem sete noites no Fairmont Heritage, em Telluride, desde US$ 2025. A Maktour (11/3818-2222, www.maktour.com.br) tem sete noites em Aspen desde US$ 3420.

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