50 anos do GUIA QUATRO RODAS: veja todas as capas do GUIA BRASIL

A história do turismo e da gastronomia no Brasil não pode ser contada sem o GUIA QUATRO RODAS. Em meio século, o país e a publicação mudaram muito

Por Mirela Mazzola Atualizado em 16 dez 2016, 07h51 - Publicado em 28 abr 2014, 18h04

“O Brasil é o país ideal para ser descoberto.” Assim estava escrito na primeira edição do então GUIA QUATRO RODAS DO BRASIL, concebida pelo fundador da Editora Abril, Victor Civita, e publicada em 1965. Naquela época, a frase deve ter soado vanguardista para alguns leitores – e como pura conversa de sonhador para outros.Há meio século, o Brasil pouco tinha de “ideal” para quem quisesse desbravá-lo. Dos mais de 800 000 quilômetros de estradas existentes, apenas 26 000 eram pavimentados (hoje, segundo o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, são 202 000 asfaltados, de um total de cerca de 1,7 milhão de quilômetros de vias). Havia um veículo para cada 45 brasileiros – no fim de 2013, de acordo com o Departamento Nacional de Trânsito, a proporção superava um carro para cada três pessoas.Victor Civita vislumbrava tal crescimento, e soube esperar por ele pacientemente. Na Carta do Editor do GUIA BRASIL 1985, ele admitiu que, naquele primeiro momento, no fim dos anos 1960, as vendas não tinham ido bem – mas, mesmo assim, ele havia mantido sua fé no poder daquele produto pioneiro, que acabaria se tornando um sucesso.Como o nome dá a entender, os primórdios do GUIA têm relação com a revista QUATRO RODAS, lançada em 1960. No primeiro número, ela trazia uma reportagem turística ilustrada sobre a Via Dutra, que liga São Paulo ao Rio de Janeiro. Quem fez a apuração, verificando cada parada da rodovia a bordo de uma Kombi, foi um trio de jovens jornalistas: Roberto Civita (futuro presidente da Abril, então com 23 anos), Mino Carta e Victor Gouveia. Diante da boa repercussão, mapas como esse passaram a ser publicados todo mês. Estava aberto o caminho para o surgimento do GUIA BRASIL.O trabalho de reportagem começou em 1964, e envolveu mais de 30 pessoas, que percorreram 40 000 quilômetros pelo país de avião, carro, ônibus e trem – mas também de canoa, balsa e jangada. Várias capitais, como Recife e João Pessoa, ficavam quase isoladas, com asfalto apenas até as cidades vizinhas (a viagem de Aracaju a Maceió, por exemplo, levava um dia). Belém e Cuiabá sequer eram cobertas pela malha rodoviária, e lugares hoje famosos, como Porto de Galinhas e Trancoso, não passavam de paraísos perdidos.Em 3 de setembro de 1965 – com data de capa de 1966, como se tornaria o costume nos anos seguintes – o sonho de Victor Civita se concretizou: um anuário brasileiro que classificava hotéis, restaurantes e atrações turísticas, com fórmula inspirada no guia francês Michelin, referência mundial no assunto. A marca do fundador da Abril estava logo na capa: ele mesmo criou a ilustração, com o mapa do país cortado por uma estrada que se bifurca (veja todas as capas na galeria de fotos acima).A estrela dada aos restaurantes, que se mantém até hoje, também foi desenhada por ele – naquela época o símbolo era apenas uma “recomendação”, e não pretendia comparar estabelecimentos de níveis diferentes. Desde o início, valiam as duas regras básicas que balizam a apuração até hoje: pagar todas as despesas e testar estabelecimentos anonimamente.NOVOS DESTINOSNum país tão pouco explorado, havia muito a descobrir. Na segunda edição estreou Caldas Novas (GO), onde ficava a recém-inaugurada Pousada do Rio Quente. Ela daria origem a Rio Quente Resorts, um complexo hoteleiro e de lazer, que hoje atrai multidões ao município de Rio Quente – emancipado de Caldas Novas em 1988. “O GUIA QUATRO RODAS é uma importante ferramenta de tomada de decisão, não só quanto a hotéis e restaurantes, mas também quanto ao conhecimento do destino”, diz Fernanda Brunetta, gerente de experiência e marketing do Grupo Rio Quente.Outro lugarejo que surgiu no GUIA BRASIL 1967 foi Visconde de Mauá (RJ). “Hoje Mauá é reconhecida pela boa cozinha muito em virtude do GUIA, que tem importância vital para o turismo fora dos grandes centros”, afirma a chef Mônica Rangel, proprietária do restaurante estrelado Gosto com Gosto e fundadora da Associação Brasil à Mesa.Novas localidades com potencial turístico seguiram estreando no GUIA (entre as mais recentes está Icaraí de Amontada, a 189 quilômetros de Fortaleza, que entrou na publicação de 2011). E devem surgir novos destinos por aí. Segundo o Relatório de Competitividade do Setor de Viagens e Turismo, publicado em 2013 no Fórum Econômico Mundial, o Brasil ostenta o primeiro lugar no quesito recursos naturais e o 23º quando se trata de riqueza cultural, entre 140 nações. No geral, no entanto, acabamos na 51ª posição, devido ao mau desempenho em competitividade de preços (126º) e em infraestrutura de transportes (129º). “O turismo nacional teve um boom nos últimos 15 anos, mas ainda há muito o que fazer”, diz Guilherme Paulus, fundador da operadora CVC e da rede de hotéis GJP.NÃO DURMA SEM ELEEntre as missões cruciais do GUIA está a avaliação dos hotéis. As “casinhas” usadas pela publicação servem de orientação para o mercado hoteleiro do Brasil (o sistema oficial de classificação por estrelas, implantado pelo governo em 2011, avaliou menos de 100 hotéis – contra os mais de 4 mil presentes nesta edição). “Os cursos de turismo e hotelaria fazem uso constante do GUIA, a única fonte de dados consolidada na classificação de hotéis”, diz Elizabeth Wada, coordenadora do Mestrado em Hospitalidade da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo.“O profissionalismo da apuração do GUIA lhe confere credibilidade e faz dele uma referência nacional”, diz Roberto Rotter, presidente do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB). A entidade representa 26 redes, que têm cerca de 600 hotéis.Dona de bandeiras como Sofitel, Mercure e ibis, a gigante francesa Accor tem no Brasil sua terceira maior operação (199 hotéis em 80 cidades). De acordo com Roland de Bonadona, CEO para Américas e Caribe, a classificação do GUIA tem importância estratégica: “A avaliação é analisada em todas as bandeiras da rede. O parecer da publicação é fortemente levado em conta quando se discutem mudanças nas unidades”, diz.Com 71 anos, a tradicional rede brasileira Othon, com 20 hotéis em cinco estados, também usa as informações do GUIA. “Ter um balizador para o setor é muito importante, e faz com que os hóspedes tenham informações claras e confiáveis”, afirma Tomas Ramos, diretor comercial.São empreendimentos independentes, no entanto, que formam a maioria das hospedagens do país. Muitos são hotéis tradicionais, de administração familiar. Outros são pousadas abertas por gente que sonhava sair dos grandes centros. É o caso de Gaspar Viana, dono da Pousada Fazenda das Videiras e do restaurante estrelado homônimo, em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro. “Quando me aposentei do setor de telecomunicações e decidi criar o negócio, tinha como meta fazer parte do GUIA, indispensável em todas as minhas viagens”, conta. Em 2000, um ano após a inauguração, a Fazenda das Videiras estreava na publicação.Na também serrana Campos do Jordão (SP) fica o Toriba, aberto em 1943, uma das poucas hospedagens que aparecem em todas as edições do GUIA BRASIL. “A cada ano a avaliação fica mais apurada e enriquecida de detalhes – e continua imparcial”, afirma Alberto Lenz Cesar, diretor do Toriba, que até hoje pertence à mesma família.DESCOBERTAS À MESANo fim dos anos 70, o francês Claude Troisgros, hoje dono do duas-estrelas Olympe e de mais três restaurantes no Rio, desembarcou no Brasil e encontrou muita dificuldade para adquirir (ou importar) as matérias-primas que costumava usar na Europa. O jeito foi recorrer a quiabo, maxixe e batata-baroa – o uso criativo de ingredientes brasileiros se tornou sua marca. “O brasileiro começou a dar valor aos bons produtos locais, e o GUIA QUATRO RODAS ajudou nesse processo”, diz Troisgros.Mesmo tendo recebido o reconhecimento de outras publicações importantes, ele ainda se lembra com carinho da primeira vez que viu seu restaurante, o então Claude Troisgros, ser incluído na publicação. “Meu começo foi difícil. Mas ser premiado pelo GUIA, além de me motivar, mostrou que eu estava no caminho certo”, diz.Laurent Suaudeau, também francês, viveu um momento parecido, recém-chegado ao Brasil nos anos 80. “Houve alguma resistência da clientela ao deparar com ingredientes antes relegados à mesa caseira”, diz. Dono de uma escola de culinária que leva seu nome, Suaudeau foi premiado com três estrelas em 14 edições do GUIA, quando estava à frente do restaurante paulistano Laurent (que, há 25 anos, listava no cardápio uma inventiva panqueca de brócolis ao curry e castanha de caju).A mistura de influências culinárias, aliada ao uso das matérias-primas nacionais, fez com que a gastronomia brasileira passasse a atrair olhares de todo o mundo. Em 2003, o GUIA incluiu a cozinha contemporânea entre as categorias em que classifica restaurantes. E, desde então, é nas casas que seguem essa linha que têm surgido grandes expoentes da cozinha nacional, como Alex Atala, chef e proprietário do três-estrelas D.O.M., em São Paulo. “Jogar luz em pontos esquecidos do país talvez seja a maior colaboração do GUIA para a gastronomia brasileira”, diz ele, que, em 2006, foi eleito Chef do Ano.Dono de empreendimentos de luxo em grandes capitais, o empresário Rogério Fasano também destaca o papel do GUIA na descoberta de restaurantes em cidades distantes. “A classificação por meio de estrelas reconhece cozinhas de qualidade até em lugares de difícil acesso, sem dizer se são melhores ou piores que a de restaurantes famosos”, afirma.Para Marcelo Fernandes, sócio dos restaurantes paulistanos duas-estrelas Kinoshita e Attimo, usar a publicação para escolher onde comer é algo que vem de família. “Desde a infância meu pai planejava nossas viagens com um GUIA QUATRO RODAS, que até hoje me dá a oportunidade de conhecer novos lugares.” A vocação de revelar boas casas e chefs promissores encontra um bom exemplo em Thiago Castanho, dos estrelados Remanso do Peixe e Remanso do Bosque, em Belém. “O GUIA abre portas para estabelecimentos que, sem ele, talvez ninguém conhecesse”, diz Castanho, Chef Revelação do GUIA BRASIL 2011.A vocação belenense para a gastronomia, hoje muito famosa, já havia sido reconhecida pelo GUIA em 1986. Foi quando premiou com uma estrela o talento do chef do Lá em Casa, Paulo Martins, que se tornaria uma referência em todo o país (após a sua morte, em 2010, sua filha Daniela segue à frente do estabelecimento).Mas a constelação de restaurantes estrelados não inclui apenas chefs inovadores. Em várias partes do Brasil, há casas tradicionais que ostentam paredes cobertas com as placas de estrela – que, desde 1986, são distribuídas no formato atual, de uma a três. Um bom exemplo fica em Teresópolis, na região serrana do Rio de Janeiro. Inaugurado em 1964, o Dona Irene oferece um banquete russo, pontuado por goles de vodca artesanal e conversas com o proprietário, José Hisbello, de 85 anos. “O GUIA faz parte da nossa trajetória porque trouxe reconhecimento ao Dona Irene. Antes da primeira visita, apenas as comunidades russa e judaica frequentavam o restaurante”, conta. Duas-estrelas desde 1987, ainda serve as mesmas receitas, inspiradas na tradição da aristocracia russa pré-Revolução de 1917.Beth Beltrão, chef e proprietária do estrelado Virada’s do Largo, em Tiradentes (MG), também é grata pelos clientes que chegaram seguindo os passos dos repórteres da publicação. “Há uma saudável divulgação boca a boca entre os leitores do GUIA, que foi responsável por trazer gerações de turistas para a cidade”, afirma.PASSEAR É PRECISOAssim como outros setores da economia, o turismo assistiu a mudanças fundamentais nesses últimos 50 anos. Hoje, viajar de avião e adquirir pacotes não são mais privilégios das classes A e B – entre 2005 e 2013, de acordo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), as empresas aéreas ganharam 51 milhões de passageiros domésticos. Mas a conservação do patrimônio cultural e natural persiste como um desafio a ser vencido.Em 1982, por exemplo, o Brasil perdeu uma atração três-estrelas (então a classificação máxima): o Salto de Sete Quedas, a maior cachoeira do mundo em volume de água, foi engolido pelas águas que movimentariam a Usina de Itaipu, no Paraná. Na edição de 1988, que citava a comemoração dos 50 anos do primeiro parque nacional do Brasil, em Itatiaia (RJ), a Carta do Editor chamava a atenção para a devastação das florestas, acompanhada bem de perto pelos repórteres do GUIA.Opor-se ao turismo predatório, ao divulgar as atrações do país, também figura entre as missões prioritárias do GUIA. Afinal, antes dos hotéis e dos restaurantes, elas são os principais chamarizes de um destino – quando não são o próprio destino. É o caso do Instituto Inhotim, o maior centro de arte contemporânea a céu aberto do mundo, em Brumadinho (MG), a 57 quilômetros de Belo Horizonte, aberto para visitação em 2006. No GUIA BRASIL 2011, Inhotim foi reconhecido como Atração do Ano, e recebe a atual classificação máxima, de cinco estrelas, desde então. “Devemos muito à atuação do GUIA nos primeiros anos de Inhotim, pois a dificuldade de acesso e o desconhecimento do grande público dificultavam a chegada de visitantes”, diz Antonio Grassi, diretor executivo do instituto.Ficar atento aos outros veículos de comunicação e às redes sociais, em busca de novidades hoteleiras, gastronômicas, culturais e de lazer, é uma das atribuições dos profissionais do GUIA. Mas poucas coisas causam tanta satisfação a um repórter quanto uma boa descoberta original, feita in loco. É o caso do Museu Casa da Xilogravura, em Campos do Jordão (SP). À primeira vista, pode parecer intrigante que esse destino serrano, conhecido por reunir a elite paulista em restaurantes caros e hotéis chiques, abrigue um local dedicado a esse gênero artístico – que, no Brasil, está intimamente ligado à cultura popular. Antonio Costella, criador do museu e um dos maiores especialistas brasileiros em xilogravura, conta que, desde a inauguração, em 1987, o GUIA é a publicação que mais leva turistas até lá. “Valorizar e prestigiar museus, colocando-os entre as boas atrações turísticas, é uma tarefa fundamental”, diz.Para um membro da equipe do GUIA QUATRO RODAS, essa é a maior recompensa: chegar primeiro e ajudar o viajante a fazer as melhores escolhas, principalmente quando elas, à primeira vista, não são óbvias. Talvez a mais perfeita tradução para esse sentimento seja a frase que passou a estampar a capa do GUIA BRASIL a partir da edição 2002: “A gente vai antes para você ir melhor”. Mais do que um slogan, é uma missão. E, graças a esse trabalho de 50 anos, hoje ninguém mais tem dúvidas: o Brasil é o país ideal para ser descoberto.

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