Estilo de viagem

Manual do Couchsurfing

Com 400 mil anfitriões, o site Couchsurfing possibilita acomodação grátis sob medida para estes tempos bicudos. Só é preciso reduzir as expectativas

Se as consequências da degradação política nacional nos forçaram a ser mais econômicos até no supermercado, não seria diferente com as viagens. Em maio de 2016, durante a escalada da crise, uma pesquisa da consultoria Ipsos revelava que 66% dos entrevistados pensavam em diminuir os gastos com turismo, mas 64% não abriam mão de viajar.

Como resolver essa equação para quem já viaja no limite, com dinheiro contado, dormindo em hostels? Pois na hierarquia das acomodações baratas há uma modalidade ainda mais austera que os albergues, o Couchsurfing, uma comunidade online de pessoas que abrem voluntariamente suas casas e cedem o sofá, de graça, aos visitantes.

Em operação desde 2004, o serviço criado nos Estados Unidos já conta com 14 milhões de membros – 400 mil deles, anfitriões ativos -, espalhados por 200 mil cidades do mundo todo. A experiência de quem “surfa em sofás” alheios, no entanto, é bem diferente daquela de quem aluga um quarto via Airbnb ou se hospeda em uma pousada.

Há, por exemplo, inconvenientes para os quais o viajante precisa estar preparado e regrinhas de etiqueta que, mesmo não declaradas, devem ser respeitadas por educação. A seguir, saiba como é se hospedar de graça na casa de um desconhecido.

Hóspede, pero no mucho

Couchsurfing não é coisa de molecada? Há um conforto mínimo? Vale a economia? Veja 23 questões para considerar antes de se aventurar num sofá estranho

O que é e como surgiu o Couchsurfing?

É uma comunidade de viajantes que, de um lado, está à procura de lugar para ficar sem pagar nada, e, do outro, topa ceder o sofá aos visitantes. Foi fundada pelo programador americano Casey Fenton, que teve a ideia em 1999.

Ele havia comprado uma passagem para a Islândia, mas não tinha hospedagem. Então, hackeou o site da universidade local e perguntou a 1 500 alunos, por e-mail, se alguém poderia hospedá-lo – foram quase 100 respostas positivas. O site surgiu cinco anos depois com a ajuda de três parceiros, entre eles o brasileiro Leonardo Bassani da Silveira, diretor criativo do CS até 2011.

Não é pra molecada?

Não necessariamente. Seja qual for a sua idade, é para gente flexível, capaz de lidar com situações e pessoas diferentes e com uma possível falta de conforto.

Preciso pagar para entrar? Que dados vou fornecer?

O acesso ao site e o cadastro são grátis. Na criação do perfil, além de fornecer sua idade e profissão, você responde a questões como quais línguas fala, por que entrou no CS, seus interesses e o que compartilharia com os anfitriões ou hóspedes. O usuário diz ainda se topa receber couchsurfers em casa.

Eu também sou obrigado a hospedar?

Não, mas os membros podem se motivar mais a ceder o sofá a quem também abre a sua casa.

Por que os anfitriões aceitam abrir a casa para estranhos?

A maioria porque também procura acomodação para as suas viagens, ou seja, está retribuindo a hospitalidade que lhe é proporcionada. Há também quem queira praticar outro idioma, conhecer culturas diferentes ou apenas ter companhia.

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(Veridiana Scarpelli/Viagem e Turismo)

Como faço para encontrar um anfitrião?

Há duas maneiras. A primeira é criar uma “viagem pública”, que ficará anexada ao seu perfil e ao painel da cidade de destino. Indique as datas de chegada e saída, o número de pessoas que viajam e escreva um textinho de apresentação. Os anfitriões da cidade têm acesso a esse painel para se voluntariar a receber o viajante.

A segunda forma é enviar solicitações individuais aos anfitriões. Digite o destino no campo de busca e conheça os hosts disponíveis. As informações exigidas são as mesmas da viagem pública, mas um formato de procura não impede o outro – utilize os dois simultaneamente.

Como conseguir um anfitrião mais facilmente?

Viajantes individuais ou em dupla que se hospedam por períodos curtos, de até três dias, têm mais chance. Outra dica é caprichar na apresentação: descubra os interesses em comum com o anfitrião no perfil dele e personalize o texto. Aproveite para propor uma retribuição pela gentileza, como ensinar palavras em português, cozinhar um prato típico ou preparar uma caipirinha.

Posso mandar infinitas solicitações?

Você consegue criar quantas viagens públicas quiser, mas só poderá enviar dez solicitações individuais por semana – para ter um número ilimitado, é preciso se tornar um “membro verificado” do site, cuja adesão pede dados bancários e custa US$60.

Se um anfitrião se voluntariar para me hospedar, sou obrigado a ficar na casa dele?

Não, é sempre o hóspede que faz a confirmação final da estadia.

Se eu rejeitar um anfitrião ou cancelar a hospedagem, serei penalizado?

Não, você pode cancelar a estadia quando quiser.

Como saber se o meu anfitrião não vai me deixar na mão?

Os perfis autenticados pelos dados bancários levam um check verde e a frase “Perfil autenticado”. Mas a melhor maneira de saber mais sobre o futuro anfitrião (autenticado ou não) é olhar as avaliações dos couchsurfers que se hospedaram ali: no perfil, clique no ícone Referências.

Como identifico segundas intenções?

Olhe as avaliações de quem se hospedou com o anfitrião e o perfil de quem ele acolhe: se o host só abriga moças, pode haver outras intenções. Mas preste atenção mesmo é nas referências negativas (como um anfitrião que cancelou a estada ao saber que a viajante tinha namorado).

E para saber se me darei bem com o anfitrião?

Além das referências, que passam uma ideia, olhe o perfil dele no CS, um resumo do que ele curte na vida e conhece do mundo. Outra dica é trocar mensagens antes, pedindo dicas de passeios e perguntando sobre a relação do host com a cidade. Mas uma parte dessa relação depende de você: sem cabeça aberta ou jogo de cintura para lidar com diferenças, a sintonia não rola.

E se eu não gostar da casa, Se for suja…?

Você pode procurar outro sofá ou se render a um hotel.

É realmente de graça?

Sim, mas a única coisa que o anfitrião se compromete a ceder é o sofá (e, extraoficialmente, o banheiro). Leve toalha e até seu papel higiênico. E mais: é de bom-tom retribuir a estadia com uma caixa de bombom ou um convite para tomar uma cerveja na esquina.

Tenho que chamar o anfitrião para os passeios?

Só se você quiser. Porém, como a base do Couchsurfing é a troca de experiências, reserve um tempo para conversar e saber mais sobre ele e a cidade.

Posso pegar algo na geladeira?

Apenas se o anfitrião oferecer. Tenha a sua comida e pergunte só se pode usar a cozinha e a geladeira.

Posso ligar a TV?

Apenas se o anfitrião oferecer. Na dúvida do que pode e não pode, coloque-se no lugar de quem está visitando a casa de um desconhecido pela primeira vez.

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(Veridiana Scarpelli/Viagem e Turismo)

Posso deixar meus itens de higiene pessoal no banheiro?

O ideal é não espalhar seus pertences (chinelo e tênis inclusos) pela casa para não atrapalhar a rotina do anfitrião.

Qual é a grosseria mais comum dos couchsurfers?

Comportar-se como se estivesse num hostel: deixar as malas, pegar as chaves e não aparecer. O anfitrião abriu a casa sem pedir nada em troca, seja ao menos gentil para falar de você, perguntar dele, pedir dicas, contar como foi o dia e compartilhar momentos.

Eu sou obrigado a postar uma referência do anfitrião?

Não, mas escrevê-la ajuda futuros couchsurfers na escolha.

Eu posso deletar uma referência?

Não. Tanto os comentários que você deixa quanto os que recebe ficam expostos pra sempre em seu perfil e no do anfitrião.

Afinal, vale a economia?

Vale se couchsurfer e anfitrião se derem minimamente bem e se respeitarem mutuamente. Se não, compensa mais procurar um hostel ou hotel.

Combina com você?

É para… 

Jovens

Solteiros

Casais

Mochileiros

Hóspedes de albergue

Desencanados

Extrovertidos

Fluentes em inglês

Viajantes experimentais

Viajantes imersivos

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(Veridiana Scarpelli/Viagem e Turismo)

Não é para… 

Quem preza conforto

Famílias

Bon-vivants

Hóspedes de hotel ou resort

Metódicos

Tímidos

Introvertidos

Pessoas com TOC de limpeza

Fóbicos de pessoas

Alérgicos

 

Top 10 do sofá

Países com maior número de couchsurfers no mundo

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(Melissa Hueck/Viagem e Turismo)

Prós & contras

Prós

Economia…

Conhecer pessoas novas…

Não dormir com 15 desconhecidos…

Acesso à cozinha…

Dicas e passeios insiders…

Ter uma companhia em potencial…

Ver como vivem os locais…

Praticar outro idioma…

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(Veridiana Scarpelli/Viagem e Turismo)

Contras

…mas sem o conforto de um hotel

…sejam chatas ou legais

…e ficar sozinho(a) com um

…nem sempre limpa ou organizada

…embora as casas fiquem lá no outside

…para o bem e para o mal

…mas ter de respeitar as regras deles

…ainda que morto de cansado

Surfando na Europa

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(Veridiana Scarpelli/Viagem e Turismo)

“O plano era viajar por um mês pelo sul da França, mas a hospedagem se revelou um grande, exorbitante empecilho por causa das diárias praticadas no verão europeu. Recorri ao Couchsurfing para encontrar um teto nas dez cidades do roteiro, começando pelo litoral oeste do país, em Biarritz, e terminando em Nice, na Côte d’Azur.

Tive todo tipo de anfitrião: uma família com um bebê, um casal de classe alta que começou a receber couchsurfers depois da insistência do filho, um chef de cozinha solitário, uma executiva francesa viajante… Até por essa diversidade toda, nem tudo saiu como o esperado.

Tive que conviver com xavecos furados, bebê chorando, anfitrião andando pela casa com roupas de baixo… No entanto, a economia e a chance de conhecer todo tipo de gente certamente compensaram os perrengues. Essa experiência, minha primeira no mundo do couchsurfing, foi só o começo. Já estou pronta para a próxima.”

Raquel Beer, 26 anos