Achados Adriana Setti escolheu uma ilha no Mediterrâneo como porto seguro, simplificou sua vida para ficar mais “portátil” e está sempre pronta para passar vários meses viajando. Aqui, ela relata suas descobertas e roubadas

Como é morar em um edifício modernista no Eixample de Barcelona

Os (muitos) prós e (alguns) contras de viver no bairro queridinho dos urbanistas

Por Adriana Setti Atualizado em 29 nov 2021, 22h51 - Publicado em 29 nov 2021, 17h43

A imagem é uma das mais impressionantes que se pode ter de Barcelona: uma grande colmeia formada por quarteirões oitavados, cortada por um risco, a Avenida Diagonal. Idealizado pelo engenheiro e urbanista Ildefons Cerdà entre 1858 e 1864, o bairro do Eixample é considerado um dos modelos mais bem sucedidos de planejamento urbanístico, por permitir que os moradores resolvam a sua vida perto de casa, reduzindo assim as emissões de carbono. Depois de ter vivido no Eixample por mais de 20 anos, conto um pouco dos (muitos) prós e (alguns) contras de habitar o bairro queridinho dos urbanistas e também eleito como o bairro mais cool do mundo.

Vida sem carro

A maior verdade que se costuma dizer sobre o Eixample é que você praticamente não precisa sair do seu quarteirão para resolver as necessidades básicas do cotidiano. Sempre haverá farmácia, ótica, padaria, supermercado, bar, restaurante, banco, banca de jornal, tabacaria, sapataria, chaveiro, parada de ônibus/metrô e bicicleta pública por perto. Com isso, ter carro é totalmente dispensável – até porque, estacionar na rua é dificílimo. Vem daí, em boa parte, a menor taxa de emissão de carbono, em relação às cidades mais “espalhadas”.

Um dos quarteirões mais bonitos e famosos do Eixample, com a Casa Batlló, projetada pelo arquiteto Antoni Gaudí, em destaque.
Um dos quarteirões mais bonitos e famosos do Eixample, com a Casa Batlló, projetada pelo arquiteto Antoni Gaudí, em destaque. Crédito: Pixabay/Reprodução

Barulhinho ruim

Que os moradores não precisem ter carro, no entanto, não livra o bairro do trânsito. No século 19, Ildefons Cerdà não poderia prever a quantidade de automóveis que existem hoje. E nem que o Eixample se tornaria o centro expandido da cidade, onde está boa parte do comércio, os principais hospitais, entre muitos outros serviços. Como os edifícios não têm um recuo, as janelas ficam a pouquíssimos metros do trânsito nos andares mais baixos. Quando morava no segundo andar de um prédio, era comum que as pessoas achassem que eu estava na rua quando falava ao telefone, tamanho o barulho dentro de casa. A poeira resultante da poluição também era muito acima da esperada para uma cidade perto do mar e com ambições ecológicas. A boa notícia é que, nos últimos anos, várias faixas para automóveis estão dando lugar a ciclovias, calçadas foram expandidas e algumas ruas vêm sendo transformadas em praças, entre outras ações para reduzir o trânsito.

Belezas e perrengues logísticos

Morar em um dos edifícios modernistas do bairro – que predominam na parte mais antiga – é um charme. Nos prédios mais incrementados, as fachadas são belíssimas, com porta de entrada grandiosa e decorada. Muitos deles têm halls adornados com pinturas e relevos e, mesmo os mais simples, costumam ostentar piso e escada de mármore. Mas viver em um edifício histórico tem seus perrengues. Qualquer reforma precisa ser autorizada pelo órgão que cuida do patrimônio histórico – e isso demora. E muitas coisas não foram pensadas para o padrão de conforto com o qual estamos acostumados hoje em dia. Os elevadores, por exemplo, foram instalados bem depois da construção do bairro. E eles costumam ser minúsculos, para duas ou três pessoas, no máximo. Fazer mudança é, quase sempre, uma aventura que envolve muito peso subindo de escada e alguns móveis içados pela janela (os prédios costumam ter um gancho pronto pra isso no topo). Meu CV de perrengues europeus teve até a tampa de uma cama box puxada com corda – por mim mesma – da cobertura do prédio vizinho, já que minha escadaria era estreita demais.

Espaço sobrando e faltando

Olhando a foto do Eixample de cima, você verá que os quarteirões são ocos no meio. No plano inicial de Cerdà, esses espaços seriam convertidos em praças e outros lugares públicos. Mas muito pouco saiu do papel. A quadra onde morei durante 15 anos foi uma das que ganharam uma praça nos últimos anos. E, pouco a pouco, a ideia é que surjam cada vez mais. Mas, até que isso tome forma, a sensação é de estar diante de muito espaço ocioso em uma das cidades mais densas do mundo.

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Escadaria de um edifício modernista do Eixample, com o elevador, bem pequeno, ao lado: fazer uma mudança pode ser uma aventura.
Escadaria de um edifício modernista do Eixample, com o elevador, bem pequeno, ao lado: fazer uma mudança pode ser uma aventura. Crédito: Adriana Setti/Arquivo pessoal
Entrada de um edifício do Eixample, com teto decorado e arquitetura original restaurada.
Entrada de um edifício do Eixample, com teto decorado e arquitetura original restaurada. Crédito: Adriana Setti/Arquivo pessoal

Pátios de luz : a tragicomédia da vida privada

No século 19, a construção dos edifícios com respiros no meio, os chamados “pátios de luz”, foi revolucionária. Até então, os prédios da cidade, concentrados na Ciutat Vella, seguiam o padrão medieval: todos coladinhos, com janelas apenas nos cômodos da frente e de trás. Com essa inovação, os quartos internos ganharam um pouco mais de luz e ventilação, principalmente nos andares mais altos. Mas… também ganharam um túnel por onde ecoa toda a vida privada do edifício: assoadas de nariz, noites de loucuras sexuais, brigas de casais, problemas intestinais… Pelo pátio de luz, também podemos apreciar os aromas da culinária do vizinho, entre outros menos apetecíveis. Com o tempo, muita gente colocou janela dupla e ar condicionado pra sanar esses problemas. Mas não foi o caso do apê onde morei.

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