Brasília inaugura rota turística sobre a história do rock

40 locais contarão a história de bandas como Legião Urbana, Plebe Rude e Raimundos - que marcaram o rock nacional e eternizaram a cidade em suas canções

Por Bruno Chaise Atualizado em 13 jul 2021, 21h12 - Publicado em 13 jul 2021, 13h06

O rock e a capital federal se conheceram no final dos anos 1970, quando os filhos do professores que moravam na área habitacional da Universidade de Brasília, conhecida como Colina, começaram a se encontrar para escutar punk e, mais tarde, fazer o próprio som com guitarras, baixos e baterias. Desse cenário nasceu o Aborto Elétrico, gênese de outras três bandas que viriam em sequência: Capital Inicial, Legião Urbana e Plebe Rude. Foi o pontapé para que mais de 20 grupos da cidade chegassem às grandes gravadoras dos anos 1980 e 1990 e, juntas, vendessem mais de 30 milhões de discos em todo o país.

Neste 13 de julho, quando é comemorado o Dia Mundial do Rock, Brasília começará a demarcar os locais que contam um pouco da história do gênero musical na cidade. Batizado de Brasília Capital do Rock, o novo roteiro turístico será formado por 40 estações com conteúdos explicativos acessíveis via QR Code. A expectativa é que até o final desta semana já estejam demarcados 15 endereços, incluindo as antigas residências de roqueiros como Renato Russo (Legião Urbana), Digão (Raimundos) e Philippe Seabra (Plebe Rude), responsável pela curadoria e mapeamento do projeto.

Também estarão contemplados lugares como a Entrequadra 110/111 Sul, endereço da finada lanchonete Food’s que era ponto de encontro dos punks brasilienses. Ali, as bandas ainda incipientes traziam seus próprios equipamentos de som e subiam nos carros para improvisarem covers de The Cure e Ramones. Os shows foram ficando mais estruturados no Centro Comercial Gilberto Salomão, no Lago Sul, palco da primeira apresentação do Aborto Elétrico, e no Complexo Esportivo e de Lazer do Guará (CAVE), onde houve a estreia do Legião Urbana. 

O projeto é resultado de uma parceria entre as Secretarias de Turismo e Economia do Distrito Federal e a Faculdade União Pioneira de Integração Social (UPIS). Segundo a secretária de Turismo do Distrito Federal, Vanessa Mendonça, a ideia é que a rota do rock aumente à medida que forem surgindo novas sugestões de pontos a serem incluídos. “Esses jovens tinham uma visão diferenciada. E hoje, estamos consagrando isso, em mais um novo olhar sobre Brasília” comemorou.

Veja onde serão instaladas as 15 primeiras placas do roteiro Brasília Capital do Rock:

Eixo monumental

  • Torre de TV – Local onde bandas da nova geração, como Móveis Coloniais de Acajú e Scalene, vencedora do Grammy Latino, se consolidaram perante o público brasiliense, mantendo viva a tradição do rock da cidade.
  • Centro de Convenções Ulysses Guimarães Conhecido como palco de grandes eventos da MPB, o centro entrou no circuito nacional do rock em 1984, quando houve uma apresentação histórica do grupo Kid Abelha. Mais tarde, artistas como Duran Duran, Peter Frampton e Elton John também fariam shows no local.
  • Esplanada dos Ministérios – A Esplanada sediou os maiores espetáculos ao ar livre de Brasília. Em 2008, o Capital Inicial gravou o DVD Multishow Ao Vivo no aniversário de 48 anos da cidade, com mais de um milhão de pessoas na plateia. 

Asa Norte

  • Brasília Rádio Center – Os músicos dos anos 1980 e 1990 gostavam de confraternizar na cobertura do prédio, cujos estúdios eram alugados para ensaios das bandas. Foi na sala 2090 que nasceu o Legião Urbana. Também ensaiavam ali Natiruts e a banda Malas & Bagagens, que durou pouco e contava com a jovem Cassia Eller no vocal.
  • Concha Acústica de Brasília – O local recebeu o trio Wanderléa, Erasmo e Roberto Carlos no auge da Jovem Guarda e lançamento do LP Rumores, que reunia músicas de várias bandas da época de ouro do rock brasiliense.
  • Colina UnB – Era nessa parte residencial da Universidade de Brasília que aconteciam as festas e encontros que dariam origem às primeiras bandas de rock da capital. Foi embaixo do Bloco A, por exemplo, que nasceu o Aborto Elétrico.
  • Estádio Nacional Mané Garrincha – O estádio recebeu lendas como Paul McCartney e o último (e tumultado) show do Legião Urbana, marcado por reclamações de Renato Russo sobre a precariedade da produção, as invasões de fãs e os problemas com a polícia.

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Asa Sul 

  • SQS 303 – Antiga residência de Renato Russo, fundador do Legião Urbana
  • Entrequadra 110/111 SUL – Antigo endereço da lanchonete Food’s, ponto de encontro dos punks brasilienses. O estacionamento do local era onde as bandas levavam seus próprios amplificadores para fazer um som.
  • UPIS –  Espaço na Universidade na Asa Sul onde várias bandas se apresentaram. 
  • Espaço Cultural Renato Russo – Antigo Teatro Galpãozinho na Asa Sul, o espaço tinha programação eclética na década de 1980 e recebia tanto o punk do Plebe Rube quanto a MPB do Mel da Terra. Também foi exibida ali a peça “O Último Rango”, com participação do Aborto Elétrico e Blitz 64.

Lago Norte 

  • QI 8 Lago Norte – Antiga residência de Philippe Seabra (fundador da Plebe Rude).

Lago Sul 

  • Centro Comercial Gilberto Salomão – Todas as banda de rock em início de carreira se apresentavam por lá. O Aborto Elétrico, por exemplo, fez seu primeiro show ali em 1980. Como o local também era frequentado por playboys, de quem os punks não gostavam, as performances eram sempre cercadas de tensão.
  • Ermida Dom Bosco – A capela no Lago Sul era usada pela garotada para promover shows de rock, motivo pelo qual o lugar aparece no filme Somos Tão Jovens, que conta a história de Renato Russo, e na gravação do DVD do Plebe Rude, Rachando Concreto ao Vivo, indicado ao Grammy Latino.
  • QI 9 do Lago Sul – Antiga residência de Digão (fundador dos Raimundos).

      Para ir além

      O endereço da antiga lanchonete Food’s já está incluído nos 15 primeiros pontos da nova rota Brasília Capital do Rock, é verdade. Porém, os roqueiros de Brasília também se revezavam entre o Cafofo (407 Norte) e o Centro Comercial Gilbertinho (QI11 do Lago Sul), que tinham apresentações regulares do Aborto Elétrico, e a casa de vinhos Adega (02/103 Sul), onde Renato Russo, Philippe Seabra e também Dinho Ouro Preto (Capital Inicial) tomavam suas biritas, se divertiam com o fliperama Space Invaders e escutavam música no estacionamento. Essa mesma turma se reuniu pela primeira vez em um festival de rock em 1983, no Teatro da Associação Brasileira de Odontologia (616 Sul): dividiram o palco Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial. As três bandas também inauguraram o Teatro Rolla Pedra, ou Teatro Taguatinga, em 1984. Hoje, o espaço é ocupado por bancos, lanchonetes e lojas.

      Renato Russo forever

      Caso você tenha um interesse particular pela vida de Renato Russo, vale ir além da Superquadra Sul 303, quadra de prédios residenciais onde o músico viveu toda a sua adolescência. Também marcaram o início da vida do Trovador Solitário o Colégio Marista (615 Sul), o Ceub (Asa Norte), que o homenageia com uma pequena placa instalada na entrada do Bloco 12 do curso de comunicação, e a Cultura Inglesa (708/908 Sul), onde ele foi tanto aluno quanto professor de inglês. Um episódio triste, mas importante na vida de Renato, se desenrolou no Hospital das Forças Armadas: ali, o compositor teve que ser internado às pressas por epifisiólise, doença que o deixou semanas sem andar.

      A Brasília das letras

      Patrimônio Cultural Imaterial do Distrito Federal desde 2016, o rock brasiliense possui diversas referências à capital. A começar pelo Parque da Cidade, onde “Eduardo e Mônica” se encontraram pela primeira vez – ela de moto, e ele de “camelo”, vulgo bicicleta. A área verde fica na Asa Sul e possui uma escultura em homenagem a Renato Russo. Através das letras do Legião Urbana também conhecemos a história do tal João de Santo Cristo, que ao chegar na Rodoviária Interestadual da Asa Sul, ficou “bestificado com a cidade” e “viu as luzes de Natal”. Fazem parte do desfecho da história contada em “Faroeste Cabloco” cidades satélites de Brasília como Ceilândia e Sobradinho. Essa última, aliás, foi onde Johnny, o rei dos pegas na Asa Sul de “Dezesseis”, morreu ao perder o controle do carro em um antigo trecho, hoje já reformado, conhecido na época como Curva do Diabo. 

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