Rivotrip Por Blog Editora de Arte, Ana Claudia Crispim sai todo dia do sossego de sua casa com pomar para deixar lindonas as edições da VT

Viajante sincero, Montevidéu

Por Ana Claudia Crispim Atualizado em 27 fev 2017, 15h35 - Publicado em 12 ago 2014, 17h00

“Não é você, sou eu. Você é a pessoa certa na hora errada, blá, blá, blá…”

Quem nunca proferiu estas ardilosas palavras, nem que fosse com as melhores das intenções? Penso nisso quando viajo pra algum lugar que é unanimidade e não acho tudo aquilo. Na volta da viagem as pessoas que foram pra aquele lugar (e adoraram) nos espremem em busca de elogios e identificação. E a gente não tem coragem de falar que simplesmente não gostou, nunca vai gostar! Se você já sentiu isso e nunca teve coragem de falar, liberte-se, vem comigo, tira esse sapo engasgado na goela. Você pode, sim, simplesmente não gostar daquilo que a maioria das pessoas amou, você pode apenas estar num dia ruim. Talvez fosse o lugar certo na hora errada, talvez não seja o lugar, e sim você… 


Montevidéu
Comida excepcional, carne mais gostosa ainda que a da Argentina (se é que isso é possível), o melhor doce de leite do mundo e a mesa quase sempre enfeitada com a bebida típica e deliciosa, o clericot. A cidade tem lindos prédios antigões, abandonados. Vintage. As ruas são bonitas, as pessoas, educadas, e o rio da Prata banha tudo isso. Ê, beleza! Ê, beleza? Ê, beleza, nada!

Eu gosto de frio e resolvi ir pra lá no inverno. Achei que seria romântico, que os cafés me abraçariam e que eu gostaria deles. Mas a cidade estava cinza, o rio da Prata parecia um mar triste, apocalíptico. O vento? Nunca vi nada igual.
Pra piorar conhecemos um senhor supersolícito que estava carente, era recém-separado. Meu marido, no afã de fazer amizades nativas e com medo de contar pontos negativos no carma, nos colocou na maior fria do mundo, deu bola. E o amigo resolveu passear com a gente. Sim, ele passeou com a gente to-dos-os-di-as, e não havia quem tivesse a coragem de cortar o barato de um homem solitário. Isso, o frio e o cinza foram transformando a viagem numa depressão sem fim. Os prédios antes fotogênicos ficaram tristes, o canto dos pássaros parecia fúnebre, a comida perdeu o sabor.
Um dia não tive forças para sair do quarto, o hotel era bom, a cama, fofa, e tinha bacon no café da manhã; pra que mais?

Dizem que no verão a cidade ganha cor, não sei nem nunca vou saber. Dizem que o índice de suicídios no Uruguai é alto demais, e eu entendo o porquê. Na época não tive tanta coragem de dizer, não queria magoar uma (fofa) amiga uruguaia. Pra que magoar se a gente pode evitar, não é? Mas acabei contando que não foi legal, e não foi mesmo.

Um amigo acabou de dizer que comprou passagens pra lá. Desejei boa sorte e ofereci antidepressivos.

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Mercado Municipal de São Paulo

 

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