Vale a pena fazer um “batismo” de mergulho?

Mergulho é como sexo. É praticamente impossível que a primeira vez seja a melhor (a menos que seja a única). Você estará nervoso, cheio de expectativas, preocupado em fazer tudo direito e terá a cabeça ocupada demais para sentir prazer. Com sorte, a estreia vez não vai gerar um trauma e você terá vontade de repetir e aprimorar a experiência. Por essas e outras, me pergunto: vale a pena fazer um batismo de mergulho?

 

O batismo (ou “discover scuba dive”, em inglês) é uma espécie de amostra (longe de ser grátis) do mergulho – não confundir com um curso básico, o chamado Mergulho em Águas Abertas (Open Water Scuba Diver) , que dura cerca de quatro dias e realmente ensina o sujeito a se virar embaixo d’água.  Uma pessoa não certificada  (ou seja, que não tenha a “carteirinha” da PADI, da SSI ou de outra organização internacional), que nunca respirou o ar comprimido de um cilindro, pode se aventurar a um batismo. O instrutor dá uns 15 minutos de explicações: como equalizar o ouvido para suportar a pressão, como limpar a máscara caso ela venha a embaçar e coisas do tipo. Depois, o mergulho acontece lado a lado com o instrutor (às vezes ele até segura o marinheiro de primeira viagem pelo colete), num lugar que seja extremamente fácil e seguro, a um máximo de 12 metros de profundidade. A aventura não dá direito a uma carteirinha no final.

 

Uns dias atrás, mergulhei na Grande Barreiras de Corais da Austrália. Vou contar os detalhes no próximo post, mas já adianto que foi uma experiência além das expectativas. Algumas pessoas fizeram o batismo naquele mesmo dia. Sinceramente, não sei se elas gostaram do que viram e nem se voltarão a mergulhar no futuro, mesmo tendo tido esse primeiro contato com o universo submarino num dos lugares mais incríveis do mundo. Não é um desperdício terrível?

 

No caso da Barreira de Corais, nós, os mergulhadores certificados, fomos de barco até a parte externa do arrecife. Vimos vários tipos de arraias, duas espécies de tubarões (um deles raríssimo), tartarugas gigantescas e cardumes de peixes coloridos. A visibilidade era incrível, de mais de 30 metros. Já a tchurma do batismo caiu no mar ao lado de uma plataforma lotada de turistas, num lugar com pouca visibilidade e quase nada para ver. Alguns não conseguiram equalizar os ouvidos e desistiram no meio do caminho. A atmosfera geral era de frustração.

 

É claro que tem muita gente que faz o batismo e gosta. Mas já vi esse cenário decepcionante muitas vezes (além de ter ouvido relatos de arrepiar de alguns amigos). Por isso, agradeço por ter tomado a decisão de encarar um curso diretamente, sem passar pelo batismo. E digo mais: acho que o tal do batismo não deveria nem ser permitido.

 

Mergulhar é uma experiência que exige conhecimento técnico e controle emocional. Você não vai adquirir nenhum dos dois nos quinze minutos de explicações do batismo. Despreparado, corre o risco de ter uma experiência traumática embaixo d’água. Isso sem falar no fato de que você muito provavelmente estará num lugar meia boca, em geral insuficiente para gerar aquele efeito “WOW” que fará você se apaixonar pela coisa.

 

É extremamente natural que você se sinta incômodo e ansioso nas primeiras vezes (até hoje, com quase 200 mergulhos no meu logbook, fico ansiosa ao voltar à água depois de muitos meses longe do ar comprimido). Mas, ao longo de um curso, você irá se familiarizando com o equipamento e com a água pouco a pouco. No final do processo, já será capaz de fazer um mergulho de verdade, sem um instrutor pendurado no seu pescoço e com liberdade para ir até 18 metros de profundidade. No meio do caminho, certamente pensará: “onde fui me meter? Por que estou e submetendo a isso?”. Mas no final das contas terá descoberto um novo e maravilhoso universo. Pode apostar.

 

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