O (árduo) caminho rumo ao desapego

Como se desfazer da metade das suas coisas e sobreviver ao processo

No final de fevereiro, escrevi um post contando que precisava desapegar de quase metade das minhas coisas para fazer uma mudança. Estava embarcando em uma nova etapa, na qual o hábito de viajar leve se tornaria algo mais amplo: um estilo de vida. Disse, também, que quando esse (árduo) processo estivesse no final, contaria a vocês como foi. Pois cá estou.

Uma mudança é sempre um perrengue. Mas, nesse caso, havia um agravante: a casa para onde nos mudaríamos já estava montada e completinha. Ou seja, tudo o que quiséssemos levar deveria encaixar nos poucos espaços vazios ou substituir algo já existente. Na prática, isso significava que deveríamos nos desfazer de mais da metade de nossos móveis, livros, utensílios de cozinha, eletrodomésticos, enfeites e muitas tralhas aleatórias e inclassificáveis. A missão parecia tão difícil que decidi que precisaria de algum tipo de método. E, sem criatividade nenhuma, devorei a série Ordem na Casa, do Netflix, com a guru da organização, a japonesa Marie Kondo.

No dia seguinte à nossa decisão de mudar, estabeleci a meta de jogar um carrinho (tipo de feira) de coisas foras ao dia, já que não tenho carro em Barcelona. A partir daí, iniciei um ir e vir sem fim à estação de reciclagem e ao ponto de recolhimento de resíduos especiais (roupas, eletrônicos, pilhas, fios, eletrodomésticos etc) mais próximo da minha casa. Nos dias mais empolgados, cheguei a fazer mais de quatro viagens. Ao final do processo, contei quase 100.

Seguindo os ensinamentos de Marie Kondo, fui vasculhando a casa por áreas e temas, começando por livros. Na nova vida, só caberia 25% do que eu tinha. E lá se foram os outros 75% a amigos e ao ponto de coleta. Minhas revistas, muitas delas com matérias minhas, tiveram o mesmo fim – para minha alegria, a coleção completa de Piauí foi adotada pelo meu irmão, o grande herdeiro da minha jornada de desapego.

Até iniciar esse processo, me achava uma pessoa minimalista. Estava totalmente iludida. A meu favor, tenho a dizer que nem tudo foi culpa do consumismo. Vivendo em Barcelona, recebendo centenas de amigos ao longo dos anos, fui herdando os típicos itens que acabam não cabendo na mala de volta de quem faz umas comprinhas. Guardei tudo isso sem pensar muito e, quando me dei conta, tinha quantidades imensas de coisas que nunca escolhi ter. A começar por um sem fim de toalhas que nem sei de onde vieram, livros que jamais iria ler, casacos que nem me servem, malas e outras tralhas.

Enquanto ia e vinha sem parar com o meu carrinho verde lotado, também coloquei várias peças de roupas e sapatos à venda em um aplicativo chamado Vinted, a versão europeia do Enjoei. À maioria dos itens, estabeleci preços simbólicos, entre €5 e €10. A ideia era apenas evitar jogar no lixo coisas que ainda poderiam ser aproveitadas. Para meu espanto, consegui passar adiante quase 20 pares de sapatos(!), vestidos e até óculos escuros que não usava há anos. Fiz o mesmo com praticamente todos os móveis que não íamos levar e ajudamos a decorar a casa de metade dos estudantes de Barcelona.

Enquanto eu desfrutava desse processo de desapego, me sentindo cada vez mais leve e resolvida a ter uma vida com menos coisas, meu marido estava passando por essa experiência de uma forma totalmente diferente. É claro que eu também tive meus momentos difíceis e muitas dúvidas pelo caminho, mas, para ele, qualquer coisa que estivesse minimamente vinculada a alguma memória afetiva o deixava bloqueado. Mesmo sem ouvir um CD há mais de 10 anos, foi impossível, para ele, se desfazer da sua coleção. O mesmo aconteceu com vários outros itens.

Em princípio, insisti, pressionei e tentei convencê-lo de que simplesmente não fazia sentido arrastar tudo aquilo para nossa nova vida. Mas, depois, entendi que estávamos em estágios completamente diferentes de desapego e que eu precisava respeitar os limites dele. Era como se eu estivesse vivendo um renascimento enquanto ele ainda estava passando pelo luto. O jeito seria fazer concessões e deixar a realidade se encarregar de dizer: querido, não cabe. Os CDs vieram e encontraram um novo lar, mas pelo menos agora moram em um case, ocupando 20% do espaço. O processo continua.

Se você está querendo caminhar em direção ao minimalismo ou, vá lá, uma vida mais simplificada e com menos coisas, aqui vão cinco lições que estou aprendendo ao longo desse processo:

  1. Para desapegar a dois, é preciso conversar muito para alinhar as expectativas e, depois, deixar que cada um faça a sua própria triagem de coisas pessoais. No nosso caso, decidimos que cada um teria a sua caixa de memórias aleatórias na dispensa da nova casa. E o que cada um colocou na sua não é da conta do outro. Iniciativas desse tipo ajudam a reduzir os conflitos entre as partes envolvidas (mas eles vão rolar, mesmo assim).
  2. Acumulamos coisas com uma facilidade assustadora, quase como se elas tivessem vida própria. Manter a casa leve, apenas com o que é útil ou gera prazer, é um exercício diário de observação atenta. Você precisa mesmo guardar a pantufa do hotel? A bolsa que veio de brinde com o molho de tomate? A toalha que sua amiga deixou pra trás na sua casa?
  3. O pilar de uma vida simples é que as coisas estejam a seu serviço e não o contrário. Faz sentido deixar de se mudar pra um apartamento super legal e bem localizado só porque o armário é pequeno? Vale investir milhares de reais numa casa com um quarto a mais só pra ter mais espaço pra estocar o que você nem usa? Você não seria mais feliz com três tupperwares do que tendo que enfrentar aqueles 10 que caem na sua cabeça quando você abre o armário?
  4. As coisas dão trabalho. Quando mais tralha você tem, mais complicado é fazer a limpeza, encontrar tudo o que procura e manter a casa organizada.
  5. Desapegar de tantas coisas de uma vez só pode ser muito desgastante tanto física como emocionalmente. Podendo, tente fazer isso quando você estiver em um momento tranquilo da sua vida, com bastante tempo, estabelecendo metas suaves por dia ou semana.
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