Achados Adriana Setti escolheu uma ilha no Mediterrâneo como porto seguro, simplificou sua vida para ficar mais “portátil” e está sempre pronta para passar vários meses viajando. Aqui, ela relata suas descobertas e roubadas

“Mergulhadores são os embaixadores dos oceanos”, diz ambientalista Jean-Michel Cousteau

Por Adriana Setti Atualizado em 27 fev 2017, 15h17 - Publicado em 22 jul 2015, 15h02

Meses atrás fiz uma pequena reportagem que me deu um grande prazer: uma entrevista com o ambientalista Jean-Michel Cousteau. O filho do visionário Jacques Cousteau acaba de completar 77 anos. Francês radicado nos Estados Unidos, ele mergulha desde os sete anos de idade – é, portanto, um dos seres humanos vivos mais longevos no esporte. Herdeiro da ideologia do pai (ainda que tenham tido divergências e rompimentos), o explorador, educador, produtor de documentários e ambientalista é hoje uma figura crucial na inglória luta pela preservação dos oceanos, através de sua Ocean Futures Society.

O resultado está estampado na última edição da revista de bordo Tam Nas Nuvens. Como o espaço era curto, acabei deixando de fora grande parte do conteúdo, interessantíssimo (sobretudo o seu duríssimo depoimento sobre a Amazônia). Nada como ter um blog para poder escrever sem se preocupar com a contagem de toques! Eis o melhor da nossa conversa:

O senhor mergulha há 70 anos. Algum lugar que conheceu quando jovem permanece inalterado?

Os únicos lugares que têm mais ou menos o mesmo aspecto de 20 anos atrás (impossível falar de 70) são Fiji, Papua Nova Guiné e o extremo sul do Caribe, lugares que sofrem menos impacto humano.

 

Por isso escolheu Fiji para situar um de seus centros de mergulho?

 

O Jean-Michel Cousteau Resort, onde está localizado o meu centro de mergulho, está situado numa antiga plantação de coco de 17 acres na ponta de uma península que avança sobre a baía de Savusavu. Esta área é conhecida ao redor do mundo por seus arrecifes espetaculares de corais. E o mais impressionante é que povo fijiano habita essas ilhas do Pacífico há mais de 3 mil anos ganhando o sustento com as belezas naturais que os cercam sem abusar delas. Por isso, meu time de conservacionistas e eu acreditamos que a sociedade moderna tem muito o que aprender com eles sobre sustentabilidade. Os fijianos são conservacionistas natos.

 

O que um cidadão comum pode fazer (ou evitar) para ajudar na conservação dos oceanos?

Cada pequena decisão faz diferença. Desde optar por material reciclável ao invés de objetos de plástico de um único uso, a comprar ou não de tal empresa com base no seu impacto sobre o meio ambiente. Mergulhar de forma recreativa também é  uma forma crucial de fazer com que alguém se apaixone pela natureza. Mergulhadores são os embaixadores dos oceanos. Meu pai sempre dizia: “as pessoas protegem aquilo que elas amam”.

 

Qual é o seu principal desafio?

Estou muito preocupado com a indústria pesqueira. Estamos pescando mais peixes do que os oceanos são naturalmente capazes de repor. Cresci entre pescadores e sei que todos nós precisamos ganhar a vida. Mas temos a obrigação de cultivar o mar assim como fazemos com a terra e há oportunidades imensas na aquicultura sustentável. Podemos converter a próxima geração de pescadores naqueles que cultivam o mar. Assim teríamos uma fonte de alimento saudável e sustentável.

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Você dedicou toda a sua vida à conservação e à educação ambiental. Você é tão otimista quando você era há 50 anos?

Não sei se eu era um otimista 50 anos atrás. Estava mais preocupado em explorar, descobrir e entender os oceanos. Mas agora, sabendo de tudo aquilo que tive o privilégio de aprender sobre nossa relação com a natureza, com os avanços tecnológicos, e vendo pessoas jovens apaixonadas pela preservação do meio ambiente, todos os dias as minhas baterias são recarregadas. Sou mais otimista do que nunca.

 

O senhor voltou à Amazônia, no Brasil, 25 anos após ter estado lá com o seu pai. Qual foram as suas impressões em comparação com a primeira experiência?

De uma hora para a outra, havia 20 milhões de pessoas a mais vivendo na Amazônia, que é a floresta tropical maior do mundo, do mesmo tamanho que a parte continental dos Estados Unidos. E acima disso, indústrias de grande porte se instalaram na região, criando gigantescos depósitos de lixo que destroem vilarejos de nativos, forçando milhares de pessoas indocumentadas a se mudarem para outros lugares, gerando conflitos humanos e reduzindo a biodiversidade da região. Não há regulamentações – ou, quando há, a lei não é aplicada — para proteger o meio ambiente, as árvores, os rios, os peixes. E não há assistência médica para milhares de pessoas vivendo na floresta, que atualmente sofrem com doenças e outros problemas de saúde que foram introduzidos com esta ocupação desordenada. Há problemas colossais por resolver, mas ainda assim eu tenho esperança de que isso pode vir a melhorar no futuro. Há gente trabalhando muito duro para ajudar a proteger a Amazônia, entre elas minha filha, Celine Cousteau, que vive na região.

 

Clique aqui para ler sobre a minha experiência no Jean Michael Cousteau Resort em Fiji.

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