E quando você tem que escrever sobre um lugar do qual não gostou?

Escrever sobre um lugar do qual não gostei me transforma numa pessoa objetiva. É como se enxergasse o lugar de fato sem a nuvem de vivências diante dele

Costa Rica: beleza sem almaCosta Rica: beleza sem alma

Acontece com frequência na vida de quem se dedica ao jornalismo de viagem: escrever sobre um lugar do qual você não gosta. Sofrimento? Muito pelo contrário. Quando não fui flechada por um destino, o texto flui, praticamente escorre da minha cabeça e gruda na tela do computador. O contrário – escrever sobre um lugar que mexeu comigo – é muito, muito, muito mais difícil. Entro em angústia, devoro a geladeira, passo aspirador de pó na casa inteira, tomo oito cafés, depilo a sobrancelha … e o texto não sai.

Nada parece estar à altura. Nada parece fazer jus àquilo que vivi. Nada é capaz de explicar o feliz que fui naquele lugar. Sincronizar as palavras se transforma numa epopeia dolorida, um parto, no sentido quase literal da palavra. Foi assim com o México. Foi assim com a Tailândia. Num caso extremo – minha viagem à Lituânia, em busca das minhas origens –simplesmente desisti de escrever o texto, depois de meia centena de primeiros parágrafos falidos. Assim de grave.

Quando digo “lugares dos quais não gostei”, não me refiro a lugares tenebrosos – mesmo porque os lugares horríveis dificilmente estariam numa revista de viagem. Falo sobre destinos que as pessoas costumam amar (e que eu mesma um dia quis conhecer… afinal de contas acabei viajando pra lá, não?) do qual, por algum motivo, não gostei.

É mágica. Escrever sobre um lugar do qual não gostei me transforma numa pessoa objetiva. É como se enxergasse o lugar de fato sem a nuvem de vivências diante dele.

Quer um exemplo? Costa Rica. Minha matéria sobre o país foi capa da VT um tempo atrás. Você não notará o meu distanciamento. E eu juro que tudo o que está lá é verdade. Sim, a Costa Rica é linda. A Costa Rica tem muitíssimo a oferecer. Eu aproveitei bastante o meu tempo por lá. Me diverti, inclusive. Mas no balanço final, achei que o país é como um parque temático da natureza, só que sem alma. As pessoas são um pouco distantes, a culinária não tem vida própria… enfim. Pra mim, foi apenas uma experiência ok.

Ah, e aproveitando o embalo das confissões… posso desabafar? Eu não suporto Ibiza, a despeito das 300 matérias minhas sobre a ilha com as quais você eventualmente topará por aí. Não espalha. E eu garanto: pode continuar confiando nas dicas.

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