Banheiro limpo e exclusivo é uma obsessão brasileira

Brasileiro tem nojinho de compartilhar banheiro, toma de banho de chinelo, coisa que o resto do mundo tende a achar bem esquisito

Outro dia fui entrevistada por uma empresa que estuda tendências de mercado. A pauta, no caso, abordava a maneira como o brasileiro viaja, incluindo os destinos favoritos, os medos, as exigências, as manias. Ao ser perguntada sobre as particularidades do viajante brasileiro, não tive erro: somos obcecados pelo banheiro. E temos medo fóbico de compartilhá-lo com outros seres humanos.

Segundo a nossa ótica muito particular, dar beijo de língua num estranho é mais higienicamente aceito do que tomar banho (de chinelos!) no banheiro do corredor de uma pensão em Paris. Nós odiamos banheiro compartilhado. E, ainda que ter uma privadinha privê dobre a tarifa da acomodação em certos lugares, estamos dispostos a pagar o preço.

Culpemos os pataxós, os yanomamis, a galera do Xingu. Não dizem que foi dos índios que herdamos o hábito (excêntrico aos olhos dos europeus) de tomarmos banho até mais de uma vez por dia? Deve vir daí a explicação para coleção de banheiros que nos deixam mal acostumados nos apartamentos de médio e alto padrão no Brasil (ah, que saudades). Na Europa, o convencional é que cada residência tenha apenas um banheiro. Sendo assim, o europeu nasce dividindo o pinico com os irmãozinhos, cresce compartilhando os pinguinhos de xixi com os flatmates e roda o mundo tomando banho no corredor da pensão, sem stress – e sem chinelos.

Sempre que tenho que encarar um banheiro coletivo me dou conta do quão tola é essa obsessão.  Afinal de contas, se tudo der gastrointestinalmente certo, a relação com o abominável monstro do banheiro coletivo ocupará um tempo ínfimo do seu dia. Pra que tanto drama?

Nas ilhas Fiji, uma das minhas últimas férias, o banheiro quase triplica o preço da acomodação nas ilhas mais remotas, que já não é barato. Um dia escovei os dentes ao lado de um chinês de cabelo cor de rosa, depois fui vizinha de chuveiro de uma indiana e tudo rolou na maior paz, no maior amor. Amanhã ou depois vou pegar a estrada novamente, outros banheiros coletivos virão. Pois que venham!

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