Achados Adriana Setti escolheu uma ilha no Mediterrâneo como porto seguro, simplificou sua vida para ficar mais “portátil” e está sempre pronta para passar vários meses viajando. Aqui, ela relata suas descobertas e roubadas

A reserva privada NamibRand: um achado ao lado de Sossusvlei, no deserto da Namíbia

Por Adriana Setti Atualizado em 27 fev 2017, 15h08 - Publicado em 5 abr 2016, 17h35
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No fim de tarde, o sol vai desenhando linhas extras no horizonte

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E tudo vai ficando mais avermelhado…

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Algumas montanhas são formadas por dunas petrificadas

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Alô alô marciano

 

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Degradê de vermelhos e rosas

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Agora de outro ângulo

 

Acordar e notar que um órix curioso nos espia pela janela. Observar os planetas do sistema solar e uma chuva de estrelas com nitidez de full HD – num dos lugares mais escuros do mundo. Ouvir o silêncio. Escalar dunas altíssimas e vermelhas. Pisar sobre círculos mágicos. Viver isso em 48 horas no deserto da Namíbia foi uma verdadeira experiência – sem correr o risco de usar o termo em vão, algo que a indústria do luxo vem fazendo exaustivamente.

 

Visitar Sossusvlei (tema do próximo post) em qualquer circunstância é uma viagem inesquecível. Mas fazer isso estando no andBeyond Sossusvlei Desert Lodge é um bônus. Não apenas pelo conforto, mas pelo fato de o hotel estar dentro de uma reserva privada tão impressionante quanto o próprio parque nacional, a NamibRand Nature Reserve (uma reserva natural formada a partir da junção de 13 antigas fazendas).

 

Poucas horas depois de fazer o check-in, já estávamos a bordo de um Land Rover para um dos nature drives que o hotel oferece no seu quintal. Confesso que não esperava muito do passeio – afinal de contas, quem chega lá geralmente tem a ideia fixa de ir a Sossusvlei. Mas comecei a intuir que estava em um lugar muito especial quando Félix, nosso guia, apontou para os primeiros fairy circles no chão. Os “círculos de fadas”, ou “círculos mágicos”, são daqueles fatos inexplicáveis que intrigam a ciência, como as Linhas de Nasca no Peru, por exemplo. Numa reportagem da CNN, o fenômeno é apontado como um dos grandes enigmas da natureza. Clique aqui para ler a matéria e aproveite para ver as fotos aéreas.

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Círculo mágico, com luz mágica

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Mais um círculo (no centro da foto). Como fui no auge do verão, a vegetação estava bastante escassa, o que torna os círculos um pouco menos visíveis. Ainda assim…

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Círculos misteriosos: os animais evitam comer o matinho que nasce ao redor

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Uma única certeza sobre os círculos: ninguém sabe explicar

Vista de cima, essa parte do deserto da Namíbia parece a face da lua (ou a pele de alguém com catapora, para ser menos poética), pontilhada de aureolas perfeitas cercadas de vegetação rasteira, totalmente vazias em seu interior. As bolinhas se estendem por uma faixa de quase dois mil quilômetros e são muito intensas ao longo de toda a propriedade do andBeyond Desert Lodge. Como não podia deixar de ser, há inúmeras teorias que tentam explicar o fenômeno (científicas e místicas). Mas a única verdade é que ninguém sabe como e porquê essas marcas se formam. E mais: os animais, mesmo diante da escassez de alimento do deserto, evitam comer o matinho ao redor das circunferências. Frio na espinha.

 

Era fim de tarde e, em meio ao fascínio imediato que a história dos fairy circles nos despertou, fomos subindo uma duna ao passo que as muitas camadas de montanhas (muitas são montes de areia “fossilizados”) no horizonte iam se tingindo de tons de vermelho e rosa. Foi certamente um dos cenários mais bonitos que vi na vida. Clique AQUI e AQUI para ver dois videozinhos rápidos que postei no Instagram.

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Paolo no domínio do Land Rover

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Félix, o apaixonado pelo deserto

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Uma valente lebre habitante do deserto

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As tímidas zebras do deserto da Namíbia

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Um dos milagres do deserto é esse tipo de ninho coletivo, que chega a abrigar dezenas de pássaros

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“Nós tendemos a achar que o deserto não tem vida, mas na realidade há um monte de coisas acontecendo. É preciso parar e observar. O deserto pede tempo.”

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“Se você veio pra cá com muitas coisas dando voltas na cabeça, há espaço de sobra para jogar isso fora”, disse Félix, nosso ranger, cuja paixão pelo lugar chega a ser contagiante. Depois de um tempo morando na capital do país, Windhoek, ele havia voltado a trabalhar como guia naquela mesma semana, e estava visivelmente emocionado. Deu gosto conhecer o lugar pelas mãos de alguém que estava curtindo o momento tanto quanto nós. “O deserto fica em você, eu simplesmente precisava voltar”, disse ele, com um brilho meio lacrimal nos olhos.

 

Em certos momentos, o carrão remanchava para vencer as gigantes de areia, exigindo o máximo de sangue frio e proeza por parte do italiano Paolo, o jovem gerente geral do hotel. De volta à planície, fechamos a tarde com chave de ouro e um gin & tonic a céu aberto, em uma conversa que enveredou para a filosofia – tenho a sensação de que um lugar tão poderoso acaba fazendo com que tudo vá além do trivial. “Nós tendemos a achar que o deserto não tem vida, mas na realidade há um monte de coisas acontecendo. É preciso parar e observar. O deserto pede tempo”, disse Paolo. Era noite quando voltamos ao hotel.

 

Se ao homem moderno falta silêncio, solidão e escuridão, eis um lugar para fartar-se desses luxos escassos. O hotel segue os preceitos do programa International Dark Sky Places, criado em 2001 para encorajar a preservação da escuridão noturna – algo fundamental para que se possa observar o céu em sua plenitude e também para o conforto dos animais. Segundo os critérios da organização, a NamibRand Reserve é um dos lugares mais escuros do mundo. É mais do que oportuno, portanto, que o lodge tenha um observatório de altíssimo nível, além de uma astrônoma de plantão, a australiana Diane. Tivemos a sorte extra de estar lá na semana da lua nova e pudemos observar todos os planetas do sistema solar pouco antes do amanhecer (lá pelas 5 horas), além de uma profusão de constelações depois do jantar (a comida é excelente, aliás).

Um dos lugares mais escuros do mundo

Um dos lugares mais escuros do mundo

Durante o dia, também é quase impossível enxergar o hotel de longe. Mimetizado na paisagem, o lodge tem apenas dez villas. A área social é compacta, com bar, restaurante e um lounge recheado de sofazões. A piscina, pequena e rústica, é um sinal de respeito pelo entorno – ainda que a água venha de uma fonte subterrânea, esbanjar em meio a tamanha aridez seria até cafona. Mas ainda que as instalações sejam convidativas, tudo (a começar pelo clima tórrido) conspira para que o hóspede queira passar a maior parte do tempo na suíte.

 

Cada villa, erguida em pedra e vidro, é um pequeno latifúndio. Seguindo a linha “luxo despojado” que caracteriza a andBeyond, o quarto tem dois espaços em desnível com móveis esparsos de linhas minimalistas. No alto, a cama king-size está posicionada sob um teto de vidro com uma cortina retrátil. À noite, as estrelas brilham com tamanha intensidade que chegam a iluminar o ambiente. Um pouco abaixo, diante de uma janela de teto ao chão que se abre para a varanda, há um sofá enorme, uma pequena lareira e uma mesa de centro sobre a qual repousam algumas pedras de quartzo rosa, um ícone da Namíbia.

 

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Os quartos são verdadeiros oásis de conforto, no estilo “luxo-despojado” que caracteriza a andBeyond

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A vista espetacular do banheiro

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O deserto onipresente através das paredes de vidro do quarto

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Um órix nos espiando pela janela

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A varanda da suíte, com chuveiro externo

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A vista da suíte

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A piscina respeitosa com o meio ambiente

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Momento de deleite com 45 graus

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Time de passarinhos querendo roubar o meu café da manhã

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Mesa panorâmica

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Agora de outro ângulo

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Os adoráveis livrinhos que os hóspedes recebem (e podem levar como suvenir) sobre a natureza local

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No meio do caminho (do café da manhã) havia um órix

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O hotel mimetizado na paisagem

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Agora um pouco mais de longe

Para tudo o que oferece, o preço da diária, a partir de US$ 366 por pessoa, é bastante razoável – o mesmo cobrado por uma pousada de Trancoso que acaba de me mandar uma newsletter! A tarifa inclui todas as refeições, bebidas (inclusive alcoólicas), lavanderia, passeios de 4X4 pela reserva e uma excursão a Sossusvlei. Entre as atividades incluídas no preço estão passeios de quad pela reserva, algo que lamentei não ter feito (estive lá no auge da baixa temporada, quando os quadriciclos estavam em manutenção).

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