Domando o tigre

Domando o tigre



Duas visões antagônicas sobre o grande delta argentino
 
GOSTEI
Mais do que San Isidro, a grande atração ligada pelo Trem da Costa está em sua estação final - o Delta do Tigre. Confluência de rios, arroios e riachos que irão formar o mítico Rio da Prata, a região tem 10 milhões de quilômetros quadrados de cursos d'água. Muitos locais usam barcos como meio de transporte. Para nós, turistas, a boa notícia é que outros barcos deixam a Estação Fluvial do Rio Tigre para passeios de uma hora a dois dias. Eu fiz o passeio mais curto (e mais popular), de uma hora, sem paradas. A linda luz alaranjada da tarde convidava para uma incursão à área externa do barco, mas, como bom carioca, preferi o aconchego das poltronas macias do interior. Deu certa inveja do casal que escolheu uma canoa a remo para seu passeio, mas não posso reclamar da visão panorâmica e do café quente servido pelo marinheiro.
 
O barco deixou o riozinho Tigre e tomou o Luján, em cujas margens vi fachadas vitorianas dos clubes desse arrabalde: o Tigre Boat Club, o Rowing Argentino, o Tigre Sailing Club. Conforme o barco entrava nos arroios estreitos, a mata impunha-se às construções, num cenário de quadro impressionista sob luz outonal. Nas casas simples de madeira, com um deque para atracação de barcos, argentinos pescavam e jogavam conversa fora, sempre na companhia da cuia de mate. Senti vontade de ficar por ali. Não só por causa das maritacas que voavam em bandos. É que ter uma rua de água turva em lugar de asfalto e uma vizinhança quase selvagem é um sonho para quem mora entre Rio e São Paulo.
 
Depois de descer o Rio Sarmiento, meu barco foi ultrapassado lentamente por um daqueles com roda de pás, no melhor estilo Mississipi. Dele, crianças acenaram. À frente, a roda gigante, marca registrada do Parque da Costa, assomou. Hora de voltar à terra. (BRUNO AGOSTINI)
 

NÃO GOSTEI
A pior lembrança de minha última viagem a Buenos Aires foi o passeio ao Tigre. Era um dia de muito calor, em janeiro. Os problemas começaram já no Trem da Costa, completamente lotado. O ar-condicionado não dava conta. Uma mulher desmaiou no meu vagão. Ao descer em Tigre, fui à estação fl uvial, onde várias companhias ofereciam seus serviços. Fiquei confuso com tantas opções e escolhi o barco que zarpava primeiro. Errei feio. Tratava-se de um barco da Líneas Delta, lento e barulhento, uma espécie de barco-ônibus com destino a Colônia, no Uruguai. No guichê, perguntei ao vendedor onde era adequado descer para conhecer o delta, pois não queria ir ao Uruguai. Ele me falou de uma ilha onde eu poderia almoçar. Paguei os quatro dólares da passagem de ida-e-volta sem questionar.
 
A tal ilha ficava a uma hora e meia de navegação pelo maior canal do delta. Não fazia nenhuma incursão pelos canais menores, onde eu teria visto o modo de vida dos habitantes da zona. Disseram-me que a região lembrava Veneza, um labirinto de pequenos canais. Em vez disso, naveguei por um grande canal que chegava a até um quilômetro de largura, com casas espaçadas nas margens. Para piorar, na ilha onde desci havia um único restaurante, improvisado e caro. E o próximo barco para me levar de volta só passaria uma hora e meia depois! Paguei dez dólares pelo almoço e descobri que se pode comer carne ruim e beber vinho inferior na Argentina.
(LUÍS SOUZA)
 


Por: Bruno Agostini e Luís Souza | Fotos: Bruno Agostini
Matéria publicada na revista Viagem e Turismo Ed. 141 - 01/08/2007




 

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