Roteiro de carro: de Lisboa à Andaluzia em sete dias

Percorrendo 998 km, esse itinerário passa pelos portugueses Alentejo e Algarve antes de seguir para a espanhola Andaluzia

DIA 1

Ponto de partida: Lisboa
Ponto de chegada: Cercal do Alentejo
Percurso: 202 km

Podem ser pastores de ovelha. Podem ser vilas minúsculas e branquinhas logo depois de uma curva. Pode até ser o Atlântico, que se descortina vez ou outra. Ou um tapete de flores amarelas e roxas na primavera. O que não muda na paisagem do Alentejo é o onipresente mar de oliveiras, salpicado aqui e ali por imponentes sobreiros (as árvores da cortiça).

Um Alentejo muito pitoresco vai passar pela janela do seu carro (Zanettini/Laif/Reprodução)

É essa a paisagem que vai dominar a cena nos próximos dias, a partir do momento em que se cruza abela Ponte 25 de Abril rumo ao sul do país. Através da Autoestrada A2 (seguida pela A26), são cerca de duas horas até Porto Covo, uma cidadezica encantadora de casario branco e portas e janelas coloridas.

Cerâmica decorativa alentejana (Visit Portugal/Divulgação)

A partir daqui, olhe sempre para o mar – nesse trecho estão algumas das mais belas praias da Europa. Vila Nova de Milfontes, 15 minutos adiante (pela CM1072), guarda uma das mais bonitas e selvagens da região, a Praia do Malhão, extensa e cercada de dunas.

Não há estrutura alguma; então, quando bater a fome, pedida é rumar para Cercal, outros 15 minutos adiante, pela N390. No vilarejo, fica um restaurante supersimples e delicioso de comida caseira, O Passarinho, para comer e lembrar da casa da vovó.

A deserta Praia do Malhão, em Vila Nova de Milfontes (Alexander Spatari/Getty Images)

Curta o fim detarde e passe a noite na Herdade do Reguenguinho, um oásis com decoração de toques orientais, paredes coloridas e uma deliciosa piscina de borda infinita com vista para o campo. As palafitas, ideais para casais, têm paredes inteiras de vidro e hidromassagens no meio do quarto. Não há restaurante na pousada, mas é possível pedir um bom vinho e lanchinhos.

Toques orientais nos quartos da Herdade do Reguenguinho (Herdade do Reguenguinho/Divulgação)

DIA 2

Ponto de partida: Cercal do Alentejo
Ponto de chegada: Sagres
Percurso: 117 km

Ponto alto da Herdade do Reguenguinho: o café da manhã não tem hora para acabar. As delícias ficam à espera do mais preguiçoso dos hóspedes – e panquequinhas ainda são preparadas na hora. Se o dia estiver bom, peça uma mesa na varanda ou na piscina.

Depois do check-out, siga por pouco menos de uma hora até Odeceixe pela N393, cruzando o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, uma das regiões mais bonitas do país.

Não bastasse a vila no topo da falésia ser fofíssima, a praia é de cair o queixo: uma língua de areia banhada pelo mar esmeralda e pelas águas transparentes do Rio Seixe.

A faceta Guarda do Embaú de Odeceixe, a praia que exibe uma língua de areia (Inaquin/Alamy/Diomedia/Reprodução)

Antes ou depois de um mergulho, vale provar as delícias da Taberna do Gabão, um restaurante de ares rústicos que serve ótimos frutos do mar – uma boa pedida é a feijoada de chocos, um molusco marinho que lembra o polvo.

Prepare-se para estar no fim de tarde na Fortaleza de Sagres, uma construção do século 15 erguida em um promontório sobre o mar justamente onde se cruzam as rotas de navegação do Atlântico e do Mediterrâneo. A viagem até lá demora cerca de uma hora.

O castelo, onde há uma imensa rosa dos ventos, foi erguido para defender as embarcações do ataque de corsários e era frequentemente palco de batalhas. O visual de lá no pôr do sol é imbatível.

Estique a noite em Sagres, no moderninho hotel Memmo Baleeira, que descortina lindas vistas do mar. O jantar pode ser no restaurante Terra, que serve bons pescados e receitas italianas.

Tradicionais pratos portugueses (Visit Portugal/Divulgação)

DIA 3

Ponto de partida: Sagres
Ponto de chegada: Lagos
Percurso: 32 km

Meros 32 quilômetros (via N125) separam Sagres da paisagem mais emblemática do Algarve: imensas falésias coloridas que emolduram praias de águas transparentes e calminhas.

O cartão-postal da região nesse quesito é Lagos, uma cidadezinha cheia de charme de 30 mil habitantes. O centro histórico, antigamente cercado por uma muralha erguida no século 16 (hoje ainda se vê parte dela), se espalha ao redor da marina e esconde simpáticas pracinhas e bonitas igrejas, como a de Santo Antônio, de arquitetura barroca, e a de Santa Maria, que começou a ser construída no século 15.

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Depois de fazer o check-in no hotel – que pode ser o Marina Rio, no coração do centrinho -, a pedida é ter um dia de relax à beira-mar. Atenção: prepare um lanchinho porque as praias mais bonitas não costumam ter estrutura de bares e restaurantes.

Para deixar o queixo cair com paisagem, a pedida é ir logo para a Praia de Dona Ana ou a do Camilo. E, independentemente da escolhida, inclua um passeio de barco pelas grutas da região, localizadas nos arredores da impressionante Ponta da Piedade. empresa Bom Dia organiza várias modalidades de tours que saem da Marina de Lagos.

A Ponta da Piedade, a mais incrível paisagem de falésias do Algarve (LucyNanock/iStock)

Feche o dia com um gostoso passeio a pé pela cidade. Para jantar, duas opções são campeãs.

Quer uma alternativa gostosa de sabores portugueses pertinho de tudo? O tradicional Dom Sebastião serve peixes e frutos do mar fresquíssimos – basta escolher dos aquários locais. No menu, há opções como os mexilhões ao molho de espumante e a cataplana de amêijoas (vulgo vôngole) e camarões.

Mas, se preferir uma refeição gourmet, pegue o carro novamente e rume para o Bon Bon, a cerca de 40 minutos do Centro, para provar invencionices deliciosas e gourmetizadas. Os pratos que compõem o menu degustação, que pode ser de quatro, cinco ou seis etapas, parecem obras de arte. Há opções de harmonização de vinhos com cada prato.

O salmão do Bon Bon faz jus ao nome do restaurante (Bon Bon/Divulgação)

DIA 4

Ponto de partida: Lagos
Ponto de chegada: Sevilha
Percurso: 298 km

O Algarve aqui sugerido não inclui grandes resorts, campos de golfe, marinas milionárias. A proposta é descobrir cantinhos surpreendentes e fora do óbvio. Hoje é dia de mais uma dose – e também de atravessar a fronteira e já dormir na Espanha.

O primeiro ponto de parada é Olhão, cerca de 100 quilômetros adiante, uma graça de cidadezinha em que o mar fica coalhado de coloridos barquinhos de pescadores. O mercado de peixes é, aliás, uma atração imperdível, agitado de manhã, quando os homens regressam do mar.

O Centro está recheado de casas branquinhas de janelas azuis e cinza, mas a grande estrela da região é justamente o cenário onde ela está inserida, em pleno Parque Natural da Ria Formosa, um ecossistema formado por braço de mar, lagos, salinas, areais e ilhotas que se estende da vizinha Faro até o nosso próximo ponto de parada: Tavira.

A Ria Formosa, um dos ecossistemas mais singulares de Portugal (CSP_Amabrao/Keystone/Reprodução)

Por isso, a pedida é seguir por meia hora pela N125, que corta a reserva beirando o mar. Não bastasse seu belo centro histórico, dono de lindas fachadas coloridas gastas pelo tempo e ruelas calçadas com pedra, Tavira ainda é guardada pelas ruínas de um castelo, lindas igrejas e uma bela ponte de origem romana com sete arcos sobre o Rio Gilão.

Na hora do almoço, “polvomaníacos” não podem deixar de seguir por 20 minutos até Vila de Santa Luzia, conhecida como a “capital nacional do polvo”. A Casa do Polvo Tasquinha serve o molusco de todas as maneiras imagináveis – grelhado, empanado, carpaccio…

Quem preferir uma refeição mais incrementada deve seguir para o Monte Rei Golf & Country Club, onde o chef Albano Lourenço prepara delícias no restaurante Vistas, 40 minutos do Centro de Tavira. Para começar, tem gaspacho de morango; entre os pratos principais, lombo de peixe ao molho de ostras com açorda de tomates e espuma de açafrão; para o grand finale, leite-creme gratinado com sorvete de baunilha e telha de pistaches.

Energias repostas, é hora de encarar o trecho final da viagem: uma esticada até Sevilha, a 175 quilômetros de distância pela A22 (em Portugal), seguida pela A49 (na Espanha).

La Giralda, a elegante sentinela de Sevilha (David Constantine/Getty Images)

Instalado em uma mansão de 1864 e três andares, o Hotel Casa 1800 Sevilla tem localização perfeita para explorar a cidade a pé.

A caminho do jantar, que pode ser no La Mamarracha, aproveite para ver de perto impressionante La Giralda, minarete de quase 100 metros de altura erguido durante o domínio árabe da Andaluzia, e sua contígua catedral. No restaurante, a meros cinco minutos a pé, especialidade são as receitas preparadas na grelha – carnes, pescados e verduras.

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DIA 5

Percurso: o melhor de Sevilha

Comece o dia com um passeio que não poderia ser mais típico: visitando a Real Maestranza de Caballería de Sevillaa mais emblemática praça de touros da Espanha, erguida entre os séculos 18 e 19 – só não é mais antiga que a de Ronda, mas é palco das touradas mais famosas.

Um museu conta em detalhes a história dessa polêmica tradição no país e mostra todo tipo de artefato relacionado à tauromaquia.

A azulejaria hispano-mourisca é uma festa para os olhos e para os smartphones (Visit Portugal/Divulgação)

O caminho do hotel até lá (menos de dez minutos) vai passar novamente pela Catedral de Sevilha e pela Giralda – e o momento é ideal para quem quiser visitar os monumentos por dentro.

Depois dos tours, que venham as tapas! Pouco mais de cinco minutos de caminhada levam até o incrível Mercado Lonja del Barranco, projetado por Gustave Eiffel e recuperado recentemente. É o endereço ideal para provar os famosos petiscos andaluzes de bar em bar.

Deixe a sobremesa para outra instituição local incontornável, sorveteria La Fiorentina (Calle Zaragoza, 16), comandada pelo famoso chef Joaquin Liria.

Dedique a parte da tarde para mergulhar no passado mouro da cidade no Real Alcázar, um complexo de palácios reais que começou a ser construído no século 10 pelo califa Abd al-Rahman III (da sorveteria até lá são menos de 15 minutos decaminhada). Não se esqueça de reservar a entrada com antecedência pelo site.

A arte mudéjar no Pátio das Donzelas, dentro do Real Alcázar (Paul Williams/Getty Images)

Outros 15 minutos pela Calle Francos funcionam como um túnel do tempo em direção ao futuro. O projeto Metropol Parasol, mais conhecido como Las Setas de Sevilla, é uma estrutura gigantesca que lembra aforma de cogumelos (setas, em espanhol) projetada pelo arquiteto Jurgen Mayer.

Inaugurado em 2011 na Plaza de la Encarnación e rapidamente alçado a cartão-postal, o lugar abriga um museu arqueológico e um mirante.

O formato waffle-cogumelo do Metropol Parasol, em Sevilha (Westend61/Getty Images)

A poucos passos das setas está a Calle Regina, que se tornou a região comercial mais fofa da cidade após uma revitalização que fez surgir cafés, livrarias e butiques independentes, um típico comércio de bairro com aura cool. Espie as roupas femininas e os acessórios da La Seta Coqueta e pare para um expresso no Virgin Coffee.

Agora é preciso tomar uma decisão: glutões de plantão podem seguir para um dos mais tradicionais restaurantes da cidade ali do lado, o El Rinconcillo, e se deliciar com a grande variedade de tapas, como croquetes e tortillas, além de uma ótima seleção de queijos e jamóns; ou rumar para a região beira-rio novamente e assistir a um espetáculo de flamenco no Tablao El Arenal.

El Riconcillo, servindo bem desde 1670 (Miguel González/Laif/Reprodução)

Há duas apresentações diárias, às 19h30 e às 21h30, e é possível combinar a entrada com drinques e jantar. Aceita um conselho? Eu, se fosse você, garantiria o flamenco e o Rinconcillo, ainda que os percursos incluam alguns vai e vem. O “sacrifício” valerá muito a pena.

O vigor e a exuberância do flamenco (Andrea Pistoles/Getty Images)

DIA 6

Ponto de partida: Sevilha
Ponto de chegada: Granada
Percurso: 349 km

Prepare-se para um intensivão de Espanha moura nos próximos dois dias. Andaluzia, região no extremo sul do país, foi a última peça de resistência na expulsão dos árabes da Península Ibérica, cujo domínio se estendeu do século 8 ao 15 e deixou um belo legado.

O primeiro destino é a encantadora cidade de Córdoba, capital daquele período, uma joia às margens do Rio Guadalquivir – até lá são 140 quilômetros pela A4. Ao chegar, vá direto ao que interessa: Mesquita de Córdoba, construída no auge dos tempos áureos da cidade, no século 9.

Seu highlights são as colunas simétricas erguidas em tons de bege e vermelho e que formam belas composições de acordo com o ângulo.

A Mesquita de Córdoba e sua sucessão de salas com colunas simétricas (William Perry/Getty Images)

Na saída, vale caminhar pelas ruelas estreitas nos arredores antes de pegar o carro e almoçar no ReComiendo, que tem como filosofia pegar receitas tradicionais da região dando a elas ares moderninhos e ousados.

Sob o comando do chef Periko Ortega, com passagem por restaurantes estrelados do país, saem criações como a ropa tendida, uma alusão às roupas no varal, que traz fatias finíssimas de presa ibérica (um tipo de embutido), amarradas num cordão em miniatura.

Granada, a 208 quilômetros pela A45 e A92, é o último destino – e o trecho final de estrada – deste roteiro. A cidade tem uma tradição que é perfeita para comemorar o feito: em todos os bares, as tapas são gratuitas quando se pede uma bebida.

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Encerre a noite no clássico Chikito, que tem no menu de gaspacho a rabo de touro.

Para ficar perto de tudo, o Hotel Casa 1800 Granada tem uma ótima relação custo/benefício. Instalado em um casarão do século 16, fica no coração do bairro mais interessante da cidade, Albaicín.

Albaicín, charmoso bairro árabe de Granada (John Harper/Getty Images)

DIA 7

Percurso: o melhor de Granada

Coroando a colina de La Sabika, com as montanhas da Sierra Nevada como pano de fundo, está um dos maiores, mais impressionantes e mais visitados monumentos espanhóis: a Alhambra.

Inicialmente erguida como fortaleza, se transformou em palácio real e é hoje um belo complexo de edificações recheado de pátios, salões decorados aos mínimos detalhes e lindas fontes. É fundamental reservar a entrada com antecedência pela internet. Permita-se ficar com calma, reparando em cada cantinho.

O Mirador San Nicolas é o melhor lugar para clicar a Alhambra no fim de tarde (Adivin/Getty Images)

Ao sair, já deve ser a hora do almoço. Volte para o bairro de Albaicín e cacife uma mesa nos jardins do restaurante Carmen de Aben Humeya para continuar apreciando o monumento de camarote. Da cozinha do chef Rubén Jiménez saem pratos como o arroz cremoso de bogavante (uma espécie de lagosta), o cordeiro com espuma de queijo de cabra e o tataki de atum.

Depois, perca-se pelo labirinto de ruelas dos arredores, onde o casario branquinho esconde gostosas casas de chá. Encerre a viagem no centro histórico, com a catedral dominando o cenário. E faça brindes, muitos brindes (acompanhados de tapas!) de bar em bar, como manda tradição espanhola.

Típico azulejo andaluz (Visit Portugal/Divulgação)

Quando ir

Como este roteiro inclui praias, o ideal é fazê-lo no verão, especialmente nos meses de junho, julho e setembro. Esqueça a ideia de entrar no mar feliz e contente sem hesitar – o Atlântico é mais gelado por aqui; então, é bom que o sol esteja firme.

Agosto é o ápice da temporada e das férias escolares – e, além do forte calor, está tudo lotado, com direito a preços mais altos, filas e congestionamentos.

A maior festa andaluza, uma das mais importantes da Espanha, é a Feria de Sevilla. A cidade fica animadíssima – mas também lotada e mais cara. Se a ideia é ir nessa época, é bom garantir todas as reservas com antecedência.

Texto publicado na edição 256 da revista Viagem e Turismo (fevereiro/2017)

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