Vibrante, colorida e caribenha: o melhor de Cartagena, Colômbia

Não faltam atrativos para se empolgar na terra Cartagenera, o lugar mais baratex, festeiro e magicamente realista da Colômbia

Mulher senta-se na fachada de uma casa típica colombiana, à direita da foto. À esquerda, uma trepadeira surge de dentro da janela

Uma das tantas fachadas de tons chamativos

Uma enorme fortaleza, cheia de desníveis, com um casal de pessoas andando em direção a um de seus portais

O Castillo de San Felipe de Barajas (James Quine/Latinstock/Divulgação)

Festa na casa do Gabo

“O que importa na vida não é o que acontece com você, mas o que você lembra e como você lembra.” Um viajante que passa por Cartagena de las Indias se recordará de sua estada como um desses momentos que devem ser rememorados, uma dessas lembranças de vida inteira bem definidas na pensata de Gabriel García Márquez.

Gabo, aliás, usufruiu como poucos dessa Paraty hispânica movimentadíssima. Rodeada por uma muralha edificada em 200 anos, a capital do departamento de Bolívar tem casas coloridas, praças com fontes, agitos noturnos, charmosos gastrobares e hospedagens – e uma população sorridente predominantemente negra e com nomes anglo-saxônicos, que se mistura a uma manada de gringos, de jovens mochileiros a famílias, de escandinavos a brasileiros.

Além de tantas virtudes, tem Caribe, o tremendo. Esse caldeirão, condimentado pelos preços atrativos aos bolsos tupiniquins e às corriqueiras ofertas de voos, deixa o destino tão tentador quanto uma arepa bem feitinha. Seguramente, não há localidade latina mais cool para festejar a sua existência.

As grandes atrações são fáceis de alcançar a pé, desde que você escolha estrategicamente a latitude do pernoite, que tem de ser num quarto com ar-condicionado, pois o calor e a umidade são implacáveis. Os táxis são tão baratos quanto detonados combine o preço antes, não há taxímetro.

O Portal de los Dulces, galeria com arcadas onde se vende de tudo, inclusive doces (Egary C Tognoni/iStock)

Interior de um café movimentado, com fotomontagens de personagens importantes para a salsa nas paredes

O Café Havana, uma instituição da salsa (Divulgação/Divulgação)

Mulher passa em frente a um muro grafitado com os rostos de um homem e duas mulheres

Grafites do bairro Getsemaní (Laurie Castelli/Getty Images)

Mas se fica dependendo deles mais que o desejado em bairros disputados como Bocagrande, onde acaba de abrir o hotel Hyatt Regency, e El Laguito, uma península chique. Melhor permanecer no muro ou seja, no interior do polígono formado pelas muralhas do século 16 , em bairros como San Diego e Centro, que misturam tudo o que interessa de cartões-postais, ou Getsemaní, cheio de grafites e com hospedagens e restaurantes mais econômicos.

São comuns guest houses charmosas, com café da manhã, piscina e chuveiro quente, terem diárias a partir de 190 000 pesos colombianos (uns 205 reais), enquanto hostels-balada como o Mamallena ofertam habitaciones privadas por 120 reais a diária do casal. Getsemaní é astral. O vai e vem por suas calles vara a madrugada, principalmente no Maracanã da salsa, o Café Havana.

Vencida a porta com os seguranças mais antipáticos da Colômbia, bandas com decanos salseiros arrebentam, impossível não bailar. No menu, um “mojito mundialmente famoso” mas que me deu azia a hortelã boiava na birita. Melhor ir de cuba-libre, de preferência numa quarta, quando os 20 000 pesos de entrada são consumíveis.

O Havana está a dois quarteirões do epicentro cartagenero, que junta dois dos lugares que ambientaram O Amor nos Tempos do Cólera, ainda que no livro de Gabo Cartagena seja tratada com o nome de Macondo: a Torre del Reloj, de 1601, e o Portal de los Dulces, galeria com arcadas cheia de barraquinhas que vendem doces típicos, açucarados, melados pra burro.

A Chiva Rumbera, um bus-balada antigaço (Alejandro Yaluk/Flickr)

Dali parte outra grande experiência boêmia: a Chiva Rumbera, bus-balada antigaço. Dentro, uma banda vai fazendo um som, e o ingresso te libera licor Barra Libre, refri, empanadas. A chiva roda por pontos turísticos como o Castillo de San Felipe de Barajas e, por fim, deixa a galera numa balada como a Taboo, com entrada na faixa.

A torre é perto do Muelle de los Pegasos, porto de onde zarpam os barcos Caribe afora, que foi dos maiores pontos espanhóis para escoar o ouro das Américas. Como as águas de Cartagena são escuras, terás de navegar meia horinha para imergir em H2O turquesa.

Prato típico servido em uma mesa simples de madeira

O peixe com arroz de coco e patacones servido no passeio de barco até a Isla del Pirata (Superstock/Glow Images)

Cabanas em cima do mar claro e abaixo de um céu limpo e ensolarado

As Islas del Rosario, desse jeito fica difícil evitar o adjetivo “paradisíaco”… (Deposit Photos/Glow Images)

Islas del Rosario (27 ilhas, no total) é daqueles lugares que faz cair cedo da cama notívagos como eu, que pego no tranco como um Voyage 1987 a álcool. O melhor dos passeios exige um dia todo na privativa Isla del Pirata, onde tem um hotel chique em que a gente se refestela em espreguicadeiras de cara pro Caribe, faz snorkel, boia, sai, toma daiquiri, mergulha de novo.

Provavelmente você não vai querer deixar esse vidão antes do almoço pra um bate e volta no Oceanario, a não ser que viaje com crianças. Aí você sai de novo daquela água-aconchego pra refeição, cuja estrela é o onipresente peixe combinado com arroz de coco e patacones, bananas-da-terra verdes e fritas.

Com a comida inclusa, o passeio custa, em média, 100 pesos (108 reais) nos tantos receptivos espalhados pelo Centro e por Getsemaní. Na hora de ir embora, evite os assentos dianteiros do barco, caso não queira ser alvejado por um spray aquático na cara.

Outro programa hedonista é a Playa Blanca, na Isla Baru. De barco, a ida e volta até lá dura quatro horas e sai a 50 000 pesos (cerca de 54 reais). Macete: se você está em turma eu estava em quatro pessoas , combine com um taxista, de preferência indicado pelo hotel, para que leve vocês cedo e busque no fim da tarde. Dá para fechar por 220 000 pesos (cerca de 235 reais).

Nosso chofer era o Lewis, mais um com nome de americano. Bonachão pacas, até na hora de concordar que os motoristas por lá buzinam o tempo todo sem motivo, e isso enche um pouco os pacová. Para se ter ideia dos preços camaradas que imperam por ali: comer na areia de Baru, de frente para o Mar do Caribe, um prato como o da Isla del Pirata custou 35 000 (37 reais). E foi uma das refeições mais caras da viagem.

A gastronomia empolga no mesmo nível em que os ambulantes sufocam. Não importa em qual trecho cartagenero: há ali os mais infatigáveis vendedores de suvenir, massagem, esmeraldas de pedigree duvidoso e até rappers ao som do reggaeton a fim de um troco eles espetam um pen drive numa caixa de som e fazem rimas de mesa em mesa, são como mariachis.

Um assédio similar vem das palenqueras, as moças com lindos vestidos amarelos e bacias com enormes arranjos à la Carmen Miranda equilibradas na cabeça que vendem frutas e se oferecem para fazer fotos, pagas.

Mulher em trajes de cores fortes carregando uma bacia de frutas em cima da cabeça. É possível distinguir meia melancia, três abacaxis, um abacate, bananas e mais uma fruta.

A palenquera em seus trajes típicos (Holger Leue/Getty Images)

Grupo de jovens aproveitam o clima quenta em café no topo de uma muralha fortificada em frente à praia

Pôr do sol no alto da muralha, no Café del Mar (Christian Heeb/ LAIF/Divulgação)

Após tanto frenesi no mar, nos agitos e nas ruas de paralelepípedo, talvez a busca seja por um clichê fofo dos destinos de praia: o pôr do sol, que atinge o máximo no Café del Mar, no alto da muralha. Chegue umas 5 da tarde, quando o bar abre, pois umas 6 e pouco o sol já caiu.

Veja o crepúsculo tomando uma limonada (pode ser alcoólica) com crema de coco. Esse líquido, mais denso que o nosso leite de coco, é vendido em latinhas e se mostra o melhor suvenir à disposição dos turistas nos supermercados. Ele manterá na sua casa o realismo e o gosto mágicos de Cartagena.

 

Easyjet latina

Rebenta da Copa Airlines e com base em Bogotá, a Wingo se lançou, em dezembro, como a nova companhia aérea low cost. Seus quatro Boings sobrevoam trechos entre 16 cidades e dez países da América Central e do Caribe, sem contar os voos domésticos na Colômbia.

Nas simulações surgiram passagens entre a capital e Cartagena por cerca de 50 reais, com taxas incluídas. Bagagens: 6 quilos para levar na mão e mais 10 para despachar. Há ainda outra low cost pra consultar, a VivaColombia.

 

Logo Ali

En Barranquilla se hace así: Conhecer a cidade da Shakira é também ir no rastro da cultura colombiana

A ciclovia da Avenida del Rio (onde Shakira pedalou e gravou o clipe La Bicicleta) (Alexander Tatis/Flickr)

Poucas cidades no mundo têm cabo eleitoral (e, por vezes, mecenas) de tal porte quanto Shakira é para Barranquilla. Ok, ela mora em Barcelona com o marido, mas não escanteia a raiz barranquillera. Quando recebeu o prêmio de Personalidade do Ano de 2011 do povo do Grammy, em Las Vegas, cantou En Barranquilla me Quedo, do conterrâneo Joe Arroyo: “Do Caribe aflora bela, encantadora, com mar e rio […] Barranquilla bonita, agora vou cantar com gratidão e amor”.

Está aí um resumo desse lugar de musicalidade pura a 100 quilômetros de Cartagena, alcançada com o bus Puerta a Puerta de agências como a Transportes MarSol, que pega o hóspede no hotel e faz o bate e volta por uns 50 reais. Quem está em turma e quer flexibilidade vai de táxi.

O empoderamento feminino não cessa na capital do departamento do Atlântico. A atriz e empresária Sofia Vergara também é daqui, assim como a estilista Silvia Tcherassi e Paulina Vega, apresentadora e Miss Universo 2014.

É tanta tradição de mulheres belas e inteligentes que o arquiteto Fausto Jalil, num ato pre-monitório em 1979, ergueu o edifício comercial Miss Universo, no bairro El Prado, com contornos da silhueta feminina, como homenagem, garante.

Talvez tu consideres parcialidade de Shak enaltecer tantas belezas, ainda mais porque ela ganhou uma estátua de ferro fundido com 5 metros de altura, diante do estádio do Junior, seu clube de coração. É que há cidades mais bonitas saindo da região central, a coisa é pobre, não melhora muito no bairro dela, El Limoncito, e o mar é escuro.

O bate e volta passa a se justificar na Avenida del Rio, rincão turístico inaugurado à beira do Rio Magdalena, cuja ciclovia recebeu em 2016 o pedalar dela, Shakira, que ali gravou o clipe La Bicicleta.

Há vários restaurantes, mas o más sabroso está a quatro quilômetros dali, há 63 anos: o La Cueva, frequentado em suas duas primeiras décadas pelo Grupo de Barranquilla, que reunia intelectuais como García Márquez, Botero e o pintor Alejandro Obregón. Não bastassem primores como a ñami ñami, sopa de mandioca, o icônico imóvel foi renovado em 2004, ganhando um museu.

E, se a Colômbia é vorazmente musical, isso é turbinado na segunda semana de setembro, com o Barranquijazz. O festival, que completa duas décadas, mescla apresentações (algumas delas gratuitas na Plaza de la Paz) de salsa, mambo, bolero, chá-chá-chá, samba e bossa-nova. Um festejo tão animado quanto o Carnaval, patrimônio pela Unesco com suas cúmbias e mapalés, tradicionais levadas colombianas, daquelas marcadas pelo tchacabum, tchacabum, tchacabum.

Texto publicado na edição 257 da revista Viagem e Turismo (março/2017)

 

 

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