O caminho é realizado ao caminhar

Caminho da Fé: 400 quilômetros de provações entre as cidades de Mococa e Aparecida do Norte

Segundo a monja Coen, zen-budista brasileira e missionária da tradição Soto Shu, com sede no Japão, ter fé é “comprometer-se a”. Leigo em zen-budismo, me comprometi com o redator-chefe da VT a percorrer o Caminho da Fé (www.caminhodafe.com.br), nome do trajeto de peregrinação brasileiro inspirado no Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. Comparado ao espanhol, o irmão brazuca é bem mais difícil, com trechos em que se percorre até 16 quilômetros de subida.

Aos 46 anos, com 1,78 metro de altura, 80 quilos, hipertenso e pré-diabético, andei durante longos 19 dias em meio à natureza, sobrevivendo com o mínimo necessário. Foram mais de 400 quilômetros, no interior paulista, de Mococa a Aparecida do Norte.

Fortalecido por meu comprometimento, segui uma rota sinalizada por setas amarelas pintadas em árvores e placas. Andei por estradas de terra, asfalto e ferro. Tudo isso sem me esquecer do maior de todos os desafios: eu mesmo.

Continuo leigo no budismo, mas fortaleci minha fé e, agora, compartilho com Buda: “Eu, a grande Terra e todos os seres juntos somos o Caminho”.

No Terminal Rodoviário Tietê, em São Paulo, peguei um ônibus até Mococa, onde encontrei um primo, Marcelo, que, aos 56 anos de idade, quis fazer o caminho comigo “para testar seus limites”. No Plaza Hotel (Rua Barão de Monte Santo, 794, 19/3656-0103), compramos nossa Credencial de Peregrino (R$ 5) – a minha foi a de número 10 540 – para ser carimbada nos locais por onde deveríamos passar e, assim, sermos reconhecidos como peregrinos ao fim do percurso. Recebemos, ainda, uma relação de pousadas onde poderíamos ficar.

O Portal do Caminho da Fé, atrás da Igreja de Nossa Senhora Aparecida de Mococa, é o ponto de saída para a peregrinação. De lá andamos 19 quilômetros até a primeira cidade-pouso, São José do Rio Pardo (SP), onde livrei-me de minha mochila de 2,56 quilos, despachada pelo correio para São Paulo (quanto menos peso, melhor). São Sebastião da Grama, 25 quilômetros adiante, e São Roque da Fortuna, mais 16 quilômetros, foram nossas próximas paradas. Até aqui a chuva forte não deu trégua.

Com meu pedômetro marcando 83,18 km, chegamos a Águas da Prata. Era nosso quarto dia de perigrinação. Fomos direto à sede da Associação dos Amigos do Caminho da Fé, onde funciona o albergue em que nos hospedamos, a Pousada do Peregrino (Avenida Washington Luís, 347, 19/3642-2752; diárias desde R$ 18, sem refeições). Conversando com os associados, descobri que as 27 cidades incluídas no roteiro do Caminho da Fé contribuem para a entidade doando de R$ 100 a R$ 500 – varia de acordo com o número de habitantes. Na cidade, a Casa de Frutas e Cia. (Avenida Washington Luís, 423, 19/3642-2195; 2ª/sáb 6h/22h, dom 6h30/19h) é excelente opção para o café da manhã e faz entregas. A bandeja com suco, pão com queijo, pingado e salada de frutas custa R$ 8.

5º ao 8º dia

Saímos de Águas da Prata às 8h05. Já na primeira subida em direção ao Pico do Gavião dá para ver a cidade de São João da Boa Vista. Ali, um dos momentos mais relaxantes e instigantes do caminho: a Ponte de Pedra. A ação do vento e da água se incubiu de cavar uma enorme pedra, transformando-a em uma ponte. A parada é fundamental para um belo banho e para recarregar as energias para a forte caminhada a seguir.

A 298 quilômetros de Aparecida está a Pousada do Pico (a 500 metros do Sítio Pinheirinho, 35/3731-0810; diárias desde R$ 30), já na mineira Andradas, onde passamos a noite. Bem parecido com as hospedagens do Litoral Norte de São Paulo, o local costuma abrigar os adeptos de voo livre da região, uma das melhores do Brasil para a prática desse esporte. Lá, conheci Benedito Gomes (35/9944-0977), um senhor de 75 anos que há 40 é motorista de táxi e faz passeios ao Pico do Gavião (R$ 80). Depois, seguimos pela Serra dos Lima, sem “s” e também sem água. Passamos na Pousada da Dona Natália (35/9955-5142), onde carimbamos nossa credencial e nos reabastecemos. Pousamos no bairro de São Pedro da Barra, cheio de paisagens bucólicas, carimbamos a credencial em Crisólia e fotografamos a estátua gigante do Menino da Porteira em Ouro Fino. Ali, despachei mais 2,6 quilos para São Paulo e Marcelo, infelizmente, desistiu da caminhada por causa de dores no joelho. Dormimos na Pousada Brasil Colonial (Rua Coronel Gustavo Barbosa, 135, 35/3441-1721; diárias desde R$ 30; Cc: D, M), um dos antigos casarões da cidade.

9º ao 14º dia

Meu pedômetro marcava exatos 163,73 km quando eu reiniciei a caminhada sob chuviscos. Ter deixado meu primo e seguido solitário pelo caminho só foi possível para mim porque tenho fé. Afinal, “me comprometi a”, lembra? Tucanos e gaviões, que surgiam do nada, pareciam me espreitar. Fui rezando até Inconfidentes. Lá, parei no Bar do Maurão (Avenida Alvarenga Peixoto, 215, 35/3464-1028; 2ª/dom 6h/18h), carimbei a credencial e comprei uma papete para salvar meu tênis da chuva.

Depois de muito perguntar e andar perdido num perigoso asfalto sem acostamento, consegui chegar a Borda da Mata. Hospedei-me no Hotel Village (Rua Salvador Orlandi, 145, 35/3445-1907), que também já serviu de pouso a, pasme!, Belchior… Na cidade, a Barraca do Tukas (na Praça da Matriz) vende o melhor sorvete artesanal (R$ 2 a bola).

No dia seguinte, com céu limpo e sem chuva, me arranquei para Tocos de Mogi. Depois, segui para Estiva, Consolação e Paraisópolis, que tem a melhor hospedagem até aqui, a Pousada da Praça (Praça Getúlio Vargas, 149, 35/3651-2458; diárias desde R$ 35; Cc: V), com direito a escalda-pés e máquina de lavar roupa. Dali, o caminho até Luminosa é o mais bonito do percurso. Pude avistar a cidade de Brasópolis, que abriga o Observatório Pico dos Dias, onde está o maior telescópio no país, e parte da Serra do Quebra Perna, meu monstro maior.

15º ao 18º dia

Subir o primeiro trecho não foi fácil. O sol estava bem forte quando cheguei à Pousada da Dona Inês (a 4 km de Luminosa, 35/9905-9051; diárias desde R$ 20),onde carimbei a credencial e experimentei um dos melhores queijos com geleia de jabuticaba. Depois subi, subi e subi até avistar Campos do Jordão. O pedômetro marcava mais de 300 km quando deixei a mochila na Pousada Barão Montês (Estrada Campo Serrano, 12/9733-3421, 12/3662-4288 e 12/9774-0492; diárias desde R$ 30), em São Bento do Sapucaí. Lá, conheci Flavio Gallo, o único peregrino que fazia o caminho a pé como eu e que foi meu acompanheiro até Aparecida.

No caminho para Campos, um presente: uma parada na Pedra do Baú para apreciar o visual. Já na cidade, o restaurante Bom Petisco (Avenida Dr. Januário Miráglia, 2696, 12/3664-2785; 2ª/sáb 11h/20h30; Cc: M, V; Cd: M, V), o único que cabe no bolso de peregrino, serve PFs por R$ 6. No dia seguinte, foram mais 22 quilômetros até Piracuama. Caminhamos por uma estrada de ferro, andando sobre os trilhos. Na Estação Ferroviária Eugênio Lefévre, em Santo Antônio do Pinhal, fizemos uma pausa no Bolinho de Bacalhau & Cia. (Estação do Bondinho, 12/3666-1332,2ª/6ª 8h/18h, sáb/dom 8h/19h; Cc: M, V; Cd: M, V). Lá de cima, avistamos Taubaté, Pindamonhangaba e o Vale de Piracuama.

Dali até Pinda é o pior trecho. Andamos por uma estrada movimentada e sem acostamento. Mas, na entrada da cidade, o milagre: a placa mostrava 32 quilômetros até Aparecida. Ficamos no Hotel Brasil (Rua 10 de Julho, 48, 12/3643-2229; diárias desde R$ 65; Cc: M).

Enfim, Aparecida

No último dia, segui a rotina de sempre. Enchi as garrafas com água fresca, chequei as baterias do celular e da máquina fotográfica, tomei café e, pela 19ª vez, tudo estava pronto. Saímos de Pindamonhangaba às 7h15. O mormaço estava severo. No caminho, nada de mais. Só asfalto. Em Roseira, carimbei minha credencial e, às 14h30, cheguei à Basílica de Nossa Senhora Aparecida. Recepcionado pelo badalar dos sinos, chorei. Só aí tive certeza de que eu tinha fé, pois cumpri o que havia me comprometido a fazer. Fui até a imagem da santa e agradeci. Agradeci a ela, à monja Coen e a todos que conheci. Na secretaria, conquistei meu último carimbo (26 no total) e o Certificado de Peregrino (R$ 5).

Despedi-me de Flavio e parti num ônibus de volta à rodoviária do Tietê. No caminho, senti algo que pode ser traduzido pelas palavras do mestre de ioga Shotaro Shimada, já falecido, publicadas no livro A Ioga do Mestre e do Aprendiz – Lições de uma Vida Simples para a Plenitude: “Aprendi a aceitar o que me é dado como vier. Tenho a profunda certeza de que sou dirigido por algum princípio inteligente, e me entrego a essa direção com devoção e fé. É preciso fé, porque não sabemos o que se passa conosco, só achamos que sabemos; se soubéssemos, a fé seria desnecessária”.

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