Muito mais que jazz: veja roteiro de 48 horas por Nova Orleans

O berço do jazz vai muito além de uma catástrofe ambiental

Em um daqueles momentos que parecem saídos diretamente de um filme, um taxista nascido e criado em Nova Orleans me disse que a cidade era algo como o Brasil antes mesmo que eu revelasse minha nacionalidade. Quando pedi explicações, o homem se perdeu: concluiu que, pelo que lia e assistia por aí, brasileiros eram felizes mesmo enfrentando diversos problemas no dia a dia.

Talvez essa seja a melhor maneira de descrever a cidade sem citar a palavra ‘jazz’. Vítima de um furacão que tirou mais de 1.400 vidas e deixou outros milhares desabrigados, a cidade que já sofreu muito nos tempos de escravidão parece encontrar, sempre, um jeito de se levantar ainda mais forte e elegante.

Engana-se quem, iludido pela pequena população (384 mil pessoas, segundo dados de 2014) e a grande oferta de turismo, acredita que a missão de escolher o lugar para almoçar ou a melhor maneira de passar a noite será fácil. Nova Orleans seduz justamente por ser tão plural e acolhedora.

Conhecer a capital do estado da Louisiana e não voltar é tarefa hercúlea. Mas, se você tem apenas um par de dias para gastar na terra de Louis Armstrong, Irvin Mayfield e tantos outros nomes importantes para a música mundial, não se preocupe: será tempo suficiente para ser acolhido pela Big Easy.

Dia 1

Se você deseja comprar souvenirs e lembranças de viagem, torne essa sua primeira tarefa e dê um pulo no French Market, um grande mercado a céu aberto que condensa muito da cultura de Nova Orleans: quadros do cantor e trompetista Louis Armstrong, muita arte da tradição voodoo (extremamente forte na cidade, graças aos escravos levados por franceses e espanhóis) e roupas ficam disponíveis a preços muito mais amigáveis do que nas outras lojas feitas sob medidas para turistas.

Com a carteira um pouco mais vazia e o apetite mais cheio, dê um pulo no bairro de Bywater e encante-se com a população cada vez mais jovem que está migrando para o local. Antes uma localidade quase abandonada, Bywater concentra grande parte da juventude alternativa de Nova Orleans, combinada com estabelecimentos que honram a tradição e já se firmam ali há um bom tempo.

The Joint é um desses lugares. A churrascaria, fundada em 2004, ainda não se transformou em um destino manjado para turistas – o que mantém seus preços justos e deixa o serviço ainda melhor. Não se surpreenda com a doçura excessiva da garçonete: o povo de Nova Orleans é um dos mais receptivos que você irá conhecer. Os pratos de pork ribs e beef brisket caem muito bem para acompanhar as boas vindas calorosas.

Continue caminhando por Bywater e, se possível, dê um pulo no Markey’s Bar, um pub com uma carta incrível de cervejas e que, mesmo no meio da tarde de um dia de semana, não estará vazio.

Depois de tomar um (ou cinco) pints, vá direto para o Garden District e sinta ainda mais a força da cultura voodoo com uma visita ao Lafayette Cemetery. Se o lugar não te der arrepios, corra para o bairro de French Quarter e agende um tour fantasma na New Orleans Legendary Walking Tours, uma agência especializada em levar turistas a pé para os lugares mais interessantes (e assustadores) da cidade. O passeio mais interessante começa às 19h, mas não pense que você ouvirá apenas histórias de gelar a espinha: os guias conhecem muito sobre as raízes de Nola e dão uma verdadeira aula de história para o público.

Após caminhar por prédios históricos e hotéis abandonados, o único lugar possível para encerrar a noite é a Bourbon Street. Localizada no quarteirão do French Quarter, a rua foi, em outras épocas, o grande centro musical da cidade, atraindo dezenas de músicos para seus clubes boêmios e classudos. Hoje a Bourbon se transformou em uma grande festa, do início ao fim: são dezenas de bares e casas noturnas dos mais variados tipos – e não é uma simples generalização: você pode encontrar um clássico strip club em uma quadra e, na outra, esbarrar numa balada que atrai gente de todas as idades e estilos.

Dentre todas as opções, o lugar mais importante da Bourbon para um turista é o Tropical Isle. A cadeia de bares (são cinco em toda a extensão da rua) é responsável pelo drink mais famoso da cidade: a hand grenade (granada de mão, em tradução direta). Feita com gin, licor de melão, rum e vodka, a bebida é entregue numa taça gigantesca, com o formato do acessório que a batiza, e desce doce e suave.

O próprio bar avisa: com mais de duas ou três hand grenades, você pode descobrir que sabe dançar muito melhor do que imaginava. E que não há maneira melhor de encerrar a noite – mas, se você ainda tiver energias para continuar curtindo, vale dar um pulo na Irvin Mayfield’s Jazz Playhouse, uma das poucas casas musicais que ainda sobrevivem na Bourbon. Com shows todas as noites, o local ainda atrai o melhor da cena de jazz da cidade.

Dia 2

Ainda que seja imprescindível buscar achados em toda cidade que se conhece, para tentar fugir um pouco dos roteiros clássicos e óbvios, certos pontos turísticos não podem ser deixados de lado – e não seria diferente em Nova Orleans. Para começar o segundo dia na cidade, vá direto para o Café Du Monde, que existe desde 1862 e, como o próprio site descreve, “fica aberta 24 horas por dia, sete dias por semana, e só fecha no Natal e quando algum furacão decide passar perto de Nova Orleans”. Prepare o coração: o doce é servido com doses cavalares de açúcar de confeiteiro, e é bem difícil comer um só. O café mais pedido por lá acompanha leite – item obrigatório.

Depois de apreciar as delícias doces, aproveite a proximidade e rume direto para a Jackson Square, a principal praça de Nova Orleans. Você encontrará famílias, artistas de rua (entre músicos, pintores e malabaristas) e ainda poderá passar pela St. Louis Cathedral, uma das catedrais mais antigas dos Estados Unidos (sua construção foi finalizada em 1794).

Seu segundo almoço na Big Easy trará uma experiência gastronômica saborosíssima: o Po Boy. O lanche consiste em uma baguete de pão francês, tomates, alface, um tipo especial de maionese e camarões fritos – mas muitos restaurantes também oferecem outros tipos de frutos do mar no recheio. O trunfo do prato é justamente sua simplicidade: a junção dos ingredientes torna a refeição fantástica – tanto quanto sua história mais famosa: o nome deriva de poor boy, grevistas que operavam os bondes da cidade no final da década de 20 e enfrentavam represálias de seus patrões. Depois de passarem quatro meses protestando contra a companhia, os trabalhadores foram homenageados por dois donos de restaurantes, Benny e Clovis Martin, que criaram o sanduíche e passaram a distribuí-los gratuitamente para os grevistas. Uma vez no French Quarter, corra para o Johnny’s Po Boys, um dos lugares mais roots de toda a região.

A próxima parada é tão obrigatória quanto todo o resto desse roteiro: a Faulkner House Books entrega o que o nome promete: uma livraria feita no mesmo lugar que, um dia, foi morada de William Faulkner, um dos mais celebrados e importantes escritores americanos, que retratava o sul do país como poucos. Parte da mobília original ainda se encontra no local, incluindo a cama do vencedor do Nobel de literatura. Dica: procure por uma edição de “The Weary Blues”, livro do poeta Langston Hughes, um criadores do jazz poetry.

Com o corpo e intelecto alimentados, será preciso agradar aos olhos. Saia da livraria e pergunte para a primeira pessoa que encontrar na rua qual o caminho para chegar no rio Mississippi. A caminhada, que não deve durar mais que quinze minutos, te levará para uma região próxima do French Market, com uma das vistas mais bonitas que podem ser encontradas no sul do país: a imensidão do rio chega a assustar e, mesmo com os diversos navios carregados de turistas que desfilam pelas margens, é impossível não se surpreender com a mística das águas que praticamente cortam os Estados Unidos de cima a baixo. O pôr do sol, por ali, é espetacular.

Junto com o anoitecer, chega a hora de você experienciar o momento mais incrível de Nova Orleans – e que não havia aparecido no roteiro, até então, de propósito: a Frenchman Street. A rua concentra música, arte e gastronomia num espaço de três quarteirões, o que faz muita gente pensar que as opções são restritas e tudo de mais interessante pode ser visto em apenas uma ou duas horas. Não se engane: a Frenchman merece, no mínimo, uma noite inteira (e ainda não será possível entender sua imensidão cultural).

Para não perder tempo – e garantir que você irá aos clubes certos nas noites certas, acesse o site oficial da rua para ficar ligado no que acontecerá de melhor quando você chegar lá. Uma coisa, porém, é certa: não dá para sair de lá decepcionado. Entre os melhores clubes estão o The Spotted Cat, que não costuma cobrar mais que US$ 5 pela entrada e traz música ao vivo todas as noites; o D.B.A, que mistura jazz, blues e soul com músicos consagrados (o icônico John Boutte se apresenta por lá aos sábados) e o The Balcony Music Club, que tem uma atmosfera informal, mais espaço que os outros dois clubes e um acervo ainda mais plural de músicos. Esse último, porém, deve ser evitado pelos não-fumantes: como em alguns outros estabelecimentos de Nova Orleans, fumar na parte interna é permitido. Tenha em mente, também, que você não conseguirá escapar da música enquanto estiver nessa rua: a presença de bandas que tocam ao ar livre é gigantesca, e um espetáculo à parte.

O verdadeiro segredo para conhecer Nova Orleans, porém, não pode ser encontrado em nenhuma lista: ele está nas conversas com os moradores da cidade. De um barman de balada até um taxista que acredita viver no ‘Brasil dos Estados Unidos’, Nola é um tesouro que espera ser descoberto por cada um de seus visitantes. Na cultura vodu, durante um solo de saxofone, com seus deliciosos frutos do mar ou num simples passeio de bonde, é preciso explorar cada esquina (e cada conversa com um nativo) como se você nunca mais fosse voltar – ainda que essa, como eu já disse, seja uma tarefa quase impossível.

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