Medellín depois de Escobar: a cidade que deu a volta por cima

Com um povo de primeira e soluções urbanas criativas, a cidade deu uma rasteira no passado violento. Hoje é hospitaleira e cheia de vida cultural!

O Metrocable, transporte que leva a bairros mais altos e distantes (Carlos Mora/Glow Images)

Medellín voltou às notícias no fim de 2016 por motivos óbvios: a tragédia com o avião da Chapecoense. Eu estava na sala de embarque do aeroporto de Guarulhos, a caminho da Colômbia, quando o acidente aconteceu. Nos dias seguintes, testemunhei a consternação entre os colombianos.

As imagens do estádio em Medellín lotado de pessoas homenageando o time brasileiro são parte do melhor da Colômbia: o coração. A solidariedade está por trás do lema: “Un paisa no tiene amigos, un paisa tiene parceros“. Paisas são os colombianos da região de Antioquia, distrito onde fica Medellín. Tudo gente fina. E uma gente que mudou os rumos de sua cidade.

A Medellín de 2017 em nada lembra a da série Narcos. É um lugar convidativo, onde parques e praças incentivam a vida ao ar livre, museus e restaurantes atiçam a vida cultural. Há excelentes cafés e um mundo de coisas para fazer. É a “cidade da eterna primavera” (temperatura média de 24°C) e da inovação, com sistema de transporte público moderno e opções de lazer que vão de comida típica e descanso em pueblos nas montanhas a esportes radicais e lições de tango.

 

Circulando

Poblado, o bairro preferido dos turistas (Andres Duarte/Viagem e Turismo)

Os ônibus coloridos, na Plaza Cisneros (Cyril/Getty Images)

O Poblado é o bairro mais procurado por turistas, com fácil acesso ao Centro e à Zona Rosa, onde a vida noturna acontece. É a área mais gostosa da cidade, com alamedas arborizadas, lojas bacanas como a Galería Diseño, que trabalha só com designers colombianos, e a Caduto, com belos sapatos e acessórios de couro – ambas na Vía Primavera, a rua de butiques e cafés.

É a parte mais cosmopolita de Medellín, mas tem o élan colombiano: o gosto naturalmente adocicado do café, os bordados ricos das bolsas típicas da tribo Wayuu e o colorido das frutas e flores. No Poblado está também a maior parte dos bons hotéis, como Diez, Dann Carlton ou Casa Victoria, e hostels simpáticos como o butique Casa Kiwi ou o mais popular Blacksheep.

As bolsas da tribo Wayuu nascem assim (Jason Rothe/iStock)

Quem procura autenticidade não erra no 61Prado, casarão restaurado com pátio iluminado por velas, ótima base para explorar “el Centro” de Medellín.

Mais plano e menos cheio de turistas que o Poblado, Laureles é boa opção para hospedagens estilo Airbnb. É uma área chique, com ótimos lugares para compras. Vá ao La Tienda Imaginario, para objetos de decoração, e à multimarcas Origen, para conhecer estilistas colombianos.

Belén é um bairro de classe média que já foi perigoso e, hoje, por causa dos baixos preços nos aluguéis, recebe muitos jovens e pequenas famílias. Tem um grande parque e pastellerias (que vendem pães e doces) de bairro como a Legiseth prove os pães recheados com carne, queijos e vegetais.

E La América é uma área residencial que faz divisa com Laureles, com parques e restaurantes simples como o Empanadas Santiamen e o Madrigal, um dos melhores para comida típica.

Apesar de as linhas de ônibus, coloridos e às vezes com trilha sonora, cobrirem toda a cidade, é o metrô que os visitantes mais usam. É limpo, organizado, rápido e todas as estações têm mapas gratuitos do sistema de transportes. Para trechos mais longos ou à noite, use táxis: são baratos e não têm bandeira 2.

Uber também é comum na cidade. A topografia de Medellín não é a mais adequada para o pedal, mas ciclistas contam com uma rede de ciclovias que, apesar de curta, é bem organizada. O sistema de bikes Encicla é gratuito para visitantes em viagens curtas.

 

Um cafezinho…

Olha o capricho, no Pergamino Café (Divulgação/Divulgação)

Junto com o da Etiópia, do Quênia, da Indonésia e do Brasil, o café da Colômbia é considerado um dos melhores do mundo (veja mais na pág. 60). O Poblado é uma área perfeita para provar a bebida e tirar as suas próprias conclusões o bairro tem vários lugares para marcar um papo.

Cafeinômanos vão querer conhecer o Pergamino Café, premiado pela revista online Sprudge como um dos melhores cafés no mundo. Quem quiser aprender mais sobre a ciência e a arte da cafeteria encontra no El Laboratorio de Café o lugar ideal.

A marca tem quiosques em alguns pontos da cidade, mas tente agendar uma visita ao laboratório, onde são feitas as torras, as provas e os testes para determinar acidez, doçura e outras características dos grãos. E há a boa e onipresente cadeia Juan Valdez, equivalente local do Starbucks.

O centro e o tango

A arquitetura labiríntica do Centro Comercial Palacio Nacional – shopping popular no centro (Jane Sweeney/Getty Images)

A inconfundível escultura rotunda, claro, na Plaza Botero (Kike Calvo/Getty Images)

A região central de Medellín é parecido com os centros velhos de São Paulo e do Rio. Edifícios comerciais, antigos palacetes transformados em prédios governamentais, muita gente nas ruas. Os bons museus de Medellín estão na área e dão conta da diversidade cultural da cidade.

O Museu de Antioquia tem coleção permanente em 17 salas dedicadas à arte do país desde os tempos pré-colombianos, com muitas peças de Fernando Botero. Só o edifício, antiga Casa da Moeda, já vale a visita. Mesmo que você não tenha interesse nas formas generosas das esculturas do artista, tem de parar na Plaza Botero pra ver as 23 enormes obras de bronze que ele doou à cidade.

Do outro lado da rua está o Parque Berrío, pequeno e agitado, com ambulantes e artistas de rua. O Centro também é o lugar para vivenciar outra paixão local: o tango. Carlos Gardel morreu enquanto estava na cidade, em 1935, e Medellín abraçou o tango com fervor. Experimentar o gênero em lugares como o Malaga, salão que evoca a Medellín de antigamente, é um programão.

 

O verde

O Parque Biblioteca España (Pilar Mejia/Grupo Keystone/Divulgação)

O imesno aquário do Parque Explora (Divulgação/Divulgação)

O enorme Parque Arví, dentro da floresta nativa na região de Santa Elena, é escapada inevitável. Tem trilhas, borboletário, trechos de arvorismo e um mercado de produtos locais. A melhor forma de visitá-lo é usando o Metrocable. Parece um teleférico, mas é um sistema eficiente de transporte que alcança bairros distantes.

A gôndola de vidro sobe a montanha, passando por cima de casas da Comuna 1 de Medellín. Em seus 4 quilômetros de extensão, você vê aos poucos a aglomeração urbana dando lugar a uma imensidão verde. Pra chegar lá, pegue a linha L a partir da estação Santiago Domingo (4 600 pesos colombianos cada trecho uns 5 reais).

A cidade tem outros ótimos parques. O Jardín Botánico (metrô Universidad) é um respiro verde em que acontecem shows e festivais. O vizinho Parque Explora tem um dos maiores aquários da América Latina e atrações de ciência e tecnologia para crianças. E o Pueblito Paisa, uma caminhada de 20 minutos a partir do metrô Industriales, é uma réplica de um povoado no topo do Cerro Nutibara, no bairro Belén, com vista de 360 graus da cidade.

 

Comer, comer

Até Anthony Bourdain aprovou os pratos do Queareparenamorarte (Divulgação/Divulgação)

A cozinha colombiana tem uma vigorosa influência da colonização espanhola e das populações indígenas. Os restaurantes servem uma mistura criativa e saborosa entre culinária da avó e gastronomia de autor, quase sempre com ingredientes como feijões, banana-da-terra, milho e queijo.

O Queareparenamorarte (em Retiro, perto da cidade) é barato e bom para uma longa refeição informal, um lugar simpático onde já se sentaram Anthony Bourdain (apareceu no No Reservations!) e Ferran Adriá.

Nos restaurantes tradicionais como o Hatoviejo provam-se comidas típicas, fartas e saborosas, como chorizos, chicharrones (um tipo de torresmo), morcillas, arepas (uma tortilla fofa de massa de milho), patacones (disco de banana verde frita), empanadas, quesillo (queijo branco, macio e salgado) e o hogao, um molho delicioso de tomate e condimentos. Espere gastar cerca de 30 000 pesos por prato, ou 32 reais.

O prato típico de Antioquia é a bandeja paisa, prima distante e substanciosa do PF brasileiro, normalmente feito de arroz, feijão, carne moída, abacate, ovo frito, banana frita e chicharro. Dizem, os melhores estão nos pueblos ao redor da cidade, como o agradável Portón del Parque, em Santa Fe de Antioquia, e o La Fogata, favorito dos turistas em Guatapé.

De sobremesa, prove a mazamorra (creme de milho), o arroz-doce ou as compotas de frutas nativas como o tomate de árbol (frutinha com cor e fomato de tomate e gosto de laranja kinkan). Procure a deliciosa manga verde gelada, servida com sal e limão como um sorvete, em copinhos de plástico, e vendida por ambulantes. Pode soar um pouco estranho, mas dê uma chance.

Um bom passeio, menos turístico, porém ótimo para conhecer a variedade das frutas colombianas, é o Mercado Minorista. Se quiser circular e tirar fotos, faça isso pela manhã, quando é um pouco mais vazio.

Se quiser um tour profissional, com direito a garfos, facas e explicações sobre o que está provando, procure o Exotic Fruits Tour, da Real City Tours top 5 de rolês em Medellín no TripAdvisor.

 

E outros passeios

O Graffitour da Comuna 13 (Divulgação/Divulgação)

Parece Blade Runner: na Comuna 13, escadas rolantes levam moradores favela acima (Oscar Garces/Grupo Keystone/Divulgação)

Um efeito da série Narcos foi aumentar o interesse do público pela Hacienda Nápoles, antiga mansão de Pablo Escobar hoje transformada em um parque temático peculiar: você pode ver carros bombardeados e outras relíquias do narcotráfico.

Numa tentativa de deixar esse passado de lado, o lugar virou um grande parque de diversões com zoológico, hotel, borboletário, piscinas (uma delas com um tobogã coberto por um enorme polvo que espirra água, construído por Escobar para a filha).

Para conhecer outro lado da relação de Medellín com o narcotráfico, procure o Graffitour da Comuna 13, a maior das favelas de Medellín. O lugar foi um dos pontos essenciais na renovação da cidade.

Na mobilidade, o sistema de escadas rolantes que leva as pessoas até o topo do morro virou um “case” de boas ideias no transporte público. Na revitalização, a maior parte das ações de música e arte é feita pela própria comunidade. É uma oportunidade enriquecedora de ver como Medellín virou o jogo.

 

Eventos famosos

A Feria de las Flores, o festão da cidade (Oscar Garces/Grupo Keystone/Divulgação)

No Festival Internacional do Tango, colombianos declaram seu amor ao ritmo argentino (Divulgação/Divulgação)

O Festival Internacional do Tango quando a cidade escancara seu amor pelo ritmo argentino , na última semana de junho. Música também é o mote do Medejazz, o Festival Internacional de Jazz e Músicas do Mundo, com programação a partir de setembro.

As flores são as estrelas do maior e mais emblemático evento da cidade, a Feria de las Flores, que dura dez dias e tem seu auge no Desfile de Silleteros, quando campesinos descem dos pueblos e entram na cidade (de 28 de julho a 6 de agosto).

Medellín se ilumina com o Día de las Velitas, celebração tradicional, na noite de 7 de dezembro, que marca o começo das festas de fim de ano com velas alegrando ruas, praças, centros comerciais e janelas das casas.

 

Dicas de Insider – Checklist de Medellín

  • Passar uma noite no hostel Casa en el Aire, no Cerro San Vicente, Abejorral a três horas de ônibus de Medellín. É uma casa construída no topo de um penhasco enorme que oferece programas de aventura, como tirolesa, escalada, trilhas, ou tranquilos piqueniques na natureza.
  • Visitar Jardín, pra mim, a cidade mais bonita de Antioquia.
  • Passar um dia na colonial Santa Fe de Antioquia.
  • Curtir a noite de Medellín ao redor do Parque Lleras.

(Reprodução/Viagem e Turismo)

Daniel Tirado, Autor do best-seller (e blog) Viajando sin Papel Higiénico

 

Texto publicado na edição 257 da revista Viagem e Turismo (março/2017)

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