Como o Festival de Lanternas não foi nada do que eu esperava

A paisagem onírica que enfeita o fundo de tela dos computadores existe, mas ela vem com a realidade

Acho que a primeira lembrança do Festival de Lanternas de Chiang Mai, na Tailândia, foi o fundo de tela do Windows 2000. Aquele molecote se encantou com os minibalões iluminando o céu, e decidiu que um dia seria ele a tocar fogo em um à beira do Rio Ping. Corta para 2016.

Sabe, aquele deve ter sido um fundo de tela popular. Revoadas de turistas embarcavam comigo no trem que leva nove horas de Bangkok a Chiang Mai. Na estação de chegada, o preço do tuk-tuk para cruzar a cidade, que deveria custar uma pata de frango no mercado, já valia um jantar completo em troca de alguns quarteirões.

No segundo dia, quando o sol vai embora é que a magia acontece. Turistas do mundo todo tomam as ruas em direção à Ponte Nawarat, de onde as lanternas são soltas, e a coisa fica engraçada. Como acontece na micareta do Chiclete em Salvador, com um calor de 31 graus à noite, as leis da física são desafiadas e corpos passam a ocupar o mesmo lugar.

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Se você pensa que a ponte é fechada para carros, se enganou. Tudo ocorre em meio a motos e tuk-tuks – até uma ambulância passou. E aí, no meio desse caos, todo mundo quer a mesma coisa: acender a maldita lanterna e soltar. E gravar vídeo. E tirar selfie. O sentido original de gratidão a Buda já foi pelos ares junto com as primeiras lanternas.

Ouço uma brasileira berrar pro marido: “Solta logo isso daí, Jorge!” (suprimi um palavrão ou dois). Jorge, por sua vez, com a camisa empapuçada de suor, lutava com o isqueiro e um espanhol bêbado para alçar sua lanterna aos céus.

Passa um tio vendendo sorvete, e todos estamos ali tão unidos que me lembro da música do Chico em que ele confunde as pernas com as da amada. A única diferença é que eu não amava ninguém naquela multidão, bem pelo contrário.

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De repente, olho pro alto e, abstraindo ou inebriado pelo monóxido de carbono das motos, vejo as lanternas subindo calmamente, como se fossem centenas de águas-vivas bailando em um mar de escuridão. Não sei ao certo se uma lágrima ou uma gota de suor escorreu pelo rosto naquele momento. É mesmo bonito de doer.

 

(Victor Gouvêa/Divulgação)

 

 

 

Victor Gouvêa é jornalista e viu por si mesmo que a muvuca de Maya Bay, a praia do filme do DiCaprio, não é coisa de cinema

Texto publicado na edição 256 da revista Viagem e Turismo (fevereiro/2017)

 

 

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