As praias do Tiago

Litoral Norte de São Paulo: trilhas, cachoeiras e comidas que o guri aí do alto adora – e outras crianças também vão adorar 

Há dez anos, desde que troquei São Paulo pelo Atlântico, da janela eu vejo o mar. O mar e a areia da Praia do Félix, a 17 quilômetros do centro de Ubatuba. Se eu me debruçar na varanda, posso contar 13 ilhas no horizonte. A paisagem que admiro é praticamente a mesma que os primeiros navegadores europeus avistaram há 500 anos. O Félix é a nossa praia de todo dia, com abricoteiros a fazer sombra na areia fofinha, o canto esquerdo com ondas tubulares e o direito de mar manso, em que o meu pequeno Tiago, hoje com 7 anos, aprendeu a caminhar, erguer castelos de areia, nadar e surfar. Nas férias de verão o nosso paraíso vira inferno, com milhares de carros, lixo e má educação – como quase todo o resto do Litoral Norte paulista. Mas esse tormento acaba junto com o Carnaval. Em março fazemos uma festa e liberamos o Tiago para tomar seus banhos de rio e cavar buracos na areia, agora sem risco de encontrar bitucas de cigarro ou faldas descartáveis.

Nossa toca em Ubatuba é uma delícia, mas não ficamos quietos. Gostamos de descobrir outros lugares na região. Agora vou compartilhar alguns que famílias com filhos pequenos, filhos crescidos, ou mesmo sem filhos, tenho certeza, vão adorar.

Começo com um dos passeios mais legais da região, mas que fica para os lados de Paraty. É a Praia do Sono. Siga pela Rio–Santos e, ao passar a divisa, rode 8 quilômetros. Tome a estradinha para Trindade e a bifurcação para Laranjeiras. Pare o carro na Vila Oratório, onde há vários estacionamentos com vigia. Dali, após uma horinha de caminhada por trilha bem aberta, razoável para crianças (o Tiago a conheceu com 4 anos), chega-se à praia, lar de uma comunidade de pescadores, com vários quiosques pé na areia e muita sombra. O mar é muito azul, e do lado esquerdo deságua um riozinho superlimpo que o Tiago adora. Na volta do passeio, tome um barquinho até a marina de Laranjeiras, onde há sempre uma Kombi que faz o transporte para a Vila Oratório.

Outra praia para passar o dia é Puruba, a 25 quilômetros da região central de Ubatuba. Para alcançá-la, é preciso tomar uma canoa para atravessar o rio, que se alarga perto da praia e fica cheio de gaivotas. Combine um valor com o canoeiro e acerte também um passeio pelo manguezal. As crianças curtem ver os caranguejos que ficam no meio das raízes. Leve água, lanche e muito repelente. Mas traga tudo de volta: não há lixeiras na praia e a comunidade caiçara depende desse fágil ecossistema. Se a fome apertar, tome o carro e vá almoçar na praia vizinha, Ubatumirim. O lugar certo é o Bar do Ulysses (12/3212-2233; Cc: M, V), pé na areia que serve os melhores aperitivos de futos do mar, a melhor casquinha de siri e a cerveja (tem Serra Malte, gente!) mais gelada de Ubatuba. Ainda tem outro predicado: a praia defonte é mansinha, mansinha.

Quando não queremos ir muito longe, saímos do Félix para explorar a vizinha Itamambuca. Ficamos no lado esquerdo da praia. Ali tem um riozinho gostoso para a criançada que muda com as marés. O Tiago adora desbravar esse rio e sempre faz novos amigos. Só a fome é capaz de tirá-lo de lá. Nosso almoço é sempre na pousada Todas as Luas (Rua C, 115, Condomínio Itamambuca, 12/3845-3129, www.todasasluas.com.br; Cc: D, M, V), bem informal, com seu PF bem servido, açaí perfeito e, principalmente, parquinho e mesa de pingue-pongue para animar a criançada. Caso você queira se hospedar por ali, considere o Itamambuca Eco Resort (12/3834-3000, www.itamambuca.com.br; diárias desde R$ 438; Cc: A, D, M, V). Adoro quando os amigos ficam lá, pois assim levo o Tiago para brincar no kids club deles. De resto, toda a pegada é ecológica, com passeios de caiaque pelo manguezal, birdwatching, aulas de surfe, além de quadras de tênis, piscinas e um espaço comum enorme.

No centro de Ubatuba há dois endereços bacanas para comer. No almoço, o preferido do Tiago é o Peixe com Banana (Rua Guarani, 255, Praia do Cruzeiro, 12/3832-1712; Cc: A, D, M, V). Ele gosta muito do palmito pupunha na brasa e da banana assada com canela e açúcar da sobremesa. Para jantar, a Pizzaria São Paulo (Praça Paz de Iperoig, 26, 12/3832-7457) é tiro certo. Vários ingredientes das suas redondas são importados e você ainda pode temperá-las com o azeite que quiser: grego, italiano, português, espanhol, ou todos de uma vez. Depois da pizza, atravesse a rua e vá à Sorveteria Rocha (Rua Salvador Côrrea, 12/3832-1208, www.sorveteriarocha.com.br). O Tiago indica o picolé de coco queimado “É cheio de pedacinhos de coco.” Para os pais que (ainda) acham Ubatuba um lugar distante para passar um fim de semana, há quilômetros e quilômetros de praias e conforto em São Sebastião. Em Toque-Toque Grande, por exemplo, vale ficar na linda Pousada Ilha de Toque-Toque (12/3864-9112, www.ilhadetoquetoque.com.br; diárias desde R$ 350; Cc: A, M, V), com seus bangalô suspensos em platôs. É preciso ficar de olho nas crianças, mas nada que iniba essa escolha charmosa. Da pousada dá para ir a pé até a Praia das Calhetas, superdeserta. São Sebastião é forte também na gastronomia. O bom e caro Manacá (Rua do Manacá, 102, Camburizinho, 12/3865-1566; Cc: A, D, M, V) tem mesas ornadas com flores e delícias como o polvo ao alho. O Framboesa (Estrada do Camburi, 744, 12/3865-1113; Cc: M, V), da chef Lina Borges, antiga cozinheira do, adivinha só, Manacá, é mais barato. O Tiaguinho se lambuza com a panacota de iogurte com goiabas fescas sobre cama de goiabada cascão derretida. Ele e o pai dele. Programa legal para fazer da praia vizinha, Barra do Saí, é tomar um barco para ir a um ilhota com o nome estranho de As Ilhas (pois tem três elevações). Se der sorte, pega por do sol de ter foto publicada em revista.

Por enquanto eu só falei de praias. Mas, se você virar para o lado das montanhas, vai descobrir várias cachoeiras. Eu falaria de muitas, mas o Tiago é que manda agora. “A mais legal é a da Barra do Una (no km 182,5 da Rio–Santos; passe uma portaria). Eu adoro escorregar lá.” A piscina natural é incrível e a cachoeira não crowdeia, mas lembre-se de que as pedras são escorregadias e deve-se ficar atento, sempre.

Praias, trilhas, cachoeiras. Apesar de o Litoral Norte ter muitos atributos, se você me pedisse uma única dica, eu diria: leve mais crianças. Se você tem só um filho, chame um amiguinho. Compartilhar as aventuras com quem fala a sua língua é a melhor experiência do mundo para uma criança.

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