A terra do sal

Bolívia: um deserto de sal, ilhas de cactos gigantes, lagoas multicoloridas, gêiseres, animais estranhos. Parece miragem, mas está tudo lá, no Altiplano Boliviano

Para início de conversa, é importante deixar claro que viajar pela Bolívia é abrir mão do conforto e sentir dificuldade para fazer coisas básicas. E, quando eu digo básico, é básico mesmo, como o simples ato de respirar. Cheguei a La Paz, a capital política da Bolívia (a constitucional é Sucre) por terra, via Peru, para evitar os efeitos nocivos da altitude andina. Para quem chega de avião, pode levar alguns dias para que a adaptação ao ar rarefeito da cidade, que está a 3 660 metros, aconteça. Quando se sai à rua, nunca se anda em linha reta. É sempre um sobe e desce que muitas vezes me obrigou a parar e socorrer os meus pulmões em agonia. A cidade, com seus habitantes de origem indígena, se espalha pelas paredes de um vale profundo, frio e poluído.

Mas foi La Paz que serviu de ponto de partida para conhecer um lugar fascinante e surreal, o Altiplano Boliviano, um destino que abriga um impressionante deserto de sal, lagoas multicoloridas e vulcões. Para chegar ali, primeiro encarei uma viagem de ônibus que durou três horas até Oruro. Sem pausa, embarquei no trem com destino ao vilarejo de Uyuni. Logo que o trem partiu de Oruro, contornamos o Lago Uru Uru e, por sorte, fomos brindados com uma revoada de pássaros. A maioria dos meus companheiros de vagão era estrangeira, mochileiros de vários cantos do mundo.

Cerca de seis horas depois cheguei a Uyuni, um vilarejo sem graça que dificilmente constaria no roteiro de qualquer viajante não fosse ali o ponto de partida para os passeios pelo salar, o tal deserto de sal. São dezenas de pequenas agências de receptivo que se espalham pelas poucas ruas. Os grupos se formam de acordo com a demanda, de cinco a seis pessoas em média em cada jipe. No meu havia um australiano, um inglês, uma garota da Coreia do Sul e um casal holandês. Nosso guia, o boliviano Carlos, cheio de habilidades, tornou-se mais que um guia. Ao longo dos três dias de passeio ele foi também nosso mecânico, cozinheiro, motorista e contador de histórias.

Saímos de Uyuni bem cedo no dia seguinte. Era uma manhã fria e de céu muito azul. Nossas mochilas foram empilhadas no teto do jipe; nossos corpos, empilhados em seu interior. Por sorte, o incômodo do sacolejar constante foi logo esquecido quando a paisagem começou a mudar. O chão, a princípio de terra, foi se transformando em um tapete branco enquanto que no horizonte os picos nevados começaram a despontar.

Primeira parada: extração de sal. Ali vimos caminhões sendo carregados por homens que colhiam o sal bruto com pás. Eles tinham o rosto coberto para evitar os efeitos corrosivos do contato do sal com a pele. Não tive a chance de conhecer a extração de outro produto que deve alavancar a economia da Bolívia nas próximas décadas – e quem sabe tirá-la da pobreza endêmica que vive hoje –, o lítio, metal muito valorizado que é usado na fabricação de baterias e antidepressivos. O Salar de Uyini abriga 50% de toda a reserva mundial.

A parada seguinte foi no meio do nada. Sim, do nada. Nosso jipe estacionou e, olhando em 360 graus, tudo o que víamos era um platô infinitamente branco. Era impossível dizer onde terminava o chão de sal e onde começava o céu. A água, que cobria boa parte do solo, tratou de “apagar” a linha do horizonte, transformando os vulcões nevados em ilhas flutuantes. Surreal. Tentei buscar no meu baú de memórias de viagens alguma paisagem similar, mas não encontrei. O silêncio naquele momento era tamanho que eu poderia até classificá-lo como ensurdecedor; o reflexo da luz do sol que eu via no sal era de cegar; e aquela amplitude toda me causou até certa tontura. Um lugar no qual a solidão não cabe, mas onde havia muito espaço para a solitude.

Ainda embasbacados, partimos rumo à Ilha dos Pescadores, ponto que nos permitiu ter uma visão de cima de toda aquela imensidão branca. Por ser uma ilha coberta de cactos gigantes, o lugar dá indícios de que, ao redor, aquela paisagem um dia foi coberta de água com vulcões ativos. Foram eles, os vulcões, que salgaram a área há mais de 15 mil anos. As erupções despejaram toneladas de lava enriquecida de minerais, que depois foram espalhados pela água das chuvas e dos rios. O clima seco tratou de evaporar o material, deixando apenas o sal que transformou Uyuni em um imenso salar, que hoje tem um tamanho equivalente a oito cidades de São Paulo.

Voltamos a chacoalhar no jipe no fim daquele primeiro dia, indo na direção do alojamento em que passamos a noite – um enorme galpão com uma mesa comprida e rústica em uma extremidade e, na outra, várias camas acomodadas lado a lado. Havia um único banheiro. Por não ter energia elétrica, ninguém encarou o banho. Devoramos um prato de frango com batata, feito no forno a lenha, e fomos dormir.

Acordamos com os primeiros raios da manhã, e logo pegamos a estrada. E que estrada. Atravessamos o Deserto Dalí, que ganhou a alcunha por ser uma paisagem digna do pintor catalão: surreal. Há momentos em que passamos por cenários oníricos, para dizer o mínimo, nos quais é possível se sentir mesmo dentro de uma tela de Dalí. São dezenas de quilômetros de areia que abraçam picos nevados, vulcões, lagos multicoloridos e animais tão incomuns como a vicunha e a viscacha, uma mistura de coelho com chinchila que se camufla nas paredes rochosas. Deparei com uma viscacha por acaso e achei que aquele pequeno ser sairia correndo ao me ver – mas não. Ficou ali parado, como se eu fosse um objeto de curiosidade (e não era?). Àquela altura, o dia já estava mais quente, e nós nos despíamos das várias blusas e agasalhos. No começo da tarde, todos estavam de camiseta, mas o calor não durava muito, e esse vestir e despir tornou-se um exercício constante durante toda a viagem.

Enquanto avançávamos sobre aquela terra que ia mudando de tonalidade, uma parede colorida foi surgindo na nossa frente. Era a Montanha das Sete Cores. O caminho que levava até lá era desenhado por riscos deixados no solo pelos jipes que passaram antes de nós. A paleta de cores da montanha não poupou misturas que contrastavam com o céu que parecia conter todos os tons de azul. Passamos boquiabertos por aquela paisagem para nos deslumbrarmos ainda mais logo adiante, quando vimos na nossa frente um platô de areia adornado de curiosas formações rochosas, a mais famosa delas conhecida por Árvore de Pedra, esculpida pelo vento, obra digna de um Dalí ancestral.

Seguimos viagem por mais uma hora em direção à ponta sudoeste do país. Ali ficam os lagos de água salgada coloridos cujos nomes expressam bem o que encontramos. A Laguna Amarilla tem um tom de terra claro. A Blanca, em função do excesso de bórax (borato de sódio que mais parece merengue), lembra um lago de neve. Por fim, a Celeste, que reflete o céu, é um espelho perfeito, com centenas de flamingos em sua superfície. Com isso, o segundo dia pelo Altiplano chegava ao fim. Mais um alojamento e mais um dia sem banho. O bom é que todos tinham a mesma desculpa na ponta da língua: havíamos suado pouco.

Na terceira manhã, Carlos usou um argumento infalível para conseguir nos tirar da cama às 4 da madrugada: “Ou levantam agora ou vão perder os gêiseres”. Ao chegarmos ao lugar chamado Sol de la Mañana, uma hora depois, caminhamos por entre as cavidades rochosas observando as bolhas de lama que se formavam na superfície. Além do frio, tivemos de aturar um forte cheiro de enxofre. Carlos explicou que estávamos na boca de um vulcão. Dos gêiseres a cada cinco minutos saía um jorro forte e quente que de uma hora para outra silenciou.

De volta ao jipe, já dia claro, percorremos alguns quilômetros e paramos perto de uma casa de pedra. Para chegar a ela, andamos por um caminho em que havia muitas pedras empilhadas. Aprendi com Carlos que esse ato de empilhar é uma tradição do povo andino, que vê nisso sinal de sorte na vida. Aquela casa era na verdade o posto de controle da Laguna Colorada e também a entrada oficial da Reserva Nacional Eduardo Avaroa. Não demorou muito para o nosso queixo cair mais uma vez. Como o nome atesta, a laguna tem cor avermelhada, resultado da reação de minerais aos raios solares. No entorno há picos nevados. E, como se precisasse, o espelho-d’água ainda estava todo salpicado de flamingos cor-de-rosa.

Seguimos, então, para as termas de Polques. Um lago imenso que até agora não sei se era azul ou se simplesmente refletia o céu, cercado por montanhas – e mais flamingos. Fazia um frio absurdo, mas não deu para resistir às nascentes de água quente – e tampouco ao fato de que estávamos sem banho há dois dias. Nos despimos em questão de segundos e nos jogamos na água pelando.

Naquele dia, mesmo com todos os cenários surreais que já tínhamos presenciado, ainda havia algo incrível por vir: a Laguna Verde e o grandioso Vulcão Licancabur. O tom da laguna deve-se a uma combinação de arsênico, cobre e outros metais pesados que impede que qualquer tipo de vida vingue ou se alimente ali. Ainda assim, ou justamente por isso, é um lugar maravilhoso. O espelho-d’água cor de esmeralda límpido, perfeito com o vulcão de quase 6 mil metros ao fundo, fechou com chave de ouro o passeio.

A viagem terminou com o jipe descendo por uma estradinha estreita e íngreme para logo cruzar a fronteira com o Chile. Mais duas horas e chegávamos a São Pedro de Atacama e, junto, veio a queda de altitude de quase 2 mil metros – e os pulmões finalmente se encheram. Aquela viagem de contrastes: quente e frio, azul e rosa, alto e baixo, deve ficar ainda por muito tempo na minha memória. E se fazer presente em todas as conversas sobre lugares incomuns, mágicos.

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