Manoel Carlos, autor da nova novela da Globo, explica por que escolheu o Leblon como principal cenário de Páginas da Vida. Para o autor, o bairro tem aspecto de vila e justamente por isso difere de lugares como Copacabana e Ipanema. Leia abaixo a entrevista que Manoel Carlos concedeu ao repórter de VT, Rafael Lessa:
Alguns escritores gostam de ambientar suas tramasno mesmo espaço. Como Woody Allen e Paul Auster, apaixonados por Nova York, por exemplo. Nas novelas do senhor acontece o mesmo com o Leblon. Qual a importância dessa relação autor/espaço? Uma trama concentrada em Ipanema ou Copacabana seria muito diferente
Em Ipanema ou Copacabana seria a mesma coisa, se eu morasse nesses bairros. Sempre ambientei no Leblon (há quase 20 anos faço isso) porque sempre morei aqui. Gosto de fazer meus personagens viverem onde eu vivo, transitarem pelas ruas que eu transito, freqüentarem os lugares que eu freqüento. Gosto que eles se incorporem à vida do bairro. E muito provável que a Regina Duarte, aqui no Leblon, seja chamada de Helena.
Em Páginas da Vida, o senhor decidiu incluir figuras reais do Leblon na trama, como atendentes de livrarias e padarias do barrio. Por que o senhor tomou essa decisão? Como eles reagiram com o convite?
A idéia que eu tenho, desde Por Amor (1997), Laços de Família (2000) e Mulheres Apaixonadas (2003) é de aproximar as minhas novelas de uma realidade cotidiana possível. Por isso, HELENA (Vera Fischer em Laços de Família) se acidentava na rua Dias Ferreira, entrava na Livraria Argumento para ir ao banheiro lavar o rosto e lá conhecia EDU (Reynaldo Gianecchini). É para tentar dar à história alguns toques reais. Eu tento fazer uma ficção não delirante. Nunca gostei, por exemplo, de ficção científica e nem de realismo mágico. Todos os convidados receberam a notícia com encantamento.
Sem quais lugares o Leblon não seria o Leblon ou pelo menos, o SEU Leblon?
O Leblon, o meu Leblon, é todo o bairro, com predominância na Avenida Ataulfo de Paiva e rua Dias Ferreira. Sem esses caminhos o Leblon não seria o mesmo. Como imaginar o Leblon sem o Jobi, sem a Livraria Argumento, sem a Padaria Rio-Lisboa, sem o BB Lanches?
O que é o melhor do Leblon hoje? E o pior?
O melhor do Leblon é o seu aspecto de vila, onde todos se conhecem e onde ninguém vai passear. Todos que transitam pelo Leblon moram aqui. Não é como Copacabana e Ipanema, onde o público flutuante é maior do que o número de moradores. Nesses lugares parece que todos estão de passagem. No Leblon não. Por isso os rostos são tão familiares a quem mora aqui. A gente se cumprimenta na rua, mesmo sem se conhecer, porque no fundo todos se conhecem. O pior do Leblon é o pior em qualquer lugar: a violência e a intolerância, que estão tomando conta do mundo. Talvez no Leblon ainda seja menor do que em outros lugares, mas já não é o paraíso que era quando eu vim morar aqui em 1971.
Qual o seu "achado" no Leblon?
O Leblon não causa surpesas. É muito provável (diria mesmo que certo) que as pessoas venham até aqui e não vejam absolutamente nada de importante ou diferente do que vêem em outros bairros. Mas esse é justamente o segredo do Lebon: quem é de fora não vê o que nós vemos.
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Um dia perfeito no ... LEBLON (Edição 110 - 12/2004)
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