Balanço do Sónar: o festival de música eletrônica de Barcelona

Os destaques da 24a edição e o que você precisa saber para se programar para o ano que vem, quando a balada completa 25 anos em grande estilo  

*Por Rachel Sterman

 

Eu debutei no Sónar em sua 24a edição. Comecei a desenhar o que seria o festival quando cheguei no jantar de imprensa, na quarta, antes que a programação oficial começasse. No Sónar Village, o clima era de awesome people hanging out together. Muitos braços tatuados, piercings generalizados e óculos de armação grossa e escura. Vi crianças acompanhando seus pais e amigos se reencontrando. Tudo muito organizado, super sinalizado – quase impossível se perder. O espaço do Sónar +D deixava claro que, de fato, o festival hoje em dia vai muito além da programação musical – só nesta edição, a parte dedicada ao mercado de criatividade e tecnologia reuniu mais 5.500 profissionais (de 57 países), 400 exibidores e palestrantes e 157 atividades.

 

Na própria quarta-feira, Björk (grande destaque da edição) começou, às 21h, o show inaugural, marcando o início de três dias intensos de festa. A islandesa apareceu com um figurino muito louco (uma espécie de espantalho high-tech) e mostrou, como sempre, sua versatilidade musical em um set de longuííííssimas 4h.

 

E eis que um convidado surpresa entrou em cena: uma onda de calor africano que elevou as temperaturas em Barcelona a 35 graus às 19h, numa época em que os termômetros costumam ser ainda amistosos. Ficou difícil caminhar os quilômetros que ir de um palco a outro requer, respirar, existir. A grande parte da audiência procedente dos países nórdicos sentiu o baque. Vi gente desmaiada nos banheiros (aquelas caixinhas hediondas de plástico), onde a temperatura chegava facilmente a 40 graus. Mas a galera resistiu bravamente e o festival bateu seu recorde de público, atingindo 123.000 pessoas, de 105 nacionalidades.

Imagem sem crédito Mesmo com um calor senegalês, o Sónar bateu recorde de público em 2017, com 123 mil participantes

A despeito do calor ingrato, o line up foi magistral. Na minha modesta opinião, os destaques ficaram a cargo dos neozelandeses do Fat Freddy’s Drop e seu eletrônico cheio de bossa, com muitos metais e incrível presença de palco – um dos integrantes, de cuecão, quebrou o protocolo e se jogou no meio da galera. Eles também se apresentaram no SónarPub, no sábado.

A viagem introspectiva do chileno Nicolas Jaar (Sónar/Divulgação)

À noite, o rei dos samplers DJ Shadow apresentou um set que foge um pouco ao seu estilo, com uma pegada mais melódica, bailante, em um cenário quase sombrio – foi, sem dúvida, um dos pontos altos (e cheios) da noite. Outro que valeu a viagem até o Sónar Noite foi o chileno Nicolas Jaar, que apresentou um repertório meio viagem-introspecção. E, impossível não mencionar, os veteranos do Master at Work, que mandaram ver num set de (muito) fôlego no SonarCar, espaço dedicado às apresentações megalongas – a dos caras durou inacreditáveis 7 horas.

DJ Shadow movendo multidões (Sónar/Divulgação)

Não demorei para sacar que, para não passar perrengue no Sónar, basta ficar esperto com os horários de pico, principalmente na transição do Sónar Dia para o Sónar Noite, entre 22h30 e 23h30 (os melhores shows noturnos são sempre colocados nos primeiros horários, o que faz com que a multidão tenha que se deslocar como uma avalanche). Nessa hora, é melhor se adiantar um pouquinho ao final da fase diurna para não pegar tanta fila no ônibus.

 

Mas o clima do festival compensa qualquer perrengue adicional – especialmente na parte diurna, muito gostosa, com espaços para sentar no chão, mesas coletivas para a famigerada interação alcoólica e uma trilha sonora mais contemporânea, experimental, que combina muito com essa atmosfera relaxada e veranil de Barcelona. É preciso ser forte para encarar a maratona de 3 dias e 2 noites com temperaturas saarianas – sobreviver aos dia(s) seguinte(s) é quase impossível. Mas, fazendo uma curadoria bacana – a escolha dos shows que têm mais a ver com você, óbvio, faz toda a diferença na experiência –, dá para aproveitar o filé do que está rolando no mundo da música eletrônica. Ah, e desencana: não dá pra ver tudo, aceita que dói menos.

 

De maneira prática, as duas recomendações mais úteis são: use e abuse do Sónar Cashless, a pulseira-ingresso-dinheiro. Pode recarregar sem medo. Se você não der conta de consumir tudo, a organização do festival tem um eficiente sistema de devolução através de depósito pelo TransferWise. Dá para pedir o reembolso online, ainda se recuperando da ressaca. E não invente no assunto transporte. Pegue o ônibus do próprio festival: ele salva vidas na hora do retorno para casa. No mais, é torcer para o ano que vem as temperaturas estarem um pouquinho mais amenas e comprar o passe com bastante antecedência – o primeiro lote já está à venda por 115 euros. O Sónar 2018 acontece dos dias 14 a 16 de junho. O line-up ainda não está definido, mas pode apostar que vai ser peso-pesado: no ano que vem o festival completa 25 anos.

 

Para se programar ainda esse ano

 

O festival promove duas ediçoes latinoamericanas, em Buenos Aires (26 de novembro) e Bogotá (2 de dezembro). O headliner de ambas é a banda islandesa Sigur Rós.

 

 

 

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